Flávio Bolsonaro tem 45 anos. Nasceu em 30 de abril de 1981 e entrou cedo na política: elegeu-se deputado estadual em 2002 e iniciou o mandato em 2003, aos 21 anos. Foram quatro mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Em 2019, assumiu uma cadeira no Senado.
Faça-se a conta: dos 21 aos 45 anos, praticamente toda a sua vida adulta transcorreu exercendo mandato eletivo. Agora, pretende dar o salto para a Presidência da República.
Flávio é advogado e empresário, conforme sua biografia oficial. Mas sua trajetória profissional conhecida é predominantemente política. É justamente essa trajetória pública que merece ser examinada. Não é necessário inventar nada. Nem transformar investigação em condenação. Basta colocar os fatos conhecidos em sequência.
Flávio Bolsonaro e a investigação das rachadinhas
Comecemos por Fabrício Queiroz.
O Ministério Público do Rio denunciou Flávio, em 2020, sob acusações de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita no chamado caso das “rachadinhas”. Segundo a acusação, Queiroz recolhia parte dos salários de funcionários do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa.
Flávio não foi condenado. Mas é igualmente importante dizer o que aconteceu: não houve julgamento de mérito daquela denúncia concluindo que o esquema investigado não existiu ou que os fatos atribuídos a ele eram falsos. O STJ e o STF invalidaram provas da investigação por questões jurídicas e processuais. Sem essas provas, o próprio Ministério Público pediu a retirada da denúncia, que foi rejeitada pelo Tribunal de Justiça do Rio em 2022.
E a história não terminou simplesmente com uma investigação que teria concluído que “não havia nada”. O Ministério Público ainda tentou reconstruir elementos da apuração e obter nova quebra dos sigilos bancário e fiscal de Flávio. Em 2025, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou essa tentativa. O procedimento cível contra o senador acabou arquivado, e a via criminal também foi encerrada. Permaneceram, contudo, perguntas não respondidas apontadas pela própria investigação, especialmente sobre dinheiro vivo, despesas e determinadas operações imobiliárias.
As acusações de Moro sobre interferência na PF
Há outro episódio daquele período que também merece ser lembrado. Em abril de 2020, Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça acusando Jair Bolsonaro de tentar interferir politicamente na Polícia Federal. Em depoimento oficial, Moro relatou a insistência do então presidente em trocar o comando da corporação e, particularmente, o superintendente da PF no Rio de Janeiro. Segundo Moro, Bolsonaro chegou a lhe escrever: “Moro, você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro.”
Era justamente no Rio que estavam investigações envolvendo integrantes e pessoas próximas à família Bolsonaro. A investigação das rachadinhas de Flávio era conduzida pelo Ministério Público estadual, e não pela Polícia Federal, embora a PF conduzisse outras apurações envolvendo personagens e assuntos relacionados à família.
Moro também declarou publicamente, naquele período, que decisões tomadas por Jair Bolsonaro sobre pontos do pacote anticrime tinham, em sua avaliação, o objetivo de proteger Flávio.
O episódio ganhou nova relevância anos depois. Em outubro de 2025, o Supremo Tribunal Federal, atendendo a pedido da Procuradoria-Geral da República, reabriu o inquérito sobre a suposta interferência de Jair Bolsonaro na Polícia Federal. A investigação havia sido arquivada em 2022 depois de a própria PF concluir, naquela ocasião, que não encontrara ingerência política. A PGR considerou necessário aprofundar novamente a apuração.
Provas invalidadas e acusações sem julgamento de mérito
Portanto, quando se afirma simplesmente que “a rachadinha foi arquivada e não provaram nada contra Flávio”, falta uma parte importante da história. A denúncia existiu. As provas que a sustentavam foram posteriormente invalidadas. O mérito daquela acusação não chegou a ser julgado. Houve tentativas posteriores do Ministério Público de produzir novas provas, também rejeitadas pela Justiça. E, paralelamente, a acusação feita por Sergio Moro de interferência de Jair Bolsonaro na Polícia Federal deu origem a um inquérito que, depois de arquivado, foi reaberto pelo STF em 2025.
Esses são os fatos.
No meio dessa investigação apareceu uma franquia de chocolates da qual Flávio era sócio. O Ministério Público investigou movimentações em dinheiro vivo da empresa e sustentou que ela teria sido utilizada para lavagem. Flávio negou. A acusação não resultou em condenação.
E havia os imóveis. Negociações imobiliárias de Flávio também foram examinadas pelo Ministério Público no contexto da investigação das rachadinhas. Até que, em 2021, surgiu uma operação que chamou atenção nacional: a compra de uma mansão no Setor de Mansões Dom Bosco, no Lago Sul, uma das áreas residenciais mais valorizadas de Brasília.
A mansão de Flávio Bolsonaro e os valores da compra
O preço registrado foi de R$ 5,97 milhões. E não estamos falando de uma casa qualquer. São aproximadamente 1.100 metros quadrados de área construída, num terreno de 2.500 metros quadrados. Quatro suítes, suíte principal com hidromassagem e closet, academia, brinquedoteca, piscina, spa com aquecimento solar, espaço gourmet e oito vagas de garagem.
Faça-se outra conta simples: dividindo o preço declarado de R$ 5,97 milhões pelos 1.100 metros quadrados construídos, chegamos a aproximadamente R$ 5,4 mil por metro quadrado. Quem conhece Brasília e o mercado imobiliário do Lago Sul pode avaliar o que esse número representa.
Hoje, anúncios imobiliários de casas no Lago Sul apresentam valores médios próximos de R$ 7 mil por metro quadrado, enquanto imóveis de alto padrão no próprio Setor de Mansões Dom Bosco aparecem oferecidos por valores superiores a R$ 12 mil, R$ 17 mil e, em alguns casos, R$ 20 mil por metro quadrado. Há, por exemplo, imóvel com cerca de 1.200 metros quadrados de área construída anunciado por aproximadamente R$ 21 milhões.
É preciso fazer a ressalva: estamos comparando uma compra realizada em 2021 com preços pedidos em anúncios de 2026. Isso não permite afirmar que a mansão de Flávio valesse R$ 15 milhões, R$ 20 milhões ou qualquer outro valor quando foi comprada. Para isso seria necessária uma avaliação imobiliária contemporânea à operação.
O financiamento do BRB e a quitação antecipada
Mas os números existem. Dos R$ 5,97 milhões da compra, R$ 3,1 milhões foram financiados pelo BRB, banco controlado pelo Governo do Distrito Federal. O contrato previa 30 anos para pagamento.
A operação provocou questionamentos e chegou a ser examinada pelo Ministério Público do Distrito Federal. O BRB negou qualquer favorecimento. Posteriormente, o MPDFT concluiu que o financiamento respeitou as regras internas do banco, e a Justiça rejeitou a ação que questionava a operação.
Mas existe outro número que chama atenção. Um financiamento contratado por 30 anos foi liquidado em aproximadamente três.
Entre 2022 e 2024, Flávio realizou seis amortizações extraordinárias. Houve pagamentos próximos de R$ 700 mil e um de R$ 997 mil. No total, foram cerca de R$ 3,4 milhões desembolsados para quitar antecipadamente o financiamento.
Quando pediu o empréstimo, Flávio informou ao BRB renda mensal de aproximadamente R$ 56,8 mil. Cerca de metade vinha da franquia de chocolates e 44% do salário parlamentar. Nenhuma renda da advocacia aparecia naquele documento. Posteriormente, sua defesa também mencionou atividade advocatícia entre suas fontes de renda. A Justiça considerou comprovada a capacidade financeira do casal e regular a operação.
Há ainda outro dado objetivo.
O patrimônio declarado e os vínculos com Queiroz e Adriano
Em 2018, quando concorreu ao Senado, Flávio declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de aproximadamente R$ 1,74 milhão. Em 2026, ao registrar sua candidatura à Presidência, declarou R$ 8,19 milhões — cerca de 4,7 vezes o patrimônio nominal declarado oito anos antes. A mansão aparece na declaração atual por aproximadamente R$ 6,2 milhões.
Sigamos.
Queiroz também apareceu em outro episódio público. A quebra de seu sigilo revelou repasses feitos por ele e sua mulher, Márcia Aguiar, que somaram R$ 89 mil para Michelle Bolsonaro. Jair Bolsonaro afirmou que o dinheiro correspondia à devolução de empréstimos feitos ao antigo amigo.
Depois aparece Adriano da Nóbrega.
Quando deputado estadual, Flávio concedeu a Adriano a Medalha Tiradentes, principal honraria da Assembleia Legislativa do Rio. Na ocasião, Adriano estava preso preventivamente por homicídio; posteriormente foi absolvido daquele crime. Anos depois, seria apontado pelas autoridades como chefe de milícia na zona oeste carioca.
E existe algo ainda mais concreto: a mãe e a ex-mulher de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro.
Emendas parlamentares e o financiamento de Dark Horse
Avancemos para 2026.
Uma assessora de Flávio tratou da liberação de emendas parlamentares com Robson Calixto, o “Peixe”, posteriormente condenado pelo STF no processo relacionado ao assassinato de Marielle Franco. A Polícia Federal também investigou recursos de emendas do senador destinados a uma organização ligada ao caso. Flávio sustenta que as emendas foram legais e aprovadas tecnicamente e que cabe às entidades beneficiárias responder pela aplicação do dinheiro.
E então chegamos a Daniel Vorcaro e ao Dark Horse.
Flávio é hoje formalmente investigado no inquérito que apura o financiamento do filme sobre seu pai. Relatórios da Polícia Federal registram mensagens entre Flávio e Vorcaro, possíveis encontros e cobranças relacionadas ao dinheiro destinado à produção.
Segundo a PF, Flávio pediu R$ 131 milhões a Vorcaro para o projeto, dos quais aproximadamente R$ 60 milhões teriam sido pagos. A investigação também apura a participação de Eduardo Bolsonaro na articulação dos recursos e busca esclarecer a origem, o caminho e os beneficiários finais do dinheiro.
A viagem de jato e as hipóteses sob investigação
Flávio e Eduardo negam irregularidades. Há ainda outro episódio envolvendo Vorcaro. Em janeiro de 2025, Flávio viajou com a mulher e as duas filhas dos Estados Unidos para Brasília em um jato executivo ligado à estrutura empresarial que teve Daniel Vorcaro entre seus sócios. A viagem ocorreu durante o período das negociações relacionadas ao financiamento de Dark Horse. Flávio afirmou que, naquele momento, considerava que a aeronave pertencia ao advogado Willer Tomaz.
Separadamente, a Polícia Federal apura pelo menos US$ 12,33 milhões enviados para um fundo nos Estados Unidos relacionado à estrutura financeira do filme e investiga se recursos poderiam também ter financiado despesas de Eduardo Bolsonaro naquele país. Isso permanece como hipótese investigativa, não como fato judicialmente estabelecido.
Portanto, não é necessário dizer que Flávio Bolsonaro foi condenado quando não foi. Também não é preciso afirmar que pertenceu a milícia, participou do assassinato de Marielle ou cometeu crimes que ainda estão sendo investigados.
A trajetória pública sob o olhar do eleitor
Os fatos documentados já são numerosos. Aos 45 anos, Flávio Bolsonaro passou aproximadamente metade da vida – e praticamente toda a vida adulta – exercendo mandatos políticos. Foram 16 anos como deputado estadual e quase oito como senador.
Nesse percurso apareceram Queiroz e a investigação das rachadinhas; a loja de chocolates; dinheiro vivo e operações imobiliárias investigadas; uma mansão de 1.100 metros quadrados construída num terreno de 2.500 metros quadrados, adquirida por R$ 5,97 milhões; um financiamento de R$ 3,1 milhões contratado para 30 anos e liquidado em cerca de três; Adriano da Nóbrega e familiares empregados no gabinete; emendas posteriormente investigadas; e, agora, Daniel Vorcaro e o financiamento de Dark Horse.
Seu patrimônio declarado à Justiça Eleitoral passou, em valores nominais, de R$ 1,74 milhão em 2018 para R$ 8,19 milhões em 2026. Nenhuma dessas informações, isoladamente ou em conjunto, substitui uma sentença judicial. Investigação não equivale a condenação.
Mas eleição presidencial também não é julgamento criminal. Nela, cabe ao cidadão conhecer a biografia pública, o patrimônio declarado, as relações políticas, as investigações, as explicações apresentadas e os respectivos desfechos institucionais de quem pretende governar o país.
Depois disso, cada eleitor fará seu próprio julgamento. Os fatos estão aí.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
Foto: Carlos Moura/Agência Senado.