Uma publicação de 2015 do “The British Journal of Psychiatry” sobre esquizofrenia circulou pelas redes sociais nos últimos meses. Trata-se do estudo de como era a experiência de ouvir vozes entre pessoas com critérios para o diagnóstico de esquizofrenia nos EUA, em Gana e na Índia. Nesse estudo, realizado em parceria entre a antropóloga Tanya Marie Luhrmann e três psiquiatras, foram constatadas diferenças culturais muito significativas sobre a experiência considerada como alucinatória sob o ponto de vista da psicopatologia hegemônica.
Basicamente, os entrevistados dos EUA fizeram mais referência ao diagnóstico médico e às vozes como sendo violentas e impositivas. Por outro lado, os participantes da pesquisa de Gana e da Índia disseram se relacionar de um modo enriquecedor e afetivo com as vozes ouvidas. Uma das explicações dos autores é de que no ocidente, particularmente na Europa e nos EUA, as pessoas se consideram mais como indivíduos independentes, como unidade íntegra e separada dos demais. Diferentemente de populações de outras culturas, que tendem a pensar a sua constituição como pessoa de uma maneira muito mais aberta e conectada com outros. Assim, enquanto os estadunidenses cuidam de si como se fossem uma casa que precisa de muros altos e câmeras de vigilância para evitar invasões, em outros lugares é possível cuidar de si recebendo vizinhos, parentes e outros convidados com as portas de casa aberta.
Esquizofrenia, cultura e relações sociais
Esse estudo coloca em análise a importância de observarmos as relações sociais quando estamos diante de indícios ou avaliação de um transtorno mental, como é o caso da esquizofrenia. Ou seja, o estudo evidencia o quanto é incorreto reduzir a investigação e a condução clínica ao domínio individual a partir de critérios universais, pois as pessoas com o mesmo transtorno mental convivem com ele de maneiras muito variadas a depender como as diferenças de comportamento são tratadas pela comunidade em que elas vivem.
Entretanto, na tentativa de identificar as necessidades comuns das pessoas com sofrimento mental e organizar os serviços de assistência, a esquizofrenia – assim como os demais transtornos mentais – recebeu uma padronização global dos critérios diagnósticos, elaborada por consensos internacionais. Nesse sentido, a Organização Mundial de Saúde definiu a Classificação Internacional de Doenças (CID) e a American Psychiatric Association criou o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), que também é uma referência global.
Houve, portanto, um esforço para encontrar uma descrição padrão da esquizofrenia por meio da identificação da presença de pelo menos um desses domínios no comportamento da pessoa: 1) delírios, que são crenças fixas e estranhas ao meio de convivência, que não se desfazem mesmo diante de evidências contrárias, como, por exemplo, uma pessoa acreditar que os outros estão olhando para ela o tempo todo; 2) alucinações, que são alterações na percepção dos sentidos sem haver um estímulo externo, como, por exemplo, ouvir vozes sem identificar quem está falando; 3) pensamento e discurso desorganizado a tal ponto que a pessoa deixa de conseguir se comunicar tamanha a dificuldade em manter o foco da conversa ou por fazer uma “salada de palavras”. Esses domínios podem estar combinados com movimentos de corpo grosseiramente desorganizados ou anormais, tais como: olhares fixos, caretas, eco das falas dos outros e gestos imprevisíveis. Também podem apresentar sintomas negativos como a diminuição da expressão emocional pela face ou pela entonação de voz e perda da capacidade de experimentar prazer.
Diagnóstico não pode ignorar diferenças culturais
No entanto, no texto revisado da 5ª Edição, o DSM incorporou uma análise fundamental sobre as diferenças culturais e étnico-raciais relacionadas à apresentação de sintomas e seus efeitos para a pessoa e sua comunidade. Com um destaque importante para não confundir expressões físicas e de pensamento que fazem parte de rituais religiosos e culturais com sintomas que indicam algum tipo de adoecimento.
Diante disso, é certo que nem todas as pessoas que apresentem as alterações descritas anteriormente são esquizofrênicas e, mesmo que seja feito esse diagnóstico, o modo como a pessoa conviverá com ele varia a depender não somente da singularidade individual, mas também da rede de relações sociais em que essa pessoa vive: família, vizinhança, religião, trabalho, amigos, comunidade etc. Como diz a psiquiatra Juliana Belo Diniz em “O que os psiquiatras não te contam” (Ed. Fósforo, 2025): “A psiquiatria não nasceu biológica nem se tornou exclusivamente biológica”.
Quando o diagnóstico passa a ocupar espaço demais
Diniz, que é psiquiatra e especialista em pesquisa com neuroimagens, faz uma problematização muito acertada de como equivocamente a nossa sociedade caminhou para um processo de “psiquiatrialização” da vida, o que atribuiu um papel muito exagerado da importância de diagnósticos e uso de medicamentos para lidar com as alterações e sofrimentos mentais. Evidentemente não se trata de negar o valor e a contribuição científica e terapêutica do conhecimento psiquiátrico nem recusar o sofrimento decorrente das alterações psíquicas descritas tampouco a necessidade do uso adequado de medicação, mas de dimensionar melhor qual é real ajuda da psiquiatria para que esta não se torne um problema. Ou seja, para que a psiquiatria – a terapia ocupacional, a psicologia ou qualquer outra prática – não se torne uma maneira de adaptar os diferentes modos de experimentar a vida a um modo único, como se houvesse somente um jeito correto e funcional de viver em sociedade, excluindo todos os demais.
Sobretudo nos séculos XIX e XX, com o crescimento das cidades e do trabalho industrial, houve um processo de marginalização social das diferenças. A vida urbana e a organização do trabalho produtivo exigiam mais disciplina e padronização, o que produziu uma intolerância com as pessoas que não se enquadravam e uma demanda por retirá-las do convívio. As pessoas esquizofrênicas, por exemplo, tornaram-se um problema para esse tipo de sociedade seja pelos sintomas negativos que tornava o corpo lento para produção seja por desorganizações do pensamento que tornava a instrução dos dirigentes menos eficientes. Aos esquizofrênicos, somaram-se pessoas rebeldes, bêbados, mendigos, mulheres que não aceitavam se submeter às ordens familiares e todo tipo de pessoa que não se enquadrava ao sistema produtivo da sociedade. Dessa forma, proliferaram os grandes manicômios, marcados pelo isolamento social e os maus-tratos em grande escala.
Da lógica dos manicômios ao cuidado em liberdade
Em especial no Brasil, os movimentos para desconstrução desse modelo de suposto tratamento ganharam força a partir do final dos anos 1970, com o surgimento do Movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira e da Luta Antimanicomial. Experiências de mudança foram surgindo e aumentando, mas somente em 2001 foi aprovada a Lei nº 10.216, que garante o direito das pessoas com transtorno mental.
Essa lei foi fundamental para dar o subsídio para a desconstrução de um modelo baseado no isolamento social e construção de um modelo de cuidado baseado na vida comunitária, chamado de Modo de Atenção Psicossocial. A partir daí, foram criados os Centros de Atenção Psicossocial e, mais adiante, a Rede de Atenção Psicossocial em todo o Brasil, com uma composição interprofissional e de serviços de saúde e de outros setores para promover um tipo de cuidado integral e no território.
Esse processo certamente esbarra em uma série de dificuldades tanto de caráter mais administrativo e governamental, mas também para construir uma nova maneira da sociedade lidar com o sofrimento mental, em especial com as pessoas chamadas popularmente de loucas. Isso, na verdade, só reforça a necessidade de seguir adiante com essa mudança para construir uma sociedade mais saudável para todas as pessoas.
Esquizofrenia e vida em sociedade: o cuidado no território
O cuidado no território, de todo modo, retoma as colocações iniciais desse artigo: a experiência de vida das pessoas com diagnóstico de esquizofrenia varia conforme o local onde vivem. Cuidar das pessoas junto ao seu lugar de existência e cuidar desse lugar para melhorar a maneira de viver são fundamentais para avançar na qualidade de vida que produzimos na nossa sociedade: viver de modo mais acolhedor e solidário.
A integralidade do cuidado reforça o quanto as pessoas em sofrimento mental, em especial as esquizofrênicas, requerem um olhar para além de seus eventuais sintomas que causam estranheza e algum tipo de temor e afastamento. Elas requerem uma desconstrução dos nossos anseios de reduzir as pessoas a um diagnóstico psiquiátrico e dos nossos modos de nos relacionarmos uns com os outros.
A sociedade atual é marcada pela exigência de aumento constante de desempenho e pela ideia geral de que cada um deve cuidar de si e do seu crescimento pessoal e profissional. Esses ideais promovem uma maneira de viver, mas também de gerar transtornos mentais. A esquizofrenia bem como outros transtornos mentais mais prevalentes como os depressivos podem ser indicativos de como certas cobranças sociais poderiam ser modificadas e de como podemos experimentar modos saudáveis de compartilhar a vida em sociedade. Ou seja, reconhecer, entender e tratar o adoecimento em nosso meio social implica uma participação da sociedade.
O autor é Psicólogo, Doutor em Saúde Coletiva e Professor da UFSCar – Campus Lagoa do Sino.
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