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O título de Doutora Honoris Causa quebra barreiras do cientificismo

Maria de Fátima Guedes Araújo disse ao BNC Amazonas que o título de Doutora Honoris Causa que a Universidade Federal…

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O título de Doutora Honoris Causa quebra barreiras do cientificismo


Maria de Fátima Guedes Araújo disse ao BNC Amazonas que o título de Doutora Honoris Causa que a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) lhe concedeu sinaliza que a instituição quebra barreiras do cientificismo e abre espaço ao conhecimento local e ancestral. 

Ela teve a honraria aprovada pelo Conselho Universitário (Consuni/Ufam), em 20/8/26, será homenageada em solenidade pública a ser marcada pela Reitoria da Ufam.

Fátima Guedes é graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e professora aposentada da rede estadual de ensino. Nasceu e mora em Parintins.

“Fui surpreendida”, resumiu, após a decisão unânime do colegiado máximo da Ufam. O motivo da sua reação vem do posicionamento dominante nas universidades que, com raras exceções, separa conhecimentos científicos e conhecimentos locais e ancestrais.

A militância em defesa das mulheres e da justiça popular atraíram Fátima Guedes à participação ativa em movimentos sociais nacionais e internacionais, na condição de conhecedora e divulgadora das culturas amazônicas. 

Tornar-se Doutora Honoris Causa, para ela, é o atestado de que seu engajamento a fundação de um outro mundo, baseado no bem viver e não no bem-estar, alcançou reconhecimento público. 

A horaria, entende ela, é extensiva a todas as pessoas, especialmente as mulheres, que somam esforços para visibilizar a violência generalizada, os saberes populares e outras formar de organização social, como as das sociedades ancestrais.

Como no lapidar verso da poeta parintinense Joelma Maia, Fátima Guedes afirma que é uma “poeirinha inquieta” que incomoda, intervém, sensibiliza e desperta consciências.

Se as vezes pensou em ao menos tirar férias das lutas sociais, o título de Doutora Honoris Causa renova a sua energia para caminhar sempre em busca da liberdade, da solidariedade, da paz e da justiça às sociedades maltratadas e invisibilizadas pelo capitalismo.

Confira trechos da entrevista:

Qual é o peso do título de Doutora Honoris Causa na tua vida pessoal e da militante feminista?

Esse título, na verdade, me cobra mais responsabilidades. Estou numa idade avançada, sou septuagenária.  E às vezes penso assim: agora vou me recolher, o que tinha para semear, semeei, o que tinha para brotar, brotou. 

Mas, na verdade, não dá para me recolher e silenciar depois desse reconhecimento da universidade, porque vejo assim também: o reconhecimento não é à pessoa da Fátima Guedes, mas por todas as instigações, por todas as provocações e por essa militância que está aí. Isso porque não é a pessoa em si que faz, mas é aquele chamado, aquela vibração interior que o universo traz para que a gente aja e intervenha. 

Então, não dá para parar agora, sabe? Às vezes fico refletindo. E agora? O que posso fazer? O que tenho que fazer? Quais os energéticos a adicionar nesses momentos que fluem na minha vida, haja vista que o sistema está cada vez mais violento, mais injusto. E agora? Então, o despertar para essa realidade em prol da justiça popular e ambiental se torna muito mais forte, muito mais ativo. 

Já deu para sentir os efeitos desse título nas suas atividades?

Esse reconhecimento que a Ufam me trouxe não é individual, pelo ego da Fátima Guedes.  Vejo pelo reconhecimento de toda essa militância, por todas essas lutas, por todas essas intervenções. 

Às vezes me sinto como uma “poeira inquieta”, como diz a poeta Joel Maia. Sou uma poeirinha que incomoda, intervém, desperta consciência e sensibiliza. Esse olhar da Ufam veio, justamente, por conta dessa leitura que faço. 

Considero, também, o peso da Ufam, essa instituição pública de renome que, de repente, reconhece esse envolvimento e comprometimento em defesa de uma causa social, política e universal, que envolve mulheres e a grande mãe, a fêmea universal.

A Ufam é uma universidade lastreada no conhecimento científico. Suas atividades privilegiam o conhecimento tradicional. Há pontes entre esses conhecimentos?

As últimas administrações da Ufam abriram portas entre o conhecimento científico e o conhecimento tradicional. As pesquisas que fiz por intermédio de Paulo Freire, Frei Beto, Leonardo Boff, dom Helder Câmara e tantos outros, ensinam que se há conhecimento científico é porque houve uma base de sabedoria tradicional para se chegar às teorias acadêmicas. 

Então, de repente, o reconhecimento da minha trajetória de vida é porque a universidade reconhece tudo isso. E essa postura permite a quebra das bases da própria universidade e do cientificismo, para que os conhecimentos tradicionais das nossas ancestralidades tenham visibilidade.  E, também, possam contribuir com transformações estruturais nesse sistema que vivemos. 

A senhora pretende lecionar em curso superior? 

Honestamente, me vejo pequena diante das exigências das universidades, porque hoje quem manda nas metodologias e estratégias de ensino é o sistema capitalista.

Então, as teorias que estão comandando o sistema de ensino no Brasil, seguem essa dinâmica piramidal. O grupo lá de cima determina. Não tenho a pretensão de lecionar. 

Caso surja algum convite de participação e diálogos, certamente, darei a minha contribuição, mas não sei se o acúmulo das sabedorias e conhecimentos que busquei de forma autodidata contemplaria esse perfil que o sistema impõe às universidades. 

Trace um panorama da presença das universidades em Parintins e suas relações com o conhecimento local.

Os diálogos das universidades na cidade de Parintins com os movimentos sociais e conhecimento local evoluíram nas últimas administrações. Hoje, as universidades abrem espaços para rodas de conversa, para seminários, para encontros e para momentos em que as vozes da comunidade e os saberes da comunidade se fazem presentes. 

E isso é muito importante, porque vai quebrando sutilmente esse sistema piramidal e vai se construindo o círculo, assim como nas primeiras sociedades, que construíam conhecimentos por meio de diálogos e olhares, interagindo com as contribuições individuais e coletivas. 

Então, as universidades hoje, em Parintins, estão nessa perspectiva. Estão abrindo as portas e os espaços para participação das sabedorias da comunidade.

Perfil 

Maria de Fátima Guedes de Araújo é:

Professora aposentada da rede estadual de ensino.

Graduada em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Especialista em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) junto à Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) Guararema (SP).

Militante da Marcha Mundial das Mulheres e da Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde (Aneps). 

Pesquisadora de conhecimentos Populares Tradicionais da Amazônia.

Uma das fundadoras da Associação das Mulheres de Parintins e da Articulação Parintins Cidadã da Teia de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta.

Autora das obras: Ensaio de Rebeldia, Algemas Silenciadas, Vestígios de Curandage, Retalhos de Cidadania, organizadora do Glossário Falares Cabocos; Era uma Vez os Pequeninos da Tia Fá (Antologia infantojuvenil; A Saga do boi-bumbá em preto-e-branco; Águia Vermelha (musicada em 1998, pela Escola de Música da Uerj. 

 Trabalho Monográfico: Conhecimento: Estrada de mão dupla: a relação entre os saberes oficial e popular na construção da saúde de Parintins.

Obras em fase conclusão: Memórias de Petchebatã; Considerações Finais e Pró Ética.

Fotos: divulgação



BNC Amazonas

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