Há dias que passam. E há dias que permanecem gravados na memória, não apenas pelo que nossos olhos testemunham, mas, sobretudo, pelo que sentimos. Este domingo, 11 de outubro de 2026, foi um desses dias para mim.
Tudo começou no Largo de São Sebastião, um dos lugares mais emblemáticos de Manaus. Ali, como diria um poeta, encontram-se três templos: o templo da fé, representado pela Igreja de São Sebastião; o templo da arte, representado pelo majestoso Teatro Amazonas; e o templo do povo, representado pela própria praça.
Foi nesse encontro da fé, da arte e do povo que milhares de pessoas se reuniram para manifestar suas indignações, suas reivindicações e suas esperanças. Mas aquele Largo de São Sebastião não era, para mim, apenas o ponto de concentração de uma manifestação. Era também um reencontro com a minha própria história.
Foi naquela mesma praça que, há quase meio século, participei de manifestações estudantis, quando presidia o Centro Acadêmico de Economia e militava no movimento estudantil. Lutávamos pela meia-passagem, pelas liberdades democráticas, pelo fim da ditadura militar e pelo direito de construir um Brasil diferente.
Eu tinha 20, talvez 22 anos. Tinha a juventude no corpo, a indignação diante das injustiças e a esperança de que poderíamos transformar o país. Hoje, aos 68 anos, voltei àquela praça. Já sexagenário, trazendo comigo as experiências, as conquistas, as decepções e as marcas de uma vida inteira, reencontrei algo que o tempo não conseguiu apagar: a emoção de ver a juventude nas ruas.
A juventude nas ruas de Manaus renova a esperança
Na minha percepção, a manifestação reuniu aproximadamente 20 mil pessoas. Mas não foi apenas o tamanho da multidão que me impressionou. Foi, sobretudo, sua composição. Estimo que entre 60% e 70% dos participantes eram jovens, muitos deles estudantes. E foi essa juventude que me arrepiou.
Em meio aos gritos, às faixas, aos cartazes e às palavras de ordem, uma frase ecoava, cantada por milhares de vozes: “Ei, trabalhador, olha pra cá, eu tô na rua pro teu filho estudar!” Que coisa extraordinária!
Pensei nos trabalhadores que acordam de madrugada, que enfrentam ônibus lotados, que passam horas nas fábricas do Polo Industrial de Manaus, no comércio, nos serviços e nas mais diversas atividades para garantir o sustento de suas famílias. Pensei nos filhos desses trabalhadores, que encontram na educação a possibilidade de construir uma vida melhor.
E ali estavam os estudantes, nas ruas, lembrando que a luta pela educação não pertence apenas à juventude. Pertence também aos pais, às mães e a todos aqueles que vivem do próprio trabalho. Naquele momento, tive a sensação de que o tempo havia aproximado duas gerações: a juventude que fui e a juventude que agora estava diante dos meus olhos, cantando, protestando e reivindicando um futuro melhor.
A multidão desceu pela Rua 10 de Julho, tomou a Avenida Getúlio Vargas, entrou pela Avenida Sete de Setembro e seguiu até o Prosamim, na região da Cachoeirinha. E, ao acompanhar aquela caminhada, senti que não estava apenas participando de uma manifestação. Estava percorrendo, outra vez, os caminhos da minha própria juventude.
As vozes eram outras. Os rostos eram outros. O Brasil também era outro. Mas havia algo profundamente familiar naquela disposição de ocupar as ruas e lutar por aquilo em que se acredita. Havia indignação com as condições de trabalho, com a escala 6×1, com as desigualdades sociais e com as relações entre o poder político e o poder econômico. O caso envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master também aparecia nas palavras de ordem, algumas delas particularmente contundentes, dirigidas a Flávio Bolsonaro.
Era uma manifestação plural, que reunia pessoas do PT, do PCdoB, de outros segmentos políticos e cidadãos sem filiação partidária, como eu. Não era uma manifestação exclusiva de uma legenda, mas um encontro de diferentes vozes em torno de preocupações sociais e políticas.
Manaus, o trabalho e os desafios da democracia
No primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, Lula venceu no conjunto do Amazonas, mas foi derrotado em Manaus. Esse contraste revela o tamanho do desafio político que temos diante de nós.
Não ignoro essa realidade. Uma manifestação, por maior que seja, não significa necessariamente uma mudança na preferência da maioria dos eleitores. Mas o que presenciei hoje me fez recordar uma frase frequentemente atribuída a Ariano Suassuna: “O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.”
É assim que me reconheço: um realista esperançoso. Minha esperança tem também uma dimensão política concreta. Identifico-me com o projeto social defendido pelo governo Lula, especialmente com a valorização do trabalho, a ampliação das oportunidades educacionais, a proteção da renda das famílias e a manutenção das políticas públicas que permitem aos filhos dos trabalhadores permanecer na escola.
Defendo igualmente o fim da escala 6×1 e sua substituição por uma jornada de cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução salarial. Não se trata apenas de reorganizar a jornada de trabalho. Trata-se de reconhecer que o trabalhador tem direito à convivência familiar, ao lazer, ao descanso e à própria vida. Penso especialmente nas famílias em que pai e mãe trabalham. Um dia a mais de descanso pode significar mais tempo para acompanhar a educação dos filhos, participar de suas vidas, conversar, brincar e simplesmente estar presente.
O trabalhador não vive apenas para trabalhar
É por essa perspectiva que considero fundamental o debate sobre a preservação dos direitos previstos na CLT e sobre os efeitos concretos das propostas de flexibilização trabalhista.
A palavra de ordem dos estudantes ganha, assim, um significado ainda maior. Para que o filho do trabalhador possa estudar, não basta existir uma escola. É preciso que sua família tenha renda, segurança, proteção social e condições de acompanhar sua formação.
Estamos a duas semanas do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro. É uma oportunidade para discutir não apenas nomes e partidos, mas os diferentes projetos de país e suas consequências para a vida da população. Para o Amazonas, essas escolhas também envolvem a preservação das vantagens tributárias da Zona Franca de Manaus, a defesa dos empregos e a continuidade de políticas públicas capazes de reduzir as desigualdades.
Não podemos tratar essas questões como simples promessas eleitorais. É necessário conhecer as propostas, questionar suas consequências e exigir compromissos claros de quem pretende governar o país. A democracia exige mais do que entusiasmo eleitoral. Exige informação, participação, responsabilidade e respeito às instituições.
Por isso, não saí daquela caminhada convencido de que o resultado das urnas esteja definido. Saí convencido de que existe uma juventude disposta a participar, a questionar e a defender aquilo em que acredita. E isso tem um valor imenso.
Ao olhar para aqueles jovens, lembrei-me de quantas vezes, ao longo da história brasileira, os estudantes estiveram presentes nas grandes mobilizações nacionais. A juventude não possui o monopólio da razão, mas tem desempenhado um papel importante ao questionar aquilo que as gerações anteriores, por vezes, aprenderam a aceitar.
Naquele domingo, diante dos três templos do Largo de São Sebastião, tive a impressão de que algo importante estava sendo dito à nossa cidade. A fé nos recordava a capacidade de acreditar. A arte nos recordava a capacidade de imaginar. E a praça, tomada pelo povo, nos recordava a capacidade de agir. Talvez seja essa a síntese do que vivi.
Manaus não precisa pensar de uma única maneira. Precisa discutir, participar, questionar e compreender o que está em jogo nas decisões políticas e econômicas do país. A esperança que trouxe daquela caminhada não nasceu de uma previsão eleitoral. Nasceu do encontro com uma juventude que, em vez de permanecer indiferente, resolveu sair às ruas. Voltei para casa emocionado. E, confesso, ainda ouvindo aquelas vozes:
“Ei, trabalhador, olha pra cá, eu tô na rua pro teu filho estudar!”
Talvez aqueles jovens não tenham consciência de quanto essa frase pode significar para quem já percorreu tantos caminhos e acompanhou tantas lutas. Mas eu senti.
Aos 20 anos, eu estava naquela praça para lutar pelo futuro. Aos 68, voltei à mesma praça e encontrei uma juventude que me fez continuar acreditando nele.
A história não está pronta. O futuro não está escrito. E a realidade, por mais difícil que seja, pode ser transformada pela ação consciente das pessoas. Sou um realista esperançoso. E neste domingo, nas ruas de Manaus, encontrei razões para continuar sendo.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
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