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Flávio Bolsonaro quer governar o Brasil ou reconstruir sua família?

Estamos a poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026. Vamos escolher presidente da República, governadores, senadores e deputados.…

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Flávio Bolsonaro quer governar o Brasil ou reconstruir sua família?


Estamos a poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026. Vamos escolher presidente da República, governadores, senadores e deputados. No entanto, parte importante do debate parece ter abandonado os candidatos para discutir Alexandre de Moraes, André Mendonça, Banco Master, Daniel Vorcaro e familiares de ministros do Supremo. Investigue-se tudo. Se houver crime, que se apure e se responsabilize quem o praticou. Mas nenhum ministro do STF está disputando a Presidência da República. Flávio Bolsonaro está.

E daí nasce uma pergunta que deveria ocupar lugar central nesta eleição: Flávio Bolsonaro quer governar o Brasil ou reconstruir politicamente sua família?

É aqui que entra a ideologia. Em Marx, a ideologia pode funcionar como uma visão distorcida da realidade, fazendo com que interesses e crenças condicionem a maneira como enxergamos o mundo. Em linguagem simples: muitas vezes não examinamos primeiro os fatos para depois formar nossa opinião. Fazemos o contrário. Escolhemos um lado e passamos a selecionar os fatos que confirmam aquilo em que já acreditávamos. É assim que a ideologia cega.

Banco Master e a régua da ideologia

O caso Banco Master é exemplar. Diz-se que Lula se encontrou com Daniel Vorcaro. Sim, encontrou-se. O encontro existiu e deve ser considerado. Mas a realidade não termina na fotografia. Foi durante o governo Lula e sob a presidência de Gabriel Galípolo que o Banco Central decretou, em novembro de 2025, a liquidação extrajudicial do Banco Master, fundamentando a decisão em grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.

A supervisão do BC também identificou inconsistências nas carteiras de crédito cedidas pelo Master ao BRB, comunicou possíveis ilícitos ao Ministério Público Federal e adotou medida preventiva para impedir novas operações que pudessem comprometer a liquidez do banco público. Portanto, se o encontro de Lula com Vorcaro interessa, as ações concretas das instituições durante seu governo também interessam.

Curiosamente, quando Flávio Bolsonaro aparece nessa mesma história, a régua parece mudar. Relatórios da Polícia Federal tornados públicos mostram mensagens entre Flávio e Vorcaro sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Segundo a PF, Flávio pediu R$ 131 milhões ao banqueiro, dos quais R$ 60 milhões teriam sido pagos.

Os documentos também mencionam possíveis encontros presenciais e investigam eventual participação de Eduardo Bolsonaro na articulação dos recursos. Flávio e Eduardo negam irregularidades. Isso prova crime de Flávio? Não. Mas produz uma pergunta inevitável: por que Vorcaro é suficiente para condenar moralmente adversários, mas sua relação direta com o candidato que se pretende eleger presidente deixa de provocar a mesma indignação? A ideologia cega.

O escândalo do INSS e a seleção dos fatos

O mesmo mecanismo aparece no escândalo do INSS. Houve descontos ilegais contra aposentados e pensionistas e todas as responsabilidades devem ser apuradas. Mas há outro fato que não pode desaparecer: foi em 2023, no atual governo, que a CGU iniciou uma série de apurações sobre o crescimento dos descontos.

Foram auditadas 29 entidades e entrevistados 1.300 aposentados. Em abril de 2025, PF e CGU deflagraram a Operação Sem Desconto; posteriormente, os descontos foram suspensos e foram criados mecanismos para contestação e restituição dos valores. Transformar o crime descoberto e investigado pelo Estado em prova automática contra o próprio governo que o investigou é também uma forma de selecionar a realidade.

Mas voltemos à pergunta central: qual é o projeto de Flávio Bolsonaro para o Brasil? O que fará com o Bolsa Família? Haverá aumento real do salário mínimo? Qual será sua política para os servidores públicos, para a redução da jornada de trabalho, para as bets e para a indústria? E, particularmente para nós do Amazonas, qual será sua política concreta para a Zona Franca de Manaus? Na segurança pública, qual será sua política contra PCC, Comando Vermelho e milícias? Como pretende enfrentar a infiltração do crime organizado no sistema financeiro, nas empresas e no próprio Estado?

Soberania nacional e a relação com os Estados Unidos

E há uma questão ainda maior: soberania nacional. Eduardo Bolsonaro deixou o Brasil e permaneceu nos Estados Unidos. Perdeu o mandato parlamentar por faltas e foi condenado pelo STF a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo. Na última sexta-feira, a Primeira Turma rejeitou por unanimidade seu recurso. Segundo o Supremo, houve provas de que Eduardo articulou o tarifaço dos Estados Unidos contra exportações brasileiras para tentar evitar a condenação de Jair Bolsonaro, além de atuar por outras medidas de pressão. Eduardo contesta a condenação.

Então algumas perguntas não podem ser escondidas pela polarização. Qual será o papel de Eduardo num eventual governo Flávio? Qual será a relação do Brasil com Donald Trump? Como Flávio reagirá quando interesses de Washington entrarem em conflito com os interesses brasileiros? O que fará em relação ao PIX, às terras raras e à China? O Brasil terá uma política externa própria ou ficará ideologicamente alinhado aos Estados Unidos?

O peso político da família Bolsonaro

E Jair Bolsonaro? Flávio defende medidas que podem devolver ao pai condições de participação política e já admitiu sua presença num eventual governo. Portanto, é legítimo perguntar quanto da agenda de um presidente Flávio Bolsonaro seria dedicada ao país e quanto seria destinada à reconstrução política da própria família.

Quanto a Lula, o eleitor não está diante de uma folha em branco. Há quase quatro anos de governo para examinar. Pode aprová-lo ou rejeitá-lo. Pode criticar os juros elevados, as contas públicas, a inflação ou qualquer outra política. Mas existem ações e resultados concretos para serem avaliados: emprego, política de valorização do salário mínimo, ampliação da isenção do Imposto de Renda, Bolsa Família, relações com China e Estados Unidos, busca de mercados diante das barreiras comerciais, investigação das fraudes do INSS, combate ao crime organizado e atuação das instituições no caso Banco Master. Isso não significa que esteja tudo bem. Significa que existe uma realidade concreta para ser julgada.

Quando a ideologia substitui os fatos

E é disso que deveria tratar uma eleição. A ideologia não escolhe classe social nem diploma. Pode cegar o pobre e o rico, o trabalhador e o empresário, o médico, o engenheiro, o economista e o professor. Escolaridade não imuniza ninguém contra o desejo de acreditar apenas naquilo que confirma suas próprias convicções.

Talvez por isso possamos discutir durante horas Alexandre de Moraes, André Mendonça, Daniel Vorcaro e Banco Master e dedicar tão pouco tempo àquilo que realmente estará em julgamento nas urnas. Alexandre de Moraes não estará na urna. André Mendonça não estará. Daniel Vorcaro não estará. Lula e Flávio Bolsonaro estarão.

É o eleitor quem decidirá. Mas, antes de decidir, deveria olhar para os fatos com a mesma régua, independentemente de quem eles favoreçam ou prejudiquem. Caso contrário, não estaremos julgando a realidade: estaremos apenas procurando nela aquilo que confirma nossa ideologia.

E, depois de tudo isso, voltamos exatamente ao ponto de partida deste artigo: Flávio Bolsonaro quer governar o Brasil ou reconstruir politicamente sua família?

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado.



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