Depois do debate de 23 de outubro, na TV Globo, entre Lula e Flávio Bolsonaro, uma pergunta me inquietou: afinal, quem é Flávio Bolsonaro? Quem é o homem que se apresenta como defensor da honestidade, da segurança pública, da família e da moralidade?
Não basta ouvir seus discursos. É preciso examinar sua trajetória, seus votos e suas atitudes. Na vida pública, importa a coerência entre o que se promete e o que se pratica.
Flávio afirma que combaterá as milícias, o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Entretanto, quando deputado estadual, homenageou Adriano da Nóbrega, ex-policial posteriormente apontado em investigações como integrante de organizações criminosas. Em 2005, propôs conceder-lhe a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, quando Adriano estava preso. A mãe e a esposa do ex-policial também trabalharam em seu gabinete.
Como alguém que pretende combater as milícias explica essas relações e homenagens?
Relações empresariais e questionamentos sobre transparência
Outro episódio envolve Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo informações divulgadas pela imprensa, Flávio participou de negociações para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. As tratativas teriam alcançado R$ 134 milhões, com cerca de R$ 65 milhões transferidos ao circuito financeiro relacionado ao projeto. A prestação de contas pública e integral dos recursos continua sendo uma questão relevante.
Mas as revelações mais recentes envolvem o advogado Willer Tomaz e uma empresa offshore registrada na Ilha da Madeira, em Portugal.
Segundo documentos examinados pela Polícia Federal e divulgados pela imprensa, Flávio aparecia como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, ligada ao advogado. Em maio de 2025, uma funcionária de Tomaz solicitou ao Santander a retirada do nome do senador daquele cadastro. Flávio nega participação financeira ou societária e afirma que a vinculação era indevida.
A investigação também alcança a Best Bet, empresa de apostas eletrônicas. Reportagem da revista piauí apresentou documentos que indicariam possível participação indireta de Flávio no negócio, hipótese contestada pelos envolvidos. Há, ainda, informações sobre viagens internacionais do senador e de familiares em aeronaves contratadas ou custeadas por empresas ligadas ao advogado.
É preciso distinguir suspeitas de fatos comprovados. Mas o questionamento político permanece: por que um candidato que exige transparência dos outros precisa explicar seu nome em cadastro bancário de uma offshore? Qual era, afinal, a natureza de sua relação com essas empresas?
Não estamos diante de uma discussão meramente burocrática. O eleitor tem o direito de conhecer as relações financeiras e empresariais de quem pretende ocupar a Presidência da República. A transparência não pode ser uma exigência dirigida exclusivamente aos adversários políticos. Deve começar por quem a proclama como princípio de sua própria candidatura.
Outra contradição interessa diretamente ao Amazonas
Em novembro de 2023, na discussão da reforma tributária, Flávio criticou as vantagens comparativas da Zona Franca de Manaus e votou contra o texto que preservava o modelo. Declarou: “Manaus tem que ser o novo Vale do Silício, e o resto do Brasil, uma Argentina”. Agora, em campanha, chama a Zona Franca de “sagrada” e promete ampliá-la.
Qual posição merece crédito: a do parlamentar que criticou os incentivos ou a do candidato que promete defendê-los?
A Zona Franca é instrumento constitucional de desenvolvimento regional. Seu parque industrial faturou R$ 227,67 bilhões em 2025 e sustenta mais de meio milhão de empregos diretos e indiretos. Não pode ser tratada como peça de conveniência eleitoral.
Entretanto, o que mais me preocupa ultrapassa Flávio Bolsonaro: é a facilidade com que parte da sociedade aceita discursos sem confrontá-los com os fatos, permitindo que a mentira se sobreponha à verdade.
Vivemos um paradoxo. Nunca tivemos tanto acesso à informação: um smartphone permite consultar jornais, votações parlamentares, decisões judiciais e documentos oficiais. Mesmo assim, milhões de brasileiros permanecem vulneráveis à desinformação.
A repetição sistemática da mentira
A repetição sistemática de uma mentira pode produzir aparência de verdade. Quando a identidade partidária vale mais que os fatos, a verdade deixa de orientar o julgamento político. Nesse ambiente prosperam aqueles que prometem uma coisa diante das câmeras e praticam outra longe delas.
O mais preocupante é que a informação está disponível, mas nem sempre existe disposição para examiná-la. Muitos preferem defender incondicionalmente seus candidatos a reconhecer suas contradições. Assim, o debate público deixa de ser uma discussão sobre propostas, realizações e responsabilidades e se transforma numa disputa de crenças, em que a fidelidade política se sobrepõe à realidade.
Não se trata de exigir que todos pensem como eu ou votem no mesmo candidato. A democracia pressupõe liberdade de escolha, mas essa liberdade exige consciência crítica, honestidade intelectual e compromisso com a verdade. Votar sem conhecer a trajetória de quem se escolhe é abrir mão de exercer plenamente a cidadania.
O problema não está apenas no político que usa a mentira para conquistar o poder. Está também na sociedade que, por desinformação, alienação ou fanatismo, renuncia ao direito de questionar e aceita como verdade aquilo em que deseja acreditar.
Quando a mentira se transforma em verdade para milhões de pessoas, os fatos deixam de importar, a consciência crítica desaparece e o voto deixa de representar uma escolha esclarecida para se transformar em instrumento de manipulação. Diante de tantas contradições entre o discurso e a prática, resta uma pergunta que todo brasileiro deveria fazer antes de votar: afinal, quem é Flávio Bolsonaro: o personagem que se apresenta ao eleitor ou o homem que sua trajetória política revela?
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
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