O caráter plebiscitário da eleição de 2026 nasce de uma escolha que vai além dos nomes na urna. O Brasil decidirá se mantém a democracia como regra comum ou se abre caminho, outra vez, para quem só aceita eleições quando vence. No entanto, parte do debate político apresenta democratas e golpistas como dois extremos equivalentes. Essa falsa simetria esconde uma diferença decisiva.
Quem defende a democracia pode discordar sobre economia, segurança, políticas sociais e tamanho do Estado. Pode também criticar governos, exigir austeridade, cobrar transparência e investigar suspeitas de corrupção. Aliás, deve fazer tudo isso. O compromisso democrático não concede imunidade a ninguém. Ao contrário, ele garante que a imprensa investigue, que a oposição fiscalize e que a Justiça responsabilize quem comete crimes.
Já os grupos que atacam o resultado das urnas colocam em risco essas garantias. Eles pedem liberdade para agir, mas recusam ao adversário o direito de vencer. Falam em respeito às instituições enquanto tentam subvertê-las. Portanto, não estamos diante de duas maneiras igualmente legítimas de disputar o poder. Uma aceita as regras da convivência política; a outra ameaça rompê-las quando perde.
A falsa simetria diante do golpismo
O golpismo brasileiro não existe apenas como ameaça abstrata. Depois da eleição de 2022, houve uma tentativa de impedir a posse do presidente eleito e de romper a ordem constitucional. O Supremo Tribunal Federal julgou e condenou integrantes dessa trama. Ainda assim, há quem trate a defesa das urnas e o ataque a elas como manifestações semelhantes de intolerância.
Esse raciocínio favorece quem ameaça à democracia. Afinal, quando chamamos de radicalismo tanto a tentativa de golpe quanto a resistência a ela, apagamos a diferença entre agressão e defesa. A imprensa precisa ouvir lados diferentes; também precisa examinar fatos e responsabilidades. Equilíbrio jornalístico não exige dar o mesmo peso a quem respeita o voto e a quem pretende anulá-lo.
A pergunta sobre a liberdade ajuda a revelar essa diferença. O trabalhador poderá se organizar? A imprensa poderá investigar? As universidades terão autonomia para pesquisar? E o adversário poderá vencer a eleição e governar? Quem responde “não” a essas perguntas não defende a liberdade de todos. Defende apenas a própria liberdade de mandar.
Da mesma forma, a soberania nacional exige mais do que discursos e bandeiras. Quem busca apoio externo para pressionar instituições brasileiras precisa explicar como concilia essa atitude com o respeito à vontade popular. O país não se fortalece quando transfere a outros o poder de decidir seus conflitos.
O que estará em jogo nas urnas
É nesse sentido que falo no caráter plebiscitário da eleição de 2026. Não haverá um plebiscito formal. O eleitor escolherá presidente, governadores, senadores e deputados. No entanto, seu voto também ajudará a definir o espaço político de forças que já demonstraram desprezo pelo resultado das urnas.
Essa decisão alcança a vida cotidiana. Direitos sociais e trabalhistas, salários, serviços públicos e liberdades civis dependem das escolhas de quem ocupa o poder. Por isso, não basta ouvir promessas de campanha. É preciso observar o que cada candidato fez quando a democracia enfrentou uma ameaça concreta. Condenou o golpe sem ambiguidades? Respeitou a decisão dos eleitores? Defendeu as instituições mesmo quando elas contrariaram seus interesses?
Ninguém precisa considerar perfeito o governo atual para responder a essas perguntas. A crítica, a alternância e a cobrança fazem parte da democracia. A diferença está em saber se o próximo governante aceitará esses mesmos direitos quando outros os exercerem contra ele.
Considerações finais
O caráter plebiscitário da eleição de 2026 exige, portanto, uma escolha consciente. Entre democracia e ditadura, soberania e subserviência, liberdade e sujeição, não existe equivalência moral. A paz democrática permite divergências e mudanças de governo. O autoritarismo, ao contrário, precisa manter o país em guerra contra seus próprios cidadãos.
O voto não resolverá sozinho os problemas brasileiros. Mas decidirá se poderemos continuar a enfrentá-los com debate público, direitos e eleições livres.
O autor é sociólogo*.
Arte: Gilmal.