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O homem que brigava com o apelido

[ad_1] Há quase quarenta anos, conheci Fernando. Não me recordo de como nasceu a alcunha. Afinal, apelidos populares raramente têm…

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O homem que brigava com o apelido

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Há quase quarenta anos, conheci Fernando.

Não me recordo de como nasceu a alcunha. Afinal, apelidos populares raramente têm certidão de nascimento. No entanto, Fernando passou a ser conhecido por toda a cidade como Bereré Cagão.

O apelido talvez tivesse morrido ainda menino, desses que aparecem numa esquina e desaparecem na seguinte, não fosse o próprio Fernando ter decidido criá-lo como filho. Bastava alguém gritar de longe:

— Bereré Cagão!

Fernando interrompia o passo, procurava o autor da afronta e respondia com um sonoro:

— Tua mãe!

Se repetissem o apelido, repetia ele a resposta:

— Tua mãe! Tua mãe! Tua mãe!

E assim prosseguia até lhe faltar o fôlego ou sobrar juízo aos provocadores, aliás, coisa que, entre rapazes, costuma demorar.

Fernando não sabia, mas trabalhava diariamente na divulgação da própria alcunha. Era seu propagandista mais dedicado. Quanto mais brigava com o apelido, mais o apelido se agarrava a ele. Se tivesse recebido a provocação com silêncio, talvez continuasse apenas Fernando. Como respondia, virou definitivamente Bereré Cagão.

A cidade acabou gostando dele. Fernando tornou-se uma figura conhecida, quase uma instituição municipal. Não porque fosse cagão, isso jamais ficou provado, mas porque oferecia ao público o espetáculo gratuito de sua indignação.

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Passaram-se quase quarenta anos até que encontrei outro Bereré.

Este, entretanto, não é um personagem de esquina. É homem poderoso, cercado de influência, reverências e gente encarregada de concordar com ele. Anda por salões importantes, ocupa tribunas, decide destinos e certamente não responderia se alguém o chamasse de Fernando.

Mas experimente dizer:

— Maus Caminhos!

O efeito é imediato.

O homem se agita, levanta a voz, aponta o dedo e parece disposto a resolver pessoalmente a questão. Se pudesse, talvez agarrasse o apelido pelo colarinho e o desafiasse para uma luta. O problema é que apelidos não têm pescoço. Têm apenas memória.

E a memória, essa criatura insolente, não aceita intimação, não se assusta com poder e tampouco obedece a discursos. Quanto mais tentam expulsá-la, mais ela se acomoda. Senta-se à mesa, pede café e fica.

Não sei se o novo Bereré percebeu que assumiu o emprego de divulgador oficial de Maus Caminhos. Cada reação sua renova a história. Cada grito passa uma demão de tinta na velha inscrição. Cada ameaça cola mais firmemente a alcunha à sua imagem.

Se aplicasse o antídoto correto, talvez o tempo realizasse o favor de gastar o apelido. Mas o homem não permite. Faz questão de alimentá-lo em público, regá-lo com indignação e apresentá-lo a uma geração que talvez nem soubesse de sua existência.

É possível até que não exista culpa alguma por trás do apelido. Apelidos, como sabemos, não dependem de sentença judicial. Alguns nascem de um fato; outros, de um boato; muitos sobrevivem apenas porque o apelidado insiste em lutar contra eles.

Fernando respondia “tua mãe” até perder o fôlego. O poderoso de agora reage com discursos, ameaças e convites para a briga. Mudaram o personagem, o cenário e as palavras. A comédia, porém, permanece a mesma.

A diferença é que Fernando acabou querido pela cidade.

Quanto ao novo Bereré, ainda não sabemos como terminará a história.

Sabemos apenas que basta alguém dizer “Maus Caminhos” para ele olhar para trás.

E ninguém olha para trás tantas vezes sem acabar mostrando ao público exatamente aquilo que gostaria de esconder.

Arte: GPT

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