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Deus ou Lúcifer? André Mendonça e Flávio Bolsonaro

Deus anda trabalhando demais na política brasileira. É chamado para justificar candidaturas, escolhas para o Supremo Tribunal Federal, projetos de…

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Deus ou Lúcifer? André Mendonça e Flávio Bolsonaro


Deus anda trabalhando demais na política brasileira. É chamado para justificar candidaturas, escolhas para o Supremo Tribunal Federal, projetos de poder e até conversas envolvendo dezenas de milhões de reais. Quando a política precisa de legitimidade, Deus aparece. Quando chega a hora de explicar o dinheiro, porém, talvez fosse melhor chamar a Polícia Federal.

E aqui existe uma ironia que não pode passar despercebida. A Polícia Federal que avançou sobre o Banco Master, desvendou suas operações e chegou a Daniel Vorcaro era comandada pelo diretor-geral Andrei Rodrigues. Foi durante sua gestão que Vorcaro acabou preso e que a investigação sobre o Master ganhou dimensão nacional.

É justamente esse Andrei Rodrigues que André Mendonça decidiu afastar do comando da Polícia Federal. Ou seja: o homem que estava à frente da instituição que chegou a Vorcaro, prendeu o banqueiro e avançou sobre um dos maiores escândalos financeiros do país acabou retirado do cargo por decisão do ministro que hoje relata o caso no Supremo.

A coincidência, no mínimo, exige explicações. André Mendonça gosta de falar em Deus. Recentemente pediu que Deus abençoasse os integrantes do Poder Judiciário e afirmou que seus membros deveriam honrar a confiança depositada pelo povo no sistema de Justiça. Michelle Bolsonaro já foi além e o tratou publicamente como um “escolhido” e “ungido” do Senhor.

Entre a fé e a política

Convém colocar as coisas no lugar. André Mendonça não chegou ao Supremo Tribunal Federal por nomeação divina. Foi indicado por Jair Messias Bolsonaro, que havia prometido colocar na Corte um ministro “terrivelmente evangélico”. Depois, como determina a Constituição, seu nome foi aprovado pelo Senado. Nada de sobrenatural, apenas política.

E Deus aparece novamente numa história muito mais terrena: a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. As mensagens reveladas pela imprensa mostram que Flávio negociou com Vorcaro um financiamento de US$ 24 milhões – aproximadamente R$ 134 milhões – para Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Documentos indicam que pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões na cotação da época, foram efetivamente transferidos.

Flávio reconheceu que procurou Vorcaro e sustentou que se tratava de “patrocínio privado” para um “filme privado”. Negou ter recebido vantagem pessoal ou oferecido qualquer contrapartida ao banqueiro. É justamente por isso que investigar é indispensável.

R$ 134 milhões não são troco. R$ 61 milhões efetivamente transferidos também não. A Polícia Federal quer saber a origem, o caminho e a destinação desses recursos. Parte do dinheiro teria chegado a um fundo sediado nos Estados Unidos, e os investigadores querem esclarecer se tudo foi efetivamente empregado na produção cinematográfica.

Quando Deus entra novamente em cena

E eis que Deus entra novamente em cena. Em áudio enviado a Vorcaro, quando cobrava uma posição diante das dificuldades financeiras relacionadas ao filme, Flávio Bolsonaro diz que não sabia como aquilo terminaria e acrescenta: “tá na mão de Deus”. Ao final, despede-se do banqueiro: “Fica com Deus, cara.”

No dia seguinte às mensagens reveladas pela imprensa, Daniel Vorcaro foi preso. Deus, aparentemente, estava sendo convocado para uma conversa que também interessaria bastante à Polícia Federal.

E onde entra André Mendonça? O ministro autorizou, em 23 de julho, a abertura do inquérito para investigar os repasses de Vorcaro ao Dark Horse. A pergunta é outra, e muito mais séria: onde está a mesma velocidade, a mesma energia e a mesma disposição para exposição pública quando a investigação alcança o núcleo político que o colocou no Supremo?

Porque André Mendonça demonstrou que sabe agir com enorme contundência. No caso envolvendo o Banco Master e outras frentes investigativas, tomou decisões de grande impacto institucional. Sua condução chegou ao ponto de Alexandre de Moraes pedir ao presidente do STF investigação sobre a atuação do próprio Mendonça, alegando direcionamento de investigações, quebra da imparcialidade judicial e favorecimento a determinados grupos políticos. São acusações que precisam ser apuradas, não verdades previamente estabelecidas.

A cobrança por isonomia

Mas elas tornam inevitável uma cobrança: isonomia. Se existe rigor para investigar suspeitas relacionadas ao INSS, ótimo. Investigue-se até o fim. Quem roubou aposentados deve responder por isso, seja de direita, de esquerda, de centro ou de lugar nenhum. Mas a régua precisa ser a mesma.

Se mensagens envolvendo determinados personagens justificam providências imediatas, divulgação, aprofundamento e medidas severas, por que as mensagens de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro não mereceriam idêntico entusiasmo investigativo?

Estamos falando de um pré-candidato à Presidência da República que negociou diretamente com o controlador de um banco posteriormente envolvido num dos maiores escândalos financeiros do país um financiamento de R$ 134 milhões para um filme destinado a construir a imagem política de seu próprio pai. Isso é assunto privado?

Pode até ter origem em dinheiro privado. Mas a existência de dinheiro privado nunca tornou automaticamente privada uma questão de interesse público. Cabe justamente à investigação determinar se houve apenas uma relação comercial legítima ou algo além dela.

Religião, família e projeto político

Há ainda uma coincidência política impossível de ignorar. Michelle Bolsonaro assumiu protagonismo crescente na mobilização eleitoral em torno de Flávio. O bolsonarismo mantém como questão central a situação jurídica de Jair Bolsonaro e defende medidas capazes de beneficiá-lo.

Nesse ambiente, religião, família e projeto político se misturam perigosamente. Michelle fala em “ungido do Senhor”. Mendonça invoca a bênção de Deus. Flávio, conversando com Vorcaro sobre uma operação milionária ligada ao filme do pai, diz que tudo está “na mão de Deus”.

É Deus demais para explicação de menos. Talvez devêssemos poupar Deus dessa história. Porque o que existe diante de nós não é um mistério teológico. São fatos humanos: dinheiro, poder, banco, campanha eleitoral, relações políticas, decisões judiciais e investigações policiais.

A fé merece respeito. Justamente por isso não deveria servir de biombo para interesses políticos.

Sem escolhidos, ungidos ou protegidos

André Mendonça tem uma excelente oportunidade de demonstrar que sua toga está acima de sua origem política: aplicar aos aliados de quem o indicou exatamente a mesma régua que aplica aos adversários deles. Sem escolhidos. Sem ungidos. Sem protegidos. E sem colocar na conta de Deus aquilo que os homens fizeram.

Porque, se continuarem usando o nome de Deus para santificar dinheiro e poder, alguém acabará perguntando: Deus ou Lúcifer?

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.



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