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Saqueadores da fé

Há mais de dois mil anos, segundo os Evangelhos, Jesus entrou no templo de Jerusalém e encontrou comerciantes e cambistas…

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Saqueadores da fé


Há mais de dois mil anos, segundo os Evangelhos, Jesus entrou no templo de Jerusalém e encontrou comerciantes e cambistas fazendo negócios. Derrubou suas mesas e expulsou os mercadores.

A cena atravessou os séculos porque contém uma mensagem difícil de contornar: há coisas que não deveriam estar à venda. A fé é uma delas.

No Brasil de 2026, porém, os mercadores parecem ter descoberto uma mercadoria ainda mais poderosa que aquelas negociadas no templo antigo: a esperança das pessoas. E não é preciso recorrer a abstrações para discutir o problema. Basta olhar o que aconteceu em São Paulo no dia 7 de setembro de 2026.

Na Igreja Mundial do Poder de Deus, comandada pelo chamado apóstolo Valdemiro Santiago, o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro e o governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas, foram levados ao púlpito diante de milhares de fiéis. Outros políticos também estavam presentes.

Não estou inventando nada. Está registrado. Está filmado. Está publicado. Tarcísio leu a Bíblia e pregou. Flávio Bolsonaro preferiu fazer uma oração. Pediu que Deus afastasse do Brasil o “espírito mal” e levasse sua “espada da justiça” à Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Valdemiro Santiago, por sua vez, orou pelos candidatos. Referindo-se a Flávio Bolsonaro, perguntou à plateia se o amor que um pastor tinha por ele e por sua família não acabava “passando” também para os fiéis. Poucas cenas consigam representar tão bem a mistura contemporânea entre fé e poder político.

Quando o templo se aproxima do palanque

O dirigente religioso não precisa dizer: “vote neste homem”. Existe maneira muito mais eficiente de transmitir uma mensagem política. Coloca-se o candidato no púlpito, ora-se por ele, associa-se sua trajetória aos desígnios de Deus, fala-se em bem e mal, justiça divina e missão. Depois, cada fiel que tire sua conclusão.

Nesse mesmo culto aconteceu algo ainda mais revelador. Foi exibido um vídeo do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça. A gravação, entretanto, não havia sido produzida para aquele evento. Era de março, feita meses antes, por ocasião do aniversário da igreja. Mesmo assim, sua apresentação naquele contexto provocou questionamentos justamente porque poderia transmitir aos fiéis a impressão de uma mensagem destinada àquela ocasião.

O episódio é extraordinariamente simbólico. Num mesmo ambiente estavam religião, candidatos, discursos políticos, referências ao Supremo Tribunal Federal, oração, autoridade espiritual e uma multidão de fiéis. O templo e o palanque praticamente se encontraram. É desse fenômeno que estou falando quando uso a expressão saqueadores da fé.

Não estou falando do evangélico comum. Muito menos de todas as igrejas protestantes. Seria uma falsificação histórica colocar batistas, presbiterianos, metodistas, luteranos, pentecostais e neopentecostais dentro do mesmo saco.

Existem milhões de evangélicos honestos. Existem pastores sérios. Existem igrejas realizando trabalhos sociais extraordinários em comunidades pobres. Existem cristãos que dedicam suas vidas ao próximo sem transformar Deus em negócio ou instrumento eleitoral.

Minha crítica é dirigida a outra coisa: à apropriação da fé como instrumento de enriquecimento, construção de impérios de comunicação, formação de currais eleitorais e conquista de poder político.

Quando a esperança se transforma em mercadoria

E aqui surge uma contradição difícil de esconder. O Cristo apresentado pelos Evangelhos nasceu pobre. Não acumulou fortuna, não construiu império empresarial, não prometeu riqueza aos seguidores, não ensinou que prosperidade financeira fosse prova da preferência de Deus.

Andou entre doentes, pobres, prostitutas, estrangeiros e marginalizados. E quando encontrou comerciantes transformando o templo em mercado, expulsou-os. Como essa mensagem terminou convertida, em determinadas vertentes do cristianismo contemporâneo, numa religião em que prosperidade material, dinheiro, poder e sucesso ocupam tamanho espaço?

A resposta talvez esteja menos em Deus do que no mercado. Descobriu-se que a fé movimenta uma matéria-prima poderosíssima: esperança. Quem está desempregado espera uma saída. Quem está doente espera a cura. Quem está endividado espera prosperidade. Quem está desesperado espera um milagre. E justamente por isso a responsabilidade de quem ocupa um púlpito deveria ser enorme.

O pobre que entrega parte do pouco que possui acreditando estar cumprindo uma obrigação diante de Deus não deve ser ridicularizado. Ele merece respeito. A crítica não deve descer do púlpito para atacar o fiel. Deve subir do banco para questionar quem controla o púlpito.

Da mobilização da fé à mobilização do voto

O problema torna-se ainda mais grave quando a mesma estrutura utilizada para mobilizar fé e dinheiro passa também a mobilizar votos. Nesse ponto, religião e política formam uma combinação extremamente poderosa.

O adversário deixa de ser simplesmente alguém que pensa diferente. Pode passar a representar o mal. O candidato apoiado deixa de ser apenas um político. Pode aparecer como instrumento de Deus. A eleição deixa de ser uma disputa entre projetos de sociedade. Transforma-se numa batalha espiritual. E é justamente aí que determinadas correntes religiosas encontram terreno comum com movimentos políticos autoritários.

A história conhece esse método: construir inimigos, dividir a sociedade entre bons e maus, apresentar um líder como salvador, transformar divergência política em ameaça moral e convencer seguidores de que estão participando não de uma disputa democrática, mas de uma guerra pela salvação da nação.

Não significa que todo conservador seja fascista. Não significa que todo evangélico de direita seja autoritário. Significa algo diferente e muito mais sério: a linguagem religiosa pode ser utilizada para conferir legitimidade divina a projetos políticos que apresentam características autoritárias. E quando isso acontece, discutir política torna-se muito mais difícil.

Como convencer racionalmente alguém a mudar de candidato se lhe disseram, direta ou indiretamente, que sua escolha está relacionada à vontade de Deus?

Os novos mercadores do templo

Talvez seja essa a mais sofisticada forma contemporânea de exploração da fé. Os mercadores do templo antigo negociavam moedas e animais. Os novos mercadores descobriram que podem negociar algo muito mais valioso: esperança, medo, salvação, prosperidade e poder.

Não é preciso atacar a fé cristã para denunciar isso. É justamente o contrário. Talvez seja necessário levar o cristianismo a sério demais para aceitar silenciosamente sua transformação em negócio e palanque eleitoral.

O Cristo dos Evangelhos expulsou os mercadores do templo. Dois mil anos depois, eles parecem ter voltado. Agora possuem microfones, câmeras, redes sociais, estruturas milionárias e acesso direto aos candidatos ao poder.

Mudaram as bancas. Mudaram as mercadorias. Mas continuam fazendo a mesma coisa: transformando a fé dos pobres em dinheiro, influência e poder, e ainda têm a ousadia de dizer que fazem isso em nome de Deus.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

Foto: divulgação/imagem gerada por IA.



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