Pular para o conteúdo

Dois ipês brancos contra o cinza de Manaus

À margem do Igarapé do 40, dois jovens ipês brancos decidiram florescer. Não pediram licença ao concreto, não se intimidaram…

4 min de leitura
Compartilhar: WhatsApp X
Dois ipês brancos contra o cinza de Manaus


À margem do Igarapé do 40, dois jovens ipês brancos decidiram florescer.

Não pediram licença ao concreto, não se intimidaram com o lixo espalhado pelo chão, nem esperaram que as águas do velho igarapé recuperassem a transparência perdida. Apenas floresceram. Como se soubessem que, em certos lugares, nascer já é uma forma de resistência, e dar flores, um gesto de rebeldia.

Os dois exemplares parecem solitários. Erguem-se entre postes, placas, fios, muros envelhecidos e o movimento indiferente dos carros. Ao lado deles corre um dos igarapés mais conhecidos de Manaus, marcado pela ocupação desordenada e por uma longa história de poluição. Um curso d’água que a cidade feriu, cobriu de resíduos e acostumou-se a enxergar como parte degradada da paisagem.

Ainda assim, os ipês estão ali.

Nesta época do ano, a Amazônia vive aquilo que, por licença poética, podemos chamar de primavera. Não temos as quatro estações bem repartidas como nos livros escolares. Por aqui, o calendário é regido pelo sol, pela chuva, pela cheia, pela vazante e pelos sinais particulares que a floresta oferece. Entre esses sinais está a floração dos ipês, que se despem das folhas para vestir o branco.

Mas, neste ano, a beleza chegou acompanhada de uma visita indesejável.

A fumaça das queimadas finalmente alcançou Manaus e cobriu a cidade com uma névoa seca. O céu perdeu o azul, a distância desapareceu e os contornos dos prédios ficaram dissolvidos numa cortina cinzenta. O ar passou a carregar o cheiro e as partículas da floresta queimada em algum lugar. O horizonte tornou-se a prova visível de uma destruição que, muitas vezes, acontece longe dos olhos.

Entre a fumaça e as águas poluídas

Foi justamente nesse dia que os dois ipês brancos se destacaram na margem do Igarapé do 40.

De um lado, enfrentavam a poluição antiga, instalada nas águas do vizinho. Do outro, encaravam a poluição recém-chegada pelo céu. Estavam entre duas feridas: a cidade que contaminou seus rios e a fumaça produzida pelo fogo que consome a floresta.

Mesmo assim, floresceram.

O branco das copas colocou-se à frente do cinza da fumaça. Não como quem desconhece a ameaça, mas como quem se recusa a desaparecer diante dela. As flores pareciam pequenas bandeiras de paz hasteadas nos galhos. Ou talvez fossem um protesto silencioso da natureza, lembrando que ainda existe beleza onde quase tudo conspira contra ela.

Há também certa fragilidade naquela floração. Em poucos dias, as pétalas cairão. Muitas já formam um tapete branco sobre a calçada e se misturam à poeira e ao lixo. É da natureza do ipê oferecer um espetáculo breve. Mas a brevidade não diminui sua força. Ao contrário: torna ainda mais urgente o gesto de olhar.

Os dois jovens ipês não podem limpar o Igarapé do 40. Também não conseguem afastar a fumaça que cobre Manaus. Não apagam os incêndios, não recolhem o lixo, não recuperam as nascentes, nem obrigam os homens a cuidar da cidade que construíram dentro da floresta.

Mas fazem aquilo que lhes cabe: resistem vivos.

Florescer também é resistir

E, por alguns dias, cobrem-se de branco para mostrar que o cinza não precisa ser o destino definitivo da paisagem.

À margem de um igarapé ferido e sob um céu adoecido, os dois ipês florescem como quem guarda uma esperança. São jovens, solitários e aparentemente indefesos. Ainda assim, desafiam duas formas de abandono e oferecem a Manaus uma imagem difícil de esquecer.

Enquanto a fumaça tenta esconder a cidade, eles aparecem.

Enquanto o igarapé carrega as marcas da poluição, eles florescem.

E enquanto houver uma árvore capaz de responder ao cinza com flores, talvez ainda exista tempo para Manaus reaprender a cuidar de suas águas, de seu ar e de si mesma.

O autor é jornalista e filósofo*.

Foto: Arquivo pessoal.



BNC Amazonas

Últimas notícias