O debate sobre domesticação, mercado e racionalidade produtiva no uso econômico da biodiversidade tem ganhado centralidade nas últimas décadas, especialmente no contexto amazônico e das florestas tropicais. No entanto, esse debate não pode ser conduzido a partir de uma visão romantizada do extrativismo vegetal.
Como demonstra a literatura especializada, em particular a obra Extrativismo vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação (Homma, 2014), o extrativismo constitui, historicamente, uma fase transitória da exploração econômica dos recursos naturais, e não seu estágio final ou ideal. Dessa forma, essa chave interpretativa permite compreender, em situações concretas, as tensões entre a expansão do mercado, os limites da oferta extrativa e a emergência de formas mais racionais de produção.
Isso ocorre porque a lógica do extrativismo está intrinsecamente condicionada à disponibilidade natural dos recursos e à baixa intensidade tecnológica. Em um primeiro momento, quando a demanda é limitada e os estoques são abundantes, a coleta direta na natureza pode ser suficiente. Contudo, à medida que o mercado se expande, essa forma de produção revela seus limites estruturais: baixa produtividade da terra e do trabalho, dispersão espacial dos recursos, dificuldade de escala e crescente custo de extração (Homma, 2014). São substituídos ou ocorre o seu abandono, pois nem sempre a sustentabilidade econômica garante a sustentabilidade biológica e vice-versa.
Nesse sentido, o extrativismo segue um ciclo relativamente previsível: expansão inicial, estagnação e, posteriormente, declínio. Com efeito, o ponto de inflexão ocorre justamente quando a oferta extrativa deixa de acompanhar o crescimento da demanda (Figura 1). É nesse momento, portanto, que se impõe a necessidade de transição para formas mais racionais de produção, baseadas no manejo e, sobretudo, na domesticação das espécies (Homma, 2014).
A despeito da ênfase no extrativismo, verifica-se que não estão formando novos ciclos extrativos na Amazônia, mas o seu contínuo desaparecimento secular. Basta, por exemplo, analisar as centenas de plantas extrativas que eram utilizadas mencionadas no livro do Padre João Daniel (1772-1776)[1] escrito no século XVIII em comparação com o presente (Daniel, 2004).


Fonte: Homma, 2018.
A domesticação de plantas, portanto, não é apenas um avanço técnico, mas uma resposta estrutural às exigências do mercado e da sociedade. Ao longo da história, foi esse processo que permitiu à humanidade superar a dependência da coleta e estabelecer sistemas agrícolas capazes de garantir regularidade de oferta, padronização de produtos, redução de custos e ampliação do acesso aos bens. De fato, mais de três mil espécies vegetais foram domesticadas ao longo dos últimos dez mil anos, constituindo a base da agricultura mundial (Homma, 2018; Homma, 2014).
Além disso, a domesticação possibilita ganhos simultâneos para produtores e consumidores. De um lado, aumenta a produtividade e a renda; de outro, reduz preços e amplia o acesso. Ao mesmo tempo, contribui para a conservação dos estoques naturais, uma vez que diminui a pressão sobre populações silvestres. Trata-se, portanto, de um processo que articula eficiência econômica e sustentabilidade ambiental, algo que o extrativismo, isoladamente, dificilmente consegue garantir (Homma, 2018, Homma, 2014).
Por isso, a insistência na manutenção do extrativismo como modelo dominante, especialmente para produtos com alta demanda, revela um equívoco analítico e político. Como aponta Homma, a crença na inesgotabilidade dos recursos naturais e na suficiência da coleta direta tende a bloquear investimentos em pesquisa, tecnologia e inovação, retardando o desenvolvimento regional e limitando o potencial econômico da biodiversidade.
É nesse quadro, portanto, que se insere a discussão sobre a palmeira juçara (Euterpe edulis) e de dezenas de produtos extrativos (castanha-do-pará, tucumã, bacuri, etc.) cuja oferta chegou na sua capacidade limite. Por exemplo, a exploração da juçara concentrou-se tradicionalmente na extração de palmito. A espécie sofreu, consequentemente, intensa pressão ao longo do tempo, levando à redução significativa de suas populações naturais.
Esse processo, porém, não se restringe à dimensão econômica, mas envolve também impactos ecológicos profundos, uma vez que a juçara desempenha papel-chave na dinâmica das florestas atlânticas, especialmente como recurso alimentar para a fauna frugívora. Portanto, a exploração predatória, ao eliminar indivíduos reprodutivos, compromete não apenas a regeneração da espécie, mas também as interações ecológicas associadas à dispersão de sementes, contribuindo para processos mais amplos de empobrecimento funcional dos ecossistemas (Rother; Pizo; Jordano; Galetti et al., 2013; Galetti et al., 2017).
Mais recentemente, o aproveitamento de seus frutos tem aberto novas possibilidades econômicas, especialmente no contexto de mercados associados à biodiversidade e à alimentação saudável. Esse movimento representa uma inflexão importante, ao deslocar o foco da extração destrutiva para formas de uso que mantêm a palmeira em pé, criando condições para a compatibilização entre conservação e geração de renda.
No entanto, a expansão dessa demanda coloca em evidência os limites do modelo extrativista. A coleta de frutos em populações naturais, embora relevante como estratégia inicial, não possui capacidade de sustentar, de forma contínua e em escala, mercados em crescimento. Além disso, a dependência quase exclusiva do extrativismo tende a reproduzir problemas clássicos: instabilidade de oferta, baixa produtividade e vulnerabilidade socioeconômica dos produtores.
Considerações finais
Diante disso, torna-se fundamental avançar nos sistemas de cultivo da juçara. Para tanto, é necessário investir em pesquisa agronômica, seleção de matrizes, desenvolvimento de técnicas de manejo, implantação de sistemas agroflorestais e organização de cadeias produtivas estruturadas. A produção de juçara em forma de agricultura não deve ser entendida como substituição total do extrativismo nem como substituição de outros produtos da floresta, mas como sua integração produtiva, transformando áreas degradadas, reservas legais e sistemas agrícolas em espaços de produção sustentável.
Ao incorporar a juçara em sistemas cultivados, especialmente em arranjos agroecológicos e agroflorestais, é possível conciliar geração de renda, conservação da biodiversidade e restauração ecológica. Trata-se, assim, de deslocar a lógica da simples coleta para uma lógica de produção planejada, contínua e tecnicamente orientada, capaz de atender às exigências de mercado sem comprometer os recursos naturais.
Em síntese, a domesticação de plantas da biodiversidade representa um passo decisivo para superar os limites do extrativismo e construir uma bioeconomia efetivamente sustentável. Mais do que uma opção técnica, trata-se de uma escolha estratégica: ou se avança na racionalização produtiva, ou se permanece preso a um modelo incapaz de responder à dinâmica do mundo contemporâneo.
Aldenor da Silva Ferreira é Doutor em Ciências Sociais, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Câmpus Lagoa do Sino. Coordena o Programa de Pós-Graduação em Conservação e Sustentabilidade (PPGCS), vinculado ao Centro de Ciências da Natureza (CCN) da UFSCar.*
Alfredo Kingo Oyama Homma é Doutor em Economia Rural, membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica (ABCA); Legendário da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER) e docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade do Estado do Pará. (UEPA)**.
Foto: Divulgação/https://stock.adobe.com/br/search?k=jussara.
Referências
ROTHER, D. C.; PIZO, M. A.; JORDANO, P. Variation in seed dispersal effectiveness: the redundancy of consequences in diversified tropical frugivore assemblages. Oikos, v. 125, n. 3, p. 336–342, 2016. Disponível em: https://nsojournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/oik.02629. Acesso em: 24 set. 2026.
GALETTI, M. et al. Functional extinction of birds drives rapid evolutionary changes in seed size. Science. 2013 May 31;340(6136):1086-90. doi: 10.1126/science.1233774. Erratum in: Science. 2013 Dec 13;342(6164):1316. PMID: 23723235. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23723235/. Acesso em: 27 abr. 2026.
GALETTI, M. et al. Defaunation and biomass collapse of mammals in the largest Atlantic forest remnant. Animal Conservation, v. 20, n. 3, p. 270–281, 2017. DOI: https://doi.org/10.1111/acv.12311.
HOMMA, A. K. O. Colhendo da natureza: o extrativismo vegetal na Amazônia. Brasília, DF: Embrapa, 2018. 219p.
HOMMA, A. K. O. (Org.). Extrativismo vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação. Brasília, DF: Embrapa, 2014.
DANIEL, J. Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004. v.1 e 2.
[1] Missionário, cronista e jesuíta português que viveu na Amazônia (1741-1757) que escreveu a monumental obra Tesouro descoberto no máximo Rio Amazonas, um registro sobre a natureza, os povos indígenas e a vida na região do século XVIII.