Javier Milei fez da motosserra o símbolo de sua política econômica. No Brasil, economistas e comentaristas liberais transformaram a experiência argentina quase numa peça publicitária: cortem o Estado, comprimam os gastos e o mercado resolverá o restante.
Há um problema: quando saímos do discurso e examinamos a economia pelo lado de quem vive do trabalho, aparece outra Argentina. E os números são oficiais. Quando Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, a taxa de desemprego estava em 5,7%. No primeiro trimestre de 2026, segundo o INDEC, chegou a 7,8%. São 2,1 pontos percentuais a mais. Em termos relativos, a taxa de desemprego cresceu aproximadamente 36,8%. Isso não é interpretação política. É aritmética.
A motosserra chegou ao salário
O Salário Mínimo, Vital e Móvel era de 156 mil pesos em dezembro de 2023. Em julho de 2026 chegou a 372,4 mil pesos. Quem olhar apenas o valor nominal poderá imaginar que o trabalhador argentino ganhou. Não ganhou.
O que interessa ao trabalhador não é quantos pesos aparecem no contracheque, mas quantos alimentos, medicamentos, transportes, aluguéis e serviços esses pesos conseguem comprar.
Estudo do Instituto Interdisciplinar de Economia Política da Universidade de Buenos Aires e do CONICET aponta que, entre novembro de 2023 e junho de 2026, o salário mínimo acumulou perda real próxima de 40%. Em outras palavras: a motosserra não passou apenas pelo orçamento público. Passou também pelo bolso do trabalhador.
O número que os liberais brasileiros deveriam explicar
Aqui está a pergunta que raramente acompanha os elogios brasileiros ao experimento argentino: Se a política econômica é tão extraordinariamente bem-sucedida, por que o salário mínimo perdeu aproximadamente 40% de seu poder de compra? E por que a taxa de desemprego passou de 5,7% para 7,8%, crescimento relativo de aproximadamente 36,8%?
Não adianta responder mostrando Bolsa, mercado financeiro ou indicadores fiscais. Estamos falando de outra coisa. Estamos falando de trabalho e renda.
E uma política econômica também deve ser julgada pela capacidade de uma sociedade produzir emprego e preservar o poder aquisitivo daqueles que vivem do próprio trabalho.
Economia para quem?
Esse talvez seja o ponto central de toda a discussão. Economia não é somente contabilidade pública. Não é apenas resultado fiscal, cotação de ativos ou expectativa do mercado. Economia é produção, emprego, salário, renda e condições materiais de existência.
Quando o salário mínimo perde cerca de 40% de seu poder de compra, isso significa menos comida, menos consumo, menos capacidade de pagar aluguel, transporte e serviços. Quando a taxa de desemprego cresce aproximadamente 36,8%, significa mais trabalhadores disputando postos de trabalho e mais famílias submetidas à insegurança econômica.
Esses números também pertencem ao balanço da era Milei.
A verdade que a motosserra não mostra
O problema do discurso ultraliberal não está apenas naquilo que afirma. Está também naquilo que escolhe não mostrar.
Mostra-se aquilo que interessa à narrativa do sucesso. Silenciam-se os indicadores que revelam quem suporta o peso do ajuste.
Por isso, quando economistas liberais brasileiros apontarem novamente para a Argentina e disserem que a motosserra funciona, convém colocar dois números sobre a mesa: desemprego: de 5,7% para 7,8%. Salário mínimo real: perda próxima de 40%.
Depois disso, resta uma pergunta elementar, que deveria acompanhar qualquer discussão séria sobre política econômica: a motosserra funcionou para quem? Porque os números podem ser inconvenientes. Mas continuam sendo números.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
Fontes: INDEC – Instituto Nacional de Estadística y Censos; Secretaría de Trabajo, Empleo y Seguridad Social da Argentina; Instituto Interdisciplinario de Economía Política (IIEP/UBA-CONICET).