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As razões do coração na política brasileira

Blaise Pascal escreveu, há quase quatro séculos, uma frase que atravessou o tempo: “o coração tem razões que a razão…

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As razões do coração na política brasileira


Blaise Pascal escreveu, há quase quatro séculos, uma frase que atravessou o tempo: “o coração tem razões que a razão desconhece.” Pascal falava da fé. Eu quero falar de política. Porque talvez somente as razões do coração consigam explicar uma coisa que a minha razão não consegue: como alguém transforma Jair Bolsonaro em “mito” e, depois de tudo, olha para Flávio Bolsonaro e o considera preparado para presidir o Brasil.

Não é falta de informação. Os fatos estão aí. Eduardo Bolsonaro foi para os Estados Unidos e atuou para pressionar o próprio Brasil. Em setembro de 2026, o STF manteve, por unanimidade, sua condenação a 4 anos e 2 meses por coação no curso do processo. Que nome cada brasileiro dará a essa conduta é problema seu; eu sei o nome que dou. Ainda assim, a família continua sendo apresentada como vítima.

Então aparece Daniel Vorcaro. A Polícia Federal encontrou mensagens e cobranças envolvendo Flávio Bolsonaro e o dono do Banco Master. Flávio pediu R$ 131 milhões a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre o próprio pai, e cerca de R$ 60 milhões teriam sido pagos. Eduardo aparece novamente: a investigação alcançou operações financeiras no exterior e um fundo nos Estados Unidos administrado por advogado próximo a ele. É dinheiro demais, proximidade demais, família demais e coincidência demais. Talvez Pascal consiga explicar: o coração já escolheu; a razão chega depois para justificar.

Quando o coração escolhe primeiro

E há ainda a relação histórica com personagens ligados às milícias do Rio. Flávio Bolsonaro homenageou Adriano da Nóbrega quando era deputado estadual. A mãe e a então mulher de Adriano trabalharam em seu gabinete. Agora aparece Robson Calixto, o “Peixe”, condenado no caso Marielle Franco, em conversas com uma assessora de Flávio sobre liberação de emendas parlamentares. Quando esses fatos aparecem, muitas vezes nem se discute o conteúdo. Basta uma expressão mágica: “fake news”. Pronto. O fato desaparece, não porque tenha sido demonstrado que é falso, mas porque incomoda aquilo em que já se decidiu acreditar.

E nós, amazonenses, temos exemplos ainda mais próximos. Flávio Bolsonaro veio a Manaus em setembro vestido de “100% Zona Franca”, chamou a Zona Franca de Manaus de patrimônio “sagrado” e prometeu defendê-la. Bonito, não fosse um pequeno problema chamado memória. Quando a reforma tributária estava sendo discutida no Senado e era necessário preservar as vantagens competitivas da Zona Franca, Flávio Bolsonaro estava do outro lado. Votou contra o texto e atacou justamente os mecanismos criados para proteger a competitividade do modelo.

Chegou a ironizar que Manaus viraria o “Vale do Silício” e o restante do Brasil, uma Argentina, porque as vantagens concedidas à Zona Franca poderiam atrair indústrias para cá. Agora vem a Manaus vestir camisa de “100% Zona Franca”, e há amazonense que aplaude. A Zona Franca não é uma discussão abstrata para quem mora no Amazonas. É emprego, salário, comércio, serviço, arrecadação, universidade, transporte e construção civil. É a estrutura econômica que sustenta centenas de milhares de famílias.

Manaus, o oxigênio e a memória

Mas talvez nenhum exemplo seja tão doloroso para quem vive no Amazonas quanto janeiro de 2021. Faltou oxigênio nos hospitais de Manaus. Pessoas morreram durante o colapso do sistema hospitalar, enquanto famílias percorriam a cidade atrás de cilindros para tentar manter parentes vivos. Houve responsabilidades e omissões de diferentes níveis de governo, inclusive federal e estadual. Ainda assim, até hoje, quando se menciona Bolsonaro e a tragédia do oxigênio, a resposta de muitos seguidores vem pronta: “Ele não teve culpa.”

E não é apenas quando surge uma denúncia contra a família Bolsonaro que esse mecanismo funciona. Foi assim com a urna eletrônica. Jair Bolsonaro construiu sua carreira política e chegou à Presidência por meio dela. Flávio chegou ao Senado pela urna eletrônica. Outros integrantes da família também conquistaram mandatos pelo mesmo sistema. Nada disso impediu que a desconfiança lançada pelo pai se espalhasse entre seus seguidores. De repente, a urna que serviu para eleger o mito já não era confiável. Era preciso voto impresso, comprovante, fiscalização extraordinária. O fato de a mesma máquina ter produzido as vitórias da própria família tornou-se detalhe.

Na pandemia aconteceu algo parecido. Bolsonaro defendeu reiteradamente a cloroquina e colocou em dúvida aspectos das vacinas contra a covid-19. Para uma parcela de seus seguidores, se o mito recomendava a cloroquina, a cloroquina funcionava; se o mito levantava suspeitas sobre a vacina, a vacina passava a ser suspeita. A autoridade da crença começava a substituir a avaliação da evidência.

Fale de Vorcaro e dos milhões destinados ao Dark Horse e a resposta já está pronta: “era dinheiro privado”. Como se fosse possível colocar uma etiqueta em cada real que circulava dentro do Banco Master e escrever: “este aqui é privado, aquele veio de fundo de previdência, aquele outro está relacionado às operações com o BRB”.

O Master captou bilhões de reais de investidores institucionais, inclusive fundos de previdência, enquanto o BRB, banco controlado pelo Governo do Distrito Federal, adquiriu dezenas de bilhões em ativos ligados ao Master. E, no meio desse universo bilionário, aparecem milhões destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro. Dizer simplesmente “era dinheiro privado” não responde à pergunta. É apenas mais uma maneira de encerrar a conversa antes que a pergunta fique incômoda.

Quando a crença reorganiza os fatos

Fale da Zona Franca e esquecem o voto de Flávio. Fale das relações da família com personagens ligados às milícias e respondem “fake news”. Fale das rachadinhas e será perseguição. Fale dos imóveis da família adquiridos total ou parcialmente com dinheiro vivo e a imprensa estará mentindo. Fale do oxigênio e Bolsonaro não teve culpa. Fale da urna eletrônica e a máquina que elegeu a própria família subitamente não presta. Fale da vacina e aparecerá alguém repetindo aquilo que ouviu do mito. O assunto muda; o mecanismo é sempre o mesmo.

É exatamente aí que Pascal entra neste artigo. O eleitor apaixonado não necessariamente examina os fatos para depois escolher o político. Faz o contrário: primeiro escolhe o político e depois reorganiza os fatos para que eles caibam na escolha. É por isso que “mito” talvez seja uma das palavras mais reveladoras da política brasileira. Político deveria ser funcionário temporário do cidadão, fiscalizado, cobrado e substituído. Mito é diferente: mito precisa ser acreditado, e a família precisa ser protegida.

As razões do coração na política

O pai vira mito. Um filho vira candidato a presidente. O outro, depois de atuar nos Estados Unidos contra interesses brasileiros e ser condenado por isso, continua sendo apresentado como perseguido. E amanhã? Eduardo no Itamaraty? Jair Bolsonaro em algum ministério? Depois de tudo que já vimos, não arrisco dizer que alguma coisa seja impossível. Quem sabe ainda inventem para Jair o Ministério da Saúde; cloroquina certamente não faltaria. Parece piada, mas Manaus já aprendeu, da maneira mais cruel possível, que algumas piadas políticas terminam sem graça nenhuma.

E é assim que fatos que seriam imperdoáveis no adversário tornam-se irrelevantes quando carregam o sobrenome certo. Pascal dizia que “o coração tem razões que a razão desconhece”. Talvez seja isso. Primeiro o coração escolhe o mito; depois a razão passa o resto do tempo procurando uma maneira de absolvê-lo. E, quando nem isso funciona, resta o argumento definitivo: “é fake news!”

Pascal jamais imaginou que as razões do coração chegariam tão longe.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.



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