Aos 19 anos, sofri um acidente com um cachorro da família e perdi parte de um dedo. Passei um mês e 21 dias dormindo sentada, com o braço imobilizado, enquanto a carne se regenerava. Consegui, mas perdi a sensibilidade do dedo e do polegar, e minha unha ficou torta. Eu era uma mocinha vaidosa com as unhas das mãos e fiquei muito triste.
Foi quando descobri que Manaus tinha uma rede de médicos especializados em mãos mutiladas, em razão do volume de acidentes no Distrito Industrial. Na sala de espera de um desses especialistas, conheci um operário que havia sofrido um acidente numa fábrica. Uma prensa quente havia esmagado sua mão direita. O dedo maior fora tão comprometido que o médico precisou costurá-lo temporariamente ao anelar para reconstruir a estrutura da carne e, depois, separá-los novamente.
Durante semanas, encontrei aquele rapaz na sala de espera. Vi sua mão depois das cirurgias: o dedo maior estava menor e sem movimento, em razão da compressão dos nervos. Era como se ele tivesse dois dedos anelares. Ele também viu meu dedo reconstruído. Lembro de ele me consolar, dizendo que eu era uma jovem bonita e que ninguém se deteria a meu dedo defeituoso.
Aquele rapaz, cujo nome já não lembro, me ajudou a compreender que meu defeito era pequeno. O médico chegou a me convidar para participar de um grupo terapêutico de apoio a pessoas mutiladas em acidentes, formado majoritariamente por operários do Distrito Industrial de Manaus. Não cheguei a frequentá-lo. A sala de espera daquele especialista foi suficiente para entender que o trabalho deixava marcas muito piores em outros corpos.
O dedo que falta e a crueldade do insulto
Lembrei daqueles trabalhadores outra vez quando assisti ao filme Lula, o filho do Brasil, lançado em 2009. Foi ali que soube que Lula havia perdido um dedo da mão esquerda em um acidente de trabalho, aos 17 anos, quando trabalhava como torneiro mecânico.
Ontem, no debate com Flávio Bolsonaro, quando ouvi a provocação dos “nove dedos”, voltei a pensar naqueles homens que encontrei na sala de espera do médico das mãos.
Há algo de profundamente cruel em transformar uma mutilação em insulto. O dedo que falta não é uma piada: é a marca de uma história, de um acidente, de um corpo que precisou se reconstruir. No caso de Lula, é também a marca de um trabalhador que perdeu parte da mão ainda adolescente, trabalhando à noite.
Não se trata de dizer que toda mutilação tem a mesma história, nem de transformar o sofrimento em mérito político. Trata-se de reconhecer que os corpos carregam as marcas das condições em que vivemos e trabalhamos. E que há uma distância enorme entre conhecer essas marcas e usá-las para humilhar alguém.
Espero que aqueles operários do Distrito Industrial de Manaus não se esqueçam de quem são. E que nós também não nos esqueçamos deles quando alguém transformar em ofensa aquilo que, para tantos trabalhadores, é uma lembrança permanente do preço que seus corpos pagaram.
A autora é antropóloga.*
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.