Com a confirmação do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, o eleitor brasileiro depara-se com uma das estratégias de manipulação mais antigas da história: o uso do sagrado como cortina de fumaça.
Ao liderar a corrida ao Palácio do Planalto após o primeiro turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL) intensificou a cartilha de colocar “Deus acima de tudo” no centro de sua campanha. Contudo, por trás dos discursos inflamados em templos religiosos, esconde-se uma tática muito clara: usar a fé das pessoas como escudo para blindar um candidato cercado por investigações e camuflar propostas que desamparam a população de baixa renda.
Flávio Bolsonaro e o uso da fé na campanha
Falar de religião no palanque virou a saída perfeita para Flávio Bolsonaro desviar o foco do debate que realmente importa. É uma jogada conveniente. Afinal, para quem passou anos sob os holofotes da Justiça e agora enfrenta um inquérito formalizado na Polícia Federal e autorizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeitas graves de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no caso do financiamento do filme Dark Horse ligado ao Banco Master, apresentar-se como um “homem de fé” é a melhor forma de fugir do banco dos réus na opinião pública.
Ao transformar a eleição em uma suposta guerra do “bem contra o mal”, ele tenta fazer com que o eleitor esqueça as acusações financeiras que pesam contra si. Sob essa ótica distorcida, criticar as ações do candidato não é mais cobrar transparência e honestidade de um político; passa a ser vendido aos fiéis como um ataque à própria religião.
O discurso religioso e as propostas econômicas
O custo dessa blindagem pode cair diretamente no bolso do cidadão mais pobre. Enquanto se esconde atrás de discursos moralistas, a plataforma econômica de Flávio Bolsonaro avança com uma agenda fortemente liberal, que prevê o enxugamento do Estado, o corte de despesas administrativas e a redução de ministérios.
Para as mulheres das periferias, mudanças que reduzam a presença do Estado nas políticas de proteção social podem ter consequências especialmente importantes. Transferir responsabilidades públicas para redes de voluntariado ou caridade privada, quando isso ocorre, não equivale à garantia de um direito assegurado pelo Estado. Substituir direitos garantidos por lei pela boa vontade de instituições retira do cidadão a segurança jurídica da proteção estatal.
Quando o altar se transforma em palanque
Usar o nome de Deus para angariar votos enquanto se defendem mudanças nas relações de trabalho e a redução da presença do Estado em serviços públicos expõe, na visão desta autora, uma profunda contradição política.
O eleitor não pode aceitar que a fé – que é um direito individual de cada cidadão – seja instrumentalizada para proteger políticos investigados.
Desconfiar de quem usa o altar como palanque é um exercício urgente de sobrevivência.
Fé, política e o segundo turno
Diante das urnas neste segundo turno, o brasileiro precisa lembrar que promessas divinas vindas de homens públicos muitas vezes servem apenas para ocultar as correntes que eles pretendem impor aos direitos do próprio povo.
A autora é Cientista Social graduada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) – Câmpus de Naviraí, especialista em Antropologia, Historiadora e Pedagoga.
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