Pular para o conteúdo

O dia em que Steven perdeu a voz

Hassan sempre foi um cachorro de poucas palavras. Imponente, vigilante e senhor absoluto do quintal, ele não permitia que estranhos…

3 min de leitura
Compartilhar: WhatsApp X
O dia em que Steven perdeu a voz


Hassan sempre foi um cachorro de poucas palavras.

Imponente, vigilante e senhor absoluto do quintal, ele não permitia que estranhos se aproximassem demais da casa. Bastava alguém diminuir o passo diante do portão para que ele se levantasse e deixasse claro que ali havia dono.

Dentro de casa, porém, era outro cachorro. Pacato, carinhoso e paciente com os dois pets que dividiam com ele o território e os afetos da família. Hassan conhecia perfeitamente a diferença entre proteger e provocar.

Steven não.

Pastor-alemão, bonito, forte e convencido, Steven morava na casa em frente. Passava a maior parte do dia preso no quintal, acumulando energia, latidos e valentia. Todas as manhãs, por volta das sete horas, o vizinho abria o portão para que ele passeasse pela rua e cuidasse de suas necessidades.

Steven aproveitava a liberdade para cuidar também da vida dos outros.

Primeiro, ia ao portão da casa do Júnior provocar Beethoven. Latia, rosnava e desfilava de um lado para o outro, como se desafiasse o adversário para um acerto de contas que o portão jamais permitiria.

Depois atravessava a rua e seguia para o casarão de dona Emília, onde viviam vários cachorros. Bastava Steven chegar para começar o alvoroço. Ele latia de um lado, a matilha respondia do outro e, durante alguns minutos, a rua despertava sob uma sinfonia de ameaças que nunca chegavam às vias de fato.

O portão da Hassan

Por último, vinha Hassan.

Steven parava diante do portão e fazia o seu número. Latia, ameaçava e exibia os dentes. Hassan permanecia imóvel. Apenas observava. Não recuava, não se agitava nem desperdiçava latidos.

Só respondia quando a provocação ultrapassava o limite.

Essa rotina se repetiu durante anos. Steven provocava. Hassan suportava. Entre os dois havia sempre o portão de ferro, aquela fronteira que costuma produzir valentões porque oferece a segurança necessária para a coragem.

Até que, certa manhã, Steven iniciou a peregrinação de sempre. Visitou Beethoven, perturbou os cachorros de dona Emília e seguiu, confiante, para o último compromisso de sua agenda.

O que ele não sabia era que, naquele dia, o portão de Hassan estava entreaberto.

Steven se aproximou e latiu.

Hassan não respondeu.

Saiu.

Em poucos segundos, o valentão estava de costas no chão, dominado pelo cachorro que durante anos suportara suas ameaças. Hassan o imobilizou sem espalhafato, sem crueldade e sem necessidade de prolongar a lição.

Ficou sobre ele até que se estabelecesse o silêncio.

E o silêncio, naquele instante, disse tudo.

Depois daquele dia, Steven nunca mais latiu para Hassan. Hoje, quando o vizinho abre o portão às sete da manhã, ele ainda passeia pela rua, visita alguns desafetos e cuida de seus assuntos.

Mas evita passar diante da casa de Hassan.

Se não houver outro caminho, atravessa para o outro lado da rua e segue depressa, sem olhar para o portão.

Hassan continua no mesmo lugar, quieto e imponente. Não persegue Steven, não provoca nem comemora a vitória.

Apenas observa.

Há lições que não precisam ser repetidas. E há valentias que duram exatamente até o dia em que o portão fica aberto.

LEIA MAIS



BNC Amazonas

Últimas notícias