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Palmeira-juçara: adicionalidade climática na Mata Atlântica

Em uma Mata Atlântica marcada pela predominância de pequenos remanescentes, pelo isolamento e pelos efeitos de borda (Ribeiro et al.,…

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Palmeira-juçara: adicionalidade climática na Mata Atlântica


Em uma Mata Atlântica marcada pela predominância de pequenos remanescentes, pelo isolamento e pelos efeitos de borda (Ribeiro et al., 2009), o repovoamento com a palmeira-juçara (Euterpe edulis) apresenta elevado potencial de adicionalidade climática ao favorecer processos ecológicos capazes de ampliar os estoques de carbono desses remanescentes.

Tal relevância decorre de sua capacidade de reativar processos ecológicos comprometidos nessas paisagens, ao oferecer recursos à fauna dispersora de sementes e, assim, favorecer a regeneração natural da floresta. A recuperação dessas interações pode contribuir para o estabelecimento de espécies arbóreas de grande porte e, consequentemente, para a ampliação dos estoques de carbono (Bello et al., 2015).

Esse potencial se concretiza, em primeiro lugar, por meio das interações entre a juçara e a fauna frugívora. Ao oferecer frutos atrativos, a espécie mobiliza aves de grande porte – como a jacutinga (Aburria jacutinga), o pavó (Pyroderus scutatus) e a araponga (Procnias nudicollis), além de tucanos, araçaris e surucuás – que, ao se alimentarem, transportam e dispersam suas sementes (Rother; Pizo; Jordano, 2016).

A frugivoria e a dispersão de sementes constituem interações mutualísticas fundamentais para a regeneração e a manutenção da diversidade das florestas tropicais (Jordano, 2000). Ao assegurar a dispersão de espécies arbóreas de sementes grandes, muitas das quais alcançam maior porte na fase adulta, os grandes frugívoros contribuem também para a manutenção da biomassa e dos estoques de carbono das florestas tropicais (Bello et al., 2015).

Em paisagens fragmentadas, como as encontradas no Sudoeste Paulista, a perda e a fragmentação do habitat nativo, associadas à pressão histórica da caça, podem provocar a ausência ou a acentuada redução de aves dispersoras e de mamíferos de médio e grande porte. Esse processo pode produzir as chamadas “florestas vazias”: remanescentes que conservam sua cobertura arbórea, mas se encontram funcionalmente empobrecidos pela perda da fauna e das interações ecológicas por ela desempenhadas (Redford, 1992). Nesse sentido, ao comprometer a dispersão de sementes grandes e a regeneração de espécies arbóreas de maior porte, a defaunação pode reduzir, ao longo do tempo, a biomassa e os estoques de carbono dessas florestas (Bello et al., 2015).

A recuperação das populações de juçara pode, portanto, contribuir para reverter esse quadro. Quando alcança a fase reprodutiva, a palmeira amplia a oferta de frutos e fortalece suas interações com diferentes dispersores (Rother; Pizo; Jordano, 2016). Ao circularem pela paisagem, esses animais também transportam sementes de outras espécies, diversificando a chuva de sementes e favorecendo o enriquecimento ecológico dos fragmentos (Camargo et al., 2022).

No médio e no longo prazo, o avanço sucessional e a incorporação de espécies arbóreas de maior porte podem promover aumentos nos estoques de biomassa e carbono, como demonstram estudos sobre restauração ecológica na Mata Atlântica (Suganuma; Torezan, 2013; Azevedo et al., 2018).

O imperativo do repovoamento

Diante desse cenário, é necessário acelerar a recuperação das populações da palmeira-juçara nas áreas de sua ocorrência natural ao longo da Mata Atlântica, sobretudo nas paisagens em que a espécie se tornou rara ou foi localmente eliminada. Essa medida é particularmente estratégica em um bioma reconhecido como hotspot mundial de biodiversidade, que abriga cerca de 20 mil espécies de plantas vasculares, das quais aproximadamente 8 mil são endêmicas (Myers et al., 2000).

Embora estimativas de alta resolução indiquem que a vegetação nativa ainda ocupe cerca de 28% da extensão original do bioma (Rezende et al., 2018), essa cobertura se encontra distribuída de maneira desigual e altamente fragmentada, com predominância de pequenos remanescentes isolados e submetidos a efeitos de borda (Ribeiro et al., 2009).

Além disso, parte expressiva das florestas recentemente regeneradas é novamente desmatada antes de se consolidar, revelando elevada rotatividade e baixa persistência da regeneração (Piffer et al., 2022). Em muitas paisagens, a cobertura florestal permanece abaixo do limiar de aproximadamente 30%, abaixo do qual aumentam os riscos de extinções locais e de comprometimento dos processos ecológicos. Esse quadro reforça a necessidade de conservar os remanescentes e restaurar sua conectividade (Joly; Metzger; Tabarelli, 2014).

Nesse contexto, a recuperação das populações de juçara pode contribuir para o enriquecimento ecológico da Mata Atlântica. Inserida em estratégias mais amplas de restauração, a espécie favorece a manutenção da biodiversidade e pode contribuir para diversos serviços ecossistêmicos, como a regulação climática, a proteção do solo e o sequestro de carbono (Rezende et al., 2018). Ao ampliar a oferta de frutos, a juçara também pode intensificar a atividade dos frugívoros ainda presentes na paisagem e, consequentemente, a dispersão de sementes, fortalecendo as interações entre fauna e flora essenciais ao funcionamento da floresta (Jordano, 2000; Bello et al., 2015).

A relevância da juçara, portanto, vai além de sua contribuição para o estoque de carbono. Florestas estruturalmente complexas oferecem alimento, abrigo e condições de deslocamento para diferentes vertebrados arborícolas. Entre eles, destaca-se o muriqui, um grande frugívoro da Mata Atlântica que, ao se movimentar pelas copas em busca de alimento, dispersa numerosas sementes e contribui para o recrutamento de espécies vegetais e a renovação da floresta (Bueno et al., 2013). De maneira complementar, aves frugívoras, como tucanos e arapongas, também participam desse processo ao transportar sementes para além das plantas de origem, fortalecendo as interações entre fauna e flora que sustentam a regeneração florestal (Jordano, 2000).

A lógica ecológica é simples, embora não automática: ao ampliar a oferta de frutos, a juçara favorece a atividade de animais frugívoros que, ao se deslocarem pela paisagem e consumirem frutos de diferentes espécies, transportam novas sementes para os fragmentos. Esse processo pode tornar a chuva de sementes mais rica e diversificada e favorecer o recrutamento de espécies arbóreas ausentes ou pouco representadas nessas áreas (Camargo et al., 2022).

Entre as espécies dispersas por frugívoros de médio e grande porte estão árvores de sementes grandes e elevada densidade de madeira, cuja regeneração pode ampliar, no longo prazo, a biomassa e o estoque de carbono da floresta (Bello et al., 2015). À medida que a vegetação recupera sua diversidade e complexidade estrutural, também passa a oferecer mais recursos alimentares e hábitats para a fauna, reforçando as interações que sustentam a regeneração florestal.

Investir no enriquecimento dos fragmentos florestais com a palmeira-juçara pode, assim, estimular um ciclo virtuoso: a maior oferta de frutos favorece a atividade dos dispersores; esses animais transportam sementes de diferentes espécies; e a regeneração progressiva de árvores de grande porte e elevada densidade de madeira amplia a diversidade e a complexidade estrutural da floresta. Uma floresta mais complexa, por sua vez, oferece mais recursos alimentares e hábitats à fauna, reforçando as interações ecológicas e a própria dispersão de sementes. No médio e no longo prazo, essa dinâmica pode aumentar a biomassa, fortalecer a resiliência ecológica e ampliar o estoque de carbono dos remanescentes (Bello et al., 2015; Azevedo et al., 2018).

Mais do que uma palmeira, portanto, a juçara constitui um elo entre biodiversidade, clima e economia. Ao articular restauração florestal, mitigação das mudanças climáticas e geração de renda em bases sustentáveis, seu manejo demonstra que conservar a floresta em pé pode ser um caminho viável de desenvolvimento para as comunidades da Mata Atlântica (Barroso; Reis; Hanazaki, 2010). Assim, a juçara se apresenta não apenas como uma aliada da recuperação do bioma, mas também como símbolo do futuro que precisamos construir.

Aldenor da Silva Ferreira é Doutor em Ciências Sociais, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Câmpus Lagoa do Sino. Coordena o Programa de Pós-Graduação em Conservação e Sustentabilidade (PPGCS), vinculado ao Centro de Ciências da Natureza (CCN) da UFSCar.*

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9885729254698394

Alexandre Camargo Martensen é Doutor em Ecologia e Evolução, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Câmpus Lagoa do Sino. Líder do Grupo de Pesquisa NEEDS – Núcleo de Estudos em Ecologia Espacial e Desenvolvimento Sustentável.**

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1608659358382981

Grupo de Pesquisa: https://www.needs.ufscar.br

Foto: NEEDS/UFSCar.

Referências

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BARROSO, R. M.; REIS, A.; HANAZAKI, N. Etnoecologia e etnobotânica da palmeira-juçara (Euterpe edulis Martius) em comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, São Paulo. Acta Botanica Brasilica, v. 24, n. 2, p. 518–528, 2010. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-33062010000200022.

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