Se é lenda ou não, fico com a lenda. Gosto de lendas. Por serem lendas, têm mais fascínio e mistério. Mesmo porque se é fato ou lenda, em nada vai alterar o que acabo de desencavar da memória.
Então, diz que a coisa se deu, segundo pesquisei no Santo Google, durante a famosa Guerra dos Cem Anos entre ingleses e franceses. Por sinal, essa guerra na verdade durou 123 anos, de 1330 a 1453, portanto muito mais do que o nome que lhe deu fama.
Diz que, ainda, que os ingleses, embora em menor número, detinham a patente de um arco longo que, associado à sua excepcional habilidade com o auxílio do dedo médio, fazia chover flechas em abundância sobre os franceses. Tanto que os súditos de Henrique VI ganharam de lavagem do exército francês, até então o mais poderoso da época.
Mas antes disso, diz que o rei francês Felipe VI, sabedor da notória habilidade inglesa com o arco longo, ordenou aos seus soldados que cortassem o dedo médio dos prisioneiros ingleses. Assim, eles ficariam impossibilitados de usar o que hoje a gente chama carinhosamente de dedão.
Não houve jeito. Os franceses perderam a batalha final. E, para ostentar a razão maior de sua vitória, diz que os ingleses levantavam o braço, esticavam o dedo médio e recolhiam os dedos anelar e indicador. O gesto era de mais puro deboche com os franceses, como a dizer: Viu, foram derrotados pelo dedão!
Essa, então, teria sido a origem do uso do dedão, que, desde os tempos de eu menino, aprendi pelo singelo nome de cotoco.
A elegância do cotoco
Portanto, se é lenda ou não, se outros dizem que o gesto já existia ou não desde o Império Romano, para mim pouco importa. Importa, isso sim, lembrar que os cotocos da minha infância tinham as mais variadas nuances e valor. Um cotoco bem dado, por exemplo, às vezes dispensava qualquer palavra de apoio para dar vida plena ao seu propósito certeiro. Diferentes posições e movimentos do braço e da mão, associados a uma dada expressão facial, eram suficientes para o destinatário perceber o valor e a menor ou maior gravidade do cotoco. Ou seja, havia elegância no cotoco.
Para mim, entretanto, uma das maiores inovações no moderno uso do cotoco, que desconheço se ainda hoje sobrevive, destinava-se a fechar com chave de ouro o desfecho de uma boa e civilizada briga. O protagonista esticava completamente o braço na direção do adversário, montava o cotoco na posição vertical, com a palma da mão para cima, e acrescentava sem dó nem piedade: Senta e pedala!
O autor é professor, escritor e filólogo.*
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