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José Inácio, o eleitor das aventuras

Conheci José Inácio ainda adolescente, e já no meio de uma aventura. A aventura, naquele caso, era minha. Eu tinha…

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José Inácio, o eleitor das aventuras


Conheci José Inácio ainda adolescente, e já no meio de uma aventura. A aventura, naquele caso, era minha.

Eu tinha 14 anos e comandava o B/M Almir, barco do meu pai, pelo rio Mamuru. Fazia um frete para Sumaúma, uma das comunidades rurais mais distantes da sede de Parintins. Lembro que saí de lá quando o sol começava a aparecer, com o barco carregado de madeira.

Seis horas depois, José Inácio embarcou no B/M Almir com destino a Parintins. Àquela altura, eu já estava embalado por algumas caipirinhas temperadas com álcool e marangataia, o nosso gengibre.

Animado além da conta, pulei n’água e quase fiquei por lá mesmo. Fui salvo, sobrevivi e tratei de guardar o vexame no porão das lembranças que a gente espera nunca mais abrir.

José Inácio, porém, testemunhou tudo.

Eu não o conhecia e também não sabia que ele conhecia cada detalhe daquela história. Só descobri seis anos depois, quando nos reencontramos em São Gabriel da Cachoeira, onde servíamos ao Exército, na fronteira.

Zé contou tudinho. Não esqueceu sequer os detalhes que eu próprio havia me esforçado para apagar.

Foi assim que viramos amigos.

Depois disso, eu continuei repórter e ele se revelou humorista. Nas operações Boina e durante o Curso de Formação de Cabos, o CFC, Zé Inácio já mostrava que tinha nascido com o talento de transformar desgraça em espetáculo.

O humorista que transforma desgraça em espetáculo

No meio do mato, ao relento, cercados de cansaço, mosquitos e ordens militares, ele fazia seus shows improvisados. A tropa, exausta, ria. O humor do Zé servia como descanso, remédio e, às vezes, até como ração.

Depois ele virou humorista profissional, com grandes espetáculos em Parintins e Manaus. Mas, na virada do século, resolveu morar longe da turma. Foi para Maraã, onde vive há aproximadamente 25 anos.

Quando aparece em Manaus ou em Parintins, chega com a disposição de quem quer aproveitar tudo de uma vez. Eu olho para ele e o imagino como um garimpeiro recém-saído do garimpo: depois de muito tempo distante, quer festa, conversa, música, amigos e diversão. Zé tenta viver em poucos dias tudo o que a distância não lhe permitiu viver durante meses.

Duas viagens feitas para participar das eleições do Boi Caprichoso confirmaram que Zé Inácio não nasceu apenas para o humor. Nasceu também para a aventura.

A primeira grande operação aconteceu em 2010, quando Rossy Amoedo disputava uma eleição apertada contra Márcia Baranda. A campanha de Rossy lembrou que Zé era eleitor do Caprichoso e decidiu montar uma verdadeira missão de resgate eleitoral para retirá-lo de Maraã e fazê-lo chegar a Parintins.

Já contei essa história num livro de crônicas, mas Zé Inácio é como certos filmes de aventura: vale a pena rever.

Naquela época, a viagem podia durar mais de uma semana. Os barcos eram mais lentos, as conexões mais difíceis e chegar de Maraã a Parintins exigia uma combinação de paciência, resistência e fé. Mesmo assim, Zé veio.

Uma missão de resgate eleitoral

Chegou a Manaus numa sexta-feira. No dia seguinte, deveria embarcar para Parintins. Uma pessoa sensata teria descansado, conferido os documentos e aguardado tranquilamente a hora da viagem.

Mas estamos falando de José Inácio.

Zé descobriu – ou já havia saído de Maraã sabendo – que Ivete Sangalo faria um show no Sambódromo de Manaus. Decidiu que não poderia atravessar rios, lagos e municípios sem aproveitar plenamente aquela passagem pela capital.

Tentei fazê-lo desistir. Eu nem sabia que Ivete estaria em Manaus, mas ele, vindo lá de Maraã, sabia de tudo.

Não houve argumento capaz de segurá-lo.

Zé foi ao Sambódromo. E ali começou outra aventura: no meio da festa, roubaram seu celular, a carteira, o dinheiro e todos os documentos.

O eleitor que havia atravessado o Amazonas para votar ficou sem documento para embarcar e, principalmente, para votar.

Começou então uma corrida por delegacia, boletim de ocorrência e tudo o que pudesse permitir que ele continuasse a missão. Deu um trabalho danado, mas Zé conseguiu embarcar para Parintins.

Ainda faltava resolver um pequeno detalhe: como votar sem documento?

Não sei exatamente quais portas se abriram, que santos foram acionados ou que repartição pública realizou o milagre. Sei apenas que José Inácio conseguiu uma nova carteira de trabalho, emitida em Parintins num domingo, e compareceu à eleição.

Depois de enfrentar uma semana de viagem, um show da Ivete, um furto e a burocracia brasileira, ele finalmente votou no candidato. Rossy, porém, perdeu a eleição para Márcia Baranda.

Zé fez tudo aquilo para votar no derrotado.

Dezesseis anos depois, uma nova aventura

Agora, 16 anos depois, José Inácio foi novamente convocado para participar de uma eleição apertada no Caprichoso.

Saiu de Maraã por volta do meio-dia da última quinta-feira. Tudo indicava que seria apenas mais uma longa viagem de barco até Parintins.

Seria, se o passageiro não fosse ele.

Ainda na noite de quinta-feira, o ferry boat em que viajava foi atacado por piratas no rio Japurá. Zé e outros cerca de 200 passageiros ficaram durante horas sob a mira dos fuzis de criminosos que agem naquela região do Médio Solimões.

O homem que já atravessara o Amazonas, perdera todos os documentos num show da Ivete Sangalo e conseguira uma carteira de trabalho num domingo agora virou refém de piratas para tentar votar novamente numa eleição do Caprichoso.

Sinceramente, torço para que Zé Inácio chegue a Parintins e possa participar da votação. Mas esse episódio reafirma uma certeza antiga: meu amigo não escolhe as aventuras. São as aventuras que escolhem José Inácio.

E sempre escolhem quando ele está viajando para votar.

Também sei que, passado o susto, essa história acabará transformada num espetáculo de humor. Zé possui o raro talento de sobreviver ao perigo e depois fazê-lo parecer engraçado.

Quando o passageiro vira super-herói

Na eleição de 2010, durante o trajeto da Cidade Nova até o Sambódromo, ele resolveu virar o Homem-Aranha dentro do ônibus. Esticava os braços, fingia lançar teias nos pontos mais altos do veículo e puxava o próprio corpo, como se estivesse atravessando os prédios de Nova York.

Era José Inácio deixando de ser passageiro para se transformar em super-herói.

Agora, depois de enfrentar piratas no Japurá, imagino que ele surgirá no palco como algum herói amazônico, capaz de viajar por mais de uma semana, sobreviver a assaltos, conseguir documentos impossíveis e escapar de homens armados apenas para depositar um voto na urna do Boi Caprichoso.

Resta saber se, desta vez, o candidato dele ganhará.

Porque aventura, para José Inácio, nunca falta.

O que às vezes falta é o voto dar certo.

O autor é jornalista e filósofo*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.



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