O Brasil nasceu da extração, e a conta foi paga por muita gente que nunca foi convidada para a festa. Desde a colonização, a terra foi erigida sobre o massacre dos povos originários e sobre o trabalho forçado de africanos escravizados, a fim de enriquecer a metrópole portuguesa e os colonos abastados.
Fixou-se ali um padrão que atravessa os séculos: uma elite que comanda a retirada de recursos da terra para vendê-los ao estrangeiro e que se contenta em copiar, cobiçosamente, os luxos das metrópoles, sem o menor interesse em enriquecer o país e o seu povo. A desigualdade, a marginalização e o preconceito sistêmicos são a herança desse arranjo.
Quem imagina o Brasil como um país pacífico necessita revisitar nossa história! Palmares (séc. XVII), Malês (1835), Cabanagem (1835 a 1840), Balaiada (1835 a 1841), Canudos (1896 a 1897) e Contestado (1912 a 1916) mostram um povo que se levantou repetidas vezes. Quase todas as revoltas terminaram em massacre por tropas do governo, com violência exemplar. A prioridade da metrópole foi manter o povo submisso à elite rural. A coroa e a república, com admirável coerência à continuidade administrativa, também aplicaram copiosa energia e recursos na tarefa.
Entre os séculos XIX e XX, imigrantes europeus e asiáticos chegaram para ocupar o lugar da mão de obra escravizada recém liberta. Trouxeram diversidade cultural e ideias novas, libertárias, como o comunismo, o socialismo e o anarquismo, e reacionárias, como o fascismo e o nazismo.
Somadas a uma longa tradição de repressão aos movimentos populares e à forte influência dos Estados Unidos sobre a classe dominante que, por sua vez, contagiou a classe média emergente, essas ideias encontraram terreno fértil. O ideal de branqueamento da população, prontamente abraçado pela alta burguesia, contribuiu com o endurecimento da agenda racial e de costumes.
Fascismo, integralismo e a tradição autoritária
Enquanto isso, o mundo também se ensombrecia por ideias nefastas. Depois da Primeira Guerra, o Japão se radicalizava, com movimentos secretos nas forças armadas que culminaram em atos terroristas e assassinatos políticos, e a Itália instaurou o fascismo com a marcha sobre Roma, em 1922. Aqui, Vargas chegou ao poder por um golpe em 1930, e em 1932 Plínio Salgado fundou o integralismo, que contava com o maior partido de inspiração nazista fora da Alemanha.
Em 1933, Hitler assumiu a chancelaria com a elite econômica alemã aplaudindo, convicta de que domaria a fera, como quem passeia com um lobisomem em guia de cachorro. A fera, convém lembrar, era o nazismo, e Hitler apenas o rosto que lhe coube. Em 1935, quarteladas em Natal, Recife e Rio de Janeiro, com baixa adesão popular, serviram de deixa para o autogolpe de Vargas em 1937, justificado pela “alegada” intentona comunista, com ênfase em “alegada”.
Finda a Segunda Grande Guerra, fugitivos e perdoados de Nuremberg buscaram paragens mais amigáveis e encontraram guarida na Argentina, no Paraguai, no Uruguai e no Brasil, sobretudo nas cidades europeizadas do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. Sua influência, combinada ao ideário que já estava estabelecido pelo integralismo, ainda alimenta grupos neonazistas e neofascistas que crescem com a desregulamentação das redes sociais.
Na década de 1950, Vargas voltou ao executivo com uma linha desenvolvimentista, estatais e leis trabalhistas. Recusou-se a enviar tropas à Guerra da Coreia e, por defender a soberania nacional, passou a ser visto por Washington como “não automaticamente alinhado” e, portanto, como ameaça comunista. Sua carta de despedida menciona a soberania com ênfase.
O golpe de 1964 e a soberania brasileira
Em 1964, um golpe civil-militar com apoio dos EUA depôs João Goulart, herdeiro político de Vargas. A democracia só seria recuperada em 1985 com a vitória do movimento “Diretas Já” e a Constituinte Cidadã (1985-1989) que colocariam fim ao sangrento período de ditadura militar. Soberania, ao que parece, sempre saiu cara para quem a defendeu.
Já no século XXI, desde a coalizão austríaca de 2000 entre a centro-direita e um partido nacionalista radical, a Europa aderiu em série ao autoritarismo: Hungria com Orbán (2010 a 2026), Polônia com o Lei e Justiça (2015 a 2023), Itália com Meloni (2022 até hoje), além de Finlândia, Suécia, Croácia e Eslováquia entre 2010 e 2020.
Na Ásia e no Oriente Médio vieram Erdoğan na Turquia (2003 até hoje), Modi na Índia, com o Hindutva (2014 até hoje), e as coalizões de Netanyahu em Israel. Na América Latina, que já tinha farto histórico de ditaduras, vieram Bukele (2019), Milei (2023), Kast no Chile, la Espriella na Colômbia, Fujimori no Peru e Noboa no Equador, entre outros.
Milei chegou a insinuar, em outubro de 2026, o risco de se “roubar a eleição” no Brasil, e o Itamaraty reagiu apontando uma nova e inaceitável tentativa de ingerência externa e lembrando que o sistema eletrônico de votação é comprovadamente seguro. Cenário pouco amigável para um governo de orientação progressista, ainda que seja de um país de dimensões continentais.
O bolsonarismo e as disputas pelo poder
No Brasil, Jair Bolsonaro, militar de baixa patente afastado do exército por indisciplina, fez carreira no baixo clero da política regional e depois nacional. Suas declarações públicas, em raras entrevistas e até em programa de auditório, traziam misoginia, homofobia, transfobia e racismo, além de uma posição contrária ao regime democrático.
Atraía o público pelo apelo ao bizarro e por uma identificação que diz muito sobre o quanto o simbolismo da segregação racial e das minorias está enraizado no imaginário do país. A centro-direita, empenhada em remover o PT do poder, promoveu o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Na votação, o deputado Jair dedicou seu voto a Carlos Alberto Brilhante Ustra, numa tétrica referência ao fato de ele ter sido um dos torturadores da presidenta. A centro-direita havia decidido remover o PT do poder e, para tanto, topou um presidente que homenageia torturador.
Entre 2019 e 2022, um bando raivoso e faminto de poder e dinheiro quase deixou o país em escombros. Jair foi condenado por tentativa de golpe de estado e cumpre prisão domiciliar humanitária. Mas, as feridas abertas deixaram espaço para “passar a boiada” como resultado das infecções mal curadas.
Em outubro de 2026, o PL, o partido dos Bolsonaros, tomou a Câmara e o Congresso, e o filho Flávio, senador e candidato, ameaça a reeleição de Lula, em seu terceiro mandato (não consecutivo).
O caso Master
O caso Master, protagonizado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, alcança o parlamento e o judiciário com uma tendência destra inegável e implica o candidato em suspeitas gravíssimas que deveriam preocupar qualquer apoiador que se diga minimamente republicano. Segundo reportagens, a Polícia Federal investiga um núcleo dedicado à cooptação de servidores do Banco Central, e o nome do ex-banqueiro aparece ligado a ministros do Supremo, parlamentares e governadores, tudo sob apuração e com negações dos citados.
Numa lógica que vai na contramão de qualquer evidência, as promessas de campanha da oposição ao atual governo promovem a subordinação da natureza e da sociedade à acumulação privada. Bruno Malheiro, geógrafo da UFPA, publicou recentemente um artigo em que avalia a influência da associação entre oligarquias tradicionais e frentes predatórias, muitas ilegais como garimpos, exploração ilegal de madeira e outras mazelas que vêm no pacote.
A coincidência entre os mapas da soja, gado e mineração com as votações em Jair Bolsonaro em 2018 e 2022 são evidências usadas pelo autor para a influência do “agro”, potencializada pelas festas agropecuárias, clubes de tiro e redes religiosas na difusão da defesa irrestrita da propriedade e do empreendedorismo de si.
As consequências do enfraquecimento dos órgãos de fiscalização ambiental e de defesa de povos tradicionais, Funai, Ibama e ICMBio resultou em desmatamento e queimadas em escalas sem precedentes e invasões trágicas de terras indígenas, como no caso dos Yanomami, durante o governo Bolsonaro. A negação da ciência resultou em pelo menos 400 mil mortes evitáveis na pandemia.
Recursos minerais e soberania nacional
A cobiça estrangeira pelo subsolo brasileiro é anterior ao golpe de 1964 e ajuda a explicá-lo. As areias monazíticas, ricas em tório e terras raras, interessavam aos Estados Unidos desde o primeiro acordo atômico, de 1945. Em 1951, Vargas respondeu com o monopólio estatal do comércio exterior de minérios atômicos, e a pressão seguiu em acordos como o do trigo, de 1954, que previa trocar cinco mil toneladas de monazita por cem mil de trigo americano, segundo a cronologia da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão federal criado em 1956 para conduzir a política nuclear brasileira.
Às vésperas do golpe, a disputa migrou para o minério de ferro: em 1962, o cancelamento de registros irregulares que atingiam a Hanna Mining provocou protestos do embaixador americano e, segundo René Dreifuss, cientista político e historiador, autor de “1964: A Conquista do Estado”, a empresa financiava o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), criado em novembro de 1961 por empresários de São Paulo e do Rio, com o general Golbery do Couto e Silva entre seus dirigentes, para coordenar com pesquisas, documentários e panfletos a oposição ao governo Goulart. Quadros do IPES ocuparam ministérios no governo Castelo Branco. Soberania sobre o subsolo, ao que parece, também saía cara.
Seis décadas depois, o enredo reaparece com outros figurinos. Em abril de 2026, a norte-americana USA Rare Earth anunciou a compra da Serra Verde, em Goiás, com produção contratada por quinze anos a uma estrutura capitalizada pelo governo dos Estados Unidos, que também entrou no capital da compradora. Lula respondeu com a Política Nacional de Minerais Críticos, sancionada em 16 de setembro, que cria um conselho para homologar operações sensíveis e estimula o beneficiamento no país: a herança de Vargas atualizada, num multilateralismo “sem alinhamento a um único centro de poder”, como observa Malheiro.
Pressões internacionais e interesses econômicos
A pressão americana, porém, vai além do subsolo e recorre a tarifas, armas e sanções. Em julho de 2025, Trump anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros em carta que citava o tratamento dado a Jair Bolsonaro, e, segundo O Globo, as negociações do tarifaço chegaram a incluir o pedido de limites a investimentos de “atores não orientados pelo mercado” em minerais críticos, recusado pelo governo.
Vieram em seguida a revogação de vistos de ministros do Supremo, a aplicação da Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes e, segundo o The Guardian, a reserva de cerca de US$ 1 milhão para financiar projetos contra o “excesso de atuação judicial” do STF.
Em 2026, os Estados Unidos capturaram Maduro em Caracas com forças de operações especiais, começaram a enviar cerca de 600 militares ao Panamá, com passagem prevista pela Colômbia e por Honduras, segundo o New York Times, e classificaram PCC e CV como organizações terroristas, decisão que juristas ouvidos pelo Consultor Jurídico (Conjur), revista eletrônica especializada em notícias e análises do meio jurídico, consideram de efeito prático limitado, mas capaz de abrir caminho para novas sanções.
Venezuela e Colômbia fazem fronteira com o Brasil. Por dentro, a influência atribuída a Vorcaro sobre agentes públicos, que a investigação ainda precisa esclarecer, ameaça a autonomia das mesmas instituições que a pressão de fora tenta intimidar.
O debate de 18 de outubro
No debate de 18 de outubro, Lula perguntou a Flávio Bolsonaro se entregaria as terras raras aos Estados Unidos, e a resposta direta não veio. A esquiva encontra contexto em “O que esses brasileiros sabem”, ensaio de opinião de João Moreira Salles, documentarista e fundador da revista piauí, publicado na edição nº 241, de outubro de 2026.
O foco de Salles é uma elite bem informada, que sabe e, ainda assim, legitima a candidatura de Flávio. Entre os setores presentes nos jantares do candidato, o autor cita a mineração e descreve uma escala de valores que admite que “vale se avassalar aos Estados Unidos”. Nem todos assinariam essa promissória voluntariamente, ressalva o autor. Salles empresta da crítica literária Parul Sehgal, do The New York Times, a pergunta “quem sabia? quem desviou os olhos?”, que ela formulou ao resenhar as memórias de Gisèle Pelicot, vítima de estupros em massa organizados pelo ex-marido e que exigiu um julgamento público.
A pergunta serve ao caso Master e serve também ao caso Epstein. Em dezembro de 2023, segundo mensagens extraídas pela PF e reveladas pela BBC News Brasil, Vorcaro escreveu “Jeff epstein” e “Carapuça caiu kkkk” diante da postagem de um gestor que dizia ter encontrado “o Jeffrey Epstein brasileiro”, e um amigo respondeu que a publicação “não tem sua cara pq o jeff tá amador demais”.
Vorcaro e Epstein
Os documentos não estabelecem ligação alguma entre Vorcaro e Epstein, e o amigo disse à BBC acreditar que o comentário dizia respeito a uma disputa do banqueiro com o gestor. Foi uma comparação retórica, que por si só nada prova. Contudo, o paralelo estratégico é inevitável.
A sombra de Epstein, aliás, também alcança a Casa Branca. Em 30 de janeiro de 2026, mais de um mês depois do prazo fixado em lei sancionada pelo próprio Trump, o Departamento de Justiça publicou cerca de 3 milhões de páginas do caso, e a CNN Brasil contou mais de mil menções ao presidente, muitas delas em notícias que Epstein compartilhava.
O acervo traz ainda alegações não verificadas, que o Departamento classificou como falsas e sensacionalistas, e Trump nega qualquer irregularidade. Ser citado, vale repetir, não prova crime. Resta a ironia de que o governo que, segundo o The Guardian, reservou verba contra o “excesso de atuação judicial” no Brasil conviva em casa com um acervo parcialmente tarjado, cujo critério de sigilo o próprio Departamento, segundo a PBS, ainda não explicou por inteiro.
Democracia, soberania e os desafios do Brasil
Diante de um dilema simples de opção pela continuidade de um modelo imperfeito, pois em construção, como todos os regimes de governança, mas que se pauta pelo desenvolvimento coletivo, fortalecimento sólido da economia, regulamentação do uso de recursos não renováveis e capilaridade do enriquecimento e bem estar ou, pela escolha de um não regime, da entrega das riquezas do território e da cultura mega diversa do país aos interesses de poucos, o Brasil se encontra na berlinda de um segundo turno eleitoral disputado com mínima diferença entre os postulantes.
A escolha passa pela avaliação de grande parte da população sobre se é possível domar a fera que, ora, se apresenta com a face de um herdeiro de uma quase ditadura. A história nos mostrou que o animal, a ideia em si, não o epíteto ou a marca, é incontrolável.
Nossa elite, dessa vez, pode nos colocar numa posição irreversível de vassalagem e subserviência, relegando ao esquecimento as lutas de classe de nossa história e o legado de um presidente que saiu da pobreza para se tornar um dos mais respeitados estadistas de seu tempo. A avaliação que fica corrobora Salles e Parul Sehgal ao nos lembrar que diante do que sabemos não há espaço para alegar ingenuidade.
O autor é biólogo*.
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.
Referências
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BAHIA NOTÍCIAS. Mensagens de Vorcaro mostram comparação entre banqueiro e Jeffrey Epstein: “Jeff tá amador demais” (reportagem da BBC News Brasil). Disponível em: https://www.bahianoticias.com.br/noticia/322678-mensagens-de-vorcaro-mostram-comparacao-entre-banqueiro-e-jeffrey-epstein-jeff-ta-amador-demais. Acesso em: 21 out. 2026.
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