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Ronaldo Barbosa: toada, alegoria e revolução estética

[ad_1] Há compositores que escrevem canções para acompanhar um espetáculo. Outros, mais raros, criam canções que modificam a própria maneira…

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Ronaldo Barbosa: toada, alegoria e revolução estética

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Há compositores que escrevem canções para acompanhar um espetáculo. Outros, mais raros, criam canções que modificam a própria maneira de o espetáculo existir. Ronaldo Barbosa pertence a esse segundo grupo.

A contribuição de Ronaldo ao Boi-Bumbá Caprichoso não se limita ao extraordinário repertório que construiu ao longo de quatro décadas. Está também na transformação estética que ajudou a produzir no Festival de Parintins, especialmente na relação entre a toada, a alegoria e a encenação na arena.

Essa talvez seja a dimensão mais importante de sua obra. Antes de Ronaldo, a toada já era a expressão musical fundamental do boi-bumbá. Com ele e outros artistas de sua geração, porém, passou a desempenhar uma função ainda mais complexa.

Nesse sentido, além de embalar a dança e mobilizar a galera, a toada tornou-se narrativa, atmosfera e roteiro. Passou a anunciar personagens, conduzir rituais, orientar movimentos alegóricos e preparar emocionalmente o público para aquilo que surgiria no Bumbódromo.

Em suas composições, a toada não aparece ao lado da alegoria como simples acompanhamento sonoro. As duas parecem nascer da mesma ideia. Assim, a música sugere formas, cores, movimentos e imagens; a alegoria, por sua vez, materializa o universo aberto pela letra e pela melodia. É nesse encontro que se encontra uma das assinaturas artísticas de Ronaldo Barbosa.

Quando a toada se tornou dramaturgia

Ronaldo compreendeu muito cedo que o Festival de Parintins caminhava para se tornar um espetáculo de crescente complexidade visual e narrativa. A toada precisaria acompanhar essa transformação. Para isso, não bastava compor refrãos de fácil assimilação. Era necessário construir tensão, introduzir personagens, desenvolver conflitos e criar momentos de suspensão e desfecho.

Canções como Pesadelo dos Navegantes mostram com clareza essa concepção. A composição não se limita a contar um episódio relacionado à conquista da Amazônia. Ela estabelece um ambiente dramático, movimenta personagens e produz uma sequência de imagens que pode ser convertida em ação cênica. A música conduz o espetáculo porque já contém, em sua estrutura, uma espécie de alegoria imaginada.

O mesmo ocorre, de formas distintas, em Amazônia Quaternária, Réquiem: Prece aos Espíritos, Vale do Javari, Gêne, Amazonas Ayakamaé, Amazônia, Catedral Verde e tantas outras. São obras nas quais a pesquisa, a elaboração poética e a preocupação musical se encontram. Em vez de apenas descrever a Amazônia, Ronaldo procura interpretá-la por meio de seus conflitos, cosmologias, seres, paisagens e temporalidades.

Essa construção guarda relação direta com sua trajetória. Durante o período em que trabalhou na Fundação Nacional do Índio, a Funai, Ronaldo percorreu diferentes regiões da Amazônia e conviveu com povos indígenas. Segundo relatou ao jornal A Crítica, essa experiência influenciou sua produção e permitiu que levasse ao Caprichoso ritmos, sonoridades e conhecimentos adquiridos nessas vivências.

Além disso, no início dos anos 1990, ajudou a introduzir novas batidas de ritual e, em Fibras de Arumã, de 1994, participou de uma experiência pioneira com o uso do teclado nas toadas do boi azul e branco.

A Amazônia como experiência, não como cenário

Há um aspecto da obra de Ronaldo Barbosa que merece atenção: a Amazônia de suas composições não é apenas uma paisagem contemplada de longe. Ela surge como território vivido, habitado por diferentes povos, atravessado por histórias, disputas, crenças e formas próprias de compreender o mundo.

Esse cuidado não elimina as questões que hoje cercam a presença de referências indígenas no Festival de Parintins. Ao contrário, permite situar Ronaldo dentro de um processo histórico no qual o próprio festival ampliou, progressivamente, o espaço dedicado às cosmologias e às lutas dos povos originários. Sua obra teve papel importante nesse deslocamento temático.

Ronaldo trouxe para o centro da arena uma Amazônia que não poderia ser reduzida ao verde da floresta ou à imponência dos rios. Em suas toadas, ela também é memória, espiritualidade, violência colonial, resistência e transformação. Consequentemente, essa densidade diferencia sua produção e ajuda a compreender por que tantas de suas toadas sobreviveram aos festivais para os quais foram originalmente compostas. Entretanto, talvez nenhuma obra revele tão profundamente sua relação com a região quanto Saga de um Canoeiro. Composta em homenagem ao pai, a toada transforma a canoa em metáfora da existência.

O canoeiro que parte em direção a um porto distante pertence à experiência social amazônica, mas sua travessia alcança uma dimensão universal: todos navegamos em busca de algum destino, enfrentando correntezas, despedidas e incertezas. É por isso que a canção permanece. Ela nasce de uma experiência particular, mas não fica aprisionada nela. Desse modo, a lembrança familiar torna-se memória coletiva; a viagem do canoeiro passa a representar também a nossa própria passagem pelo mundo.

Uma obra que o povo fez sua

Em 2018, quando alcançou a marca de cem músicas gravadas pelo Caprichoso, Ronaldo Barbosa já ocupava um lugar singular na história do boi. Segundo relatou para A Crítica, era então o compositor com o maior número de canções lançadas pela agremiação. Desde aquele momento, o repertório continuou crescendo. A quantidade impressiona, mas, isoladamente, não explica sua importância.

A medida mais justa de sua obra está naquilo que permaneceu. Suas toadas continuam sendo cantadas muito depois de encerrada a disputa para a qual foram concebidas. Algumas atravessaram gerações, ganharam novas interpretações e se incorporaram à memória afetiva do torcedor do Caprichoso. Já não pertencem somente ao compositor. Tornaram-se patrimônio de uma comunidade.

No dia 14 de agosto de 2026, Ronaldo Barbosa recebeu da Câmara Municipal o Título de Cidadão Parintinense. Nascido em Campina Grande, na Paraíba, tornou-se cidadão da cidade cuja cultura ajudou a projetar e transformar.

Portanto, as homenagens institucionais recebidas em Parintins e em Manaus – respectivamente, os títulos de Cidadão Parintinense e de Cidadão Amazonense – são justas, mas apenas confirmam algo que a história do festival já havia estabelecido: há muito tempo Ronaldo pertence a Parintins, assim como uma parte importante de Parintins vive em suas canções.

Considerações finais

Chamamos Ronaldo Barbosa de mestre da cultura popular não apenas por deferência à sua trajetória. Mestre é aquele que recebe uma tradição, trabalha sobre ela e a entrega transformada às gerações seguintes. Foi exatamente isso que ele fez. Aprendeu com os antigos compositores, incorporou experiências vividas na Amazônia e ajudou a criar novas possibilidades para a toada de boi-bumbá.

Depois de Ronaldo Barbosa, a toada já não entra sozinha na arena. Leva consigo a cena, a alegoria, os personagens e o mundo que o artista imagina. E, quando o Festival termina, esse mundo permanece na memória.

Sociólogo*.

Maestro e Produtor Musical**.

Foto: Arquivo pessoal.

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