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Aparecida contará a história de Lindolfo Monteverde

Lindolfo Monteverde, fundador do boi Garantido, será o tema do Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Independente de Aparecida no…

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Aparecida contará a história de Lindolfo Monteverde


Lindolfo Monteverde, fundador do boi Garantido, será o tema do Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Independente de Aparecida no carnaval de 2027. O anúncio foi feito no início do mês.

O enredo é “Uma voz de Negritude ecoa do seio da Floresta. Pela Floresta, pelo Brasil, pelo Mundo. Nos dias, nos anos, nas eras. Mestre Lindolfo Monteverde versando Poesias Eternas”. O enredo promete mostrar o mestre muito além do papel pelo qual é exaltado no Festival de Parintins: o de fundador do Boi Garantido.

Estrutura da festa

Em divulgação nas redes sociais da escola de samba, o carnavalesco da Aparecida, Saulo Borges, chama atenção para o fato de a estrutura das apresentações do boi de arena em atos temáticos, mas descontínuos, não permitir explorar a vida de mestre Lindolfo com profundidade.

Além disso, Lindolfo é exaltado como fundador e sobra pouco espaço para aprofundamento de sua vida e legado. Já a estrutura de um desfile de escola de samba permite que a sua biografia seja detalhada.

O fundador

Lindolfo Monteverde tem seu lugar no céu dos mestres da cultura popular amazônica, sempre exaltado como fundador do boi Garantido. E assim é. Mas, ao acompanhar os primeiros movimentos da construção do enredo que a Mocidade Independente de Aparecida levará para avenida, temos a impressão (e expectativa) de que a escola pretende ir além desse lugar, tão justo quanto insuficiente.

Quilombo

Além de evidente importância cultural, com o reconhecimento do Quilombo da Baixa, mestre Lindolfo ganha ainda uma importância política que deve ser fomentada. Ele amplia seu lugar de fundador de uma das maiores manifestações culturais da Amazônia para alicerce de uma identidade étnica: a de quilombola da Baixa.

Afinal, todo o ecossistema cultural que orbita esse coletivo étnico, do qual o boi Garantido é parte fundamental, integra um sistema de significados que também produz e reafirma esta etnicidade específica.

Instrumento narrativo

Contar o legado de Mestre Lindolfo na avenida do samba é uma oportunidade de recontar sua história em outros termos. Essa é a riqueza da cultura popular: construir e reconstruir mundos pouco ou não contados. Nesse caso, o samba servirá como instrumento narrativo para ampliação da memória pública de Lindolfo.

O BNC Amazonas conversou com Dé Monteverde, neto de Lindolfo, e coordenador do Quilombo da Baixa, que contou como foi o processo de escuta da escola de samba Aparecida para a construção do tema e quais as expectativas da família para o desfile.

Escuta atenta

No ano passado, uma comitiva da Aparecida esteve em Parintins para ouvir alguns membros da família. Segundo contou Dé, Saulo Borges e sua comitiva fizeram uma escuta atenta a memória da família.

Dé e amigos chegaram a preparar uma apresentação destacando como imaginam que a vida de Lindolfo deve ser contada e quais fatos não devem ser esquecidos.

Dona Maria Monteverde, a Tia Maria, também foi ouvida pela comitiva. Entre lembranças, fotografias, histórias de família e relatos transmitidos por gerações, foi sendo desenhado um Lindolfo que escapa à narrativa tradicional.

Em primeiro plano

Para Dé “A ideia é que no enredo apareça primeiro o Lindolfo, depois o Garantido”. Ele reforça que, obviamente, o Garantido é um legado de suma importância para a cultura, mas Lindolfo não é apenas fundador do boi.

Foi pescador, líder comunitário, homem de fé, poeta popular e alguém cuja criatividade encontrou caminhos onde ainda não existiam trilhas.

Um personagem que ajudou a moldar não apenas uma brincadeira, mas formas de convivência, sociabilidade e produção cultural que permanecem vivas e são símbolo para a Amazônia contemporânea.

Memórias de dentro

Ao longo da conversa, surgiram passagens pouco conhecidas do grande público. Falou-se de sua juventude, da relação com os irmãos, do interesse pela literatura de cordel e da experiência como pracinha e corneteiro do Exército. Relembraram-se também suas participações em blocos de carnaval e outras expressões festivas que compunham o universo cultural amazônico de seu tempo. Falou-se dos antigos bois de terreiro, das festas para Santo Antônio, São João e São Pedro.

Luz na passarela

A família Monteverde está decidida e organizada para participar dessa homenagem. Dé conta que Magali Monteverde é quem busca contabilizar os descendentes do mestre. Segundo seu levantamento, os Monteverde são mais de 300 pessoas.

Familiares de Manaus e Parintins já vestem a camisa oficial do enredo e se organizam para participar das atividades promovidas pela escola.

Segundo Dé, um dos pedidos feitos ao carnavalesco Saulo Borges é que exista uma ala especial para a família e amigos próximos no desfile, transformando a homenagem em uma celebração coletiva da memória familiar.

Os mais velhos

Entre os familiares que já despertam expectativa para o desfile estão os únicos filhos de Lindolfo ainda vivos. Segundo Dé, Tia Maria é presença certa em posição de destaque na avenida. E, apesar de o estado de saúde de João Batista Monteverde inspirar cuidados, há a expectativa e o desejo de que sua participação possa ocorrer de alguma forma dentro da homenagem.

Expectativa

A Aparecida parece disposta a apresentar Lindolfo como um homem que contribuiu com sua criatividade, proatividade, fé e poesia para instituição de um ecossistema cultural.

Se conseguir transformar em samba e desfile a riqueza das histórias compartilhadas pela família, a escola poderá oferecer ao público o retrato sensível de alguém cuja vida ajudou a criar possibilidades culturais que são sinônimos de Amazônia. Lindolfo fundou não apenas o Garantido, mas um imaginário.

Lançamento

Nos bastidores, a previsão é que a festa de lançamento oficial do tema ocorra em 15 de outubro, data aguardada pela comunidade verde e branca e, claro, pelos torcedores do boi Garantido. A partir desse lançamento, a escola deverá revelar os caminhos narrativos que conduzirão o desfile e a forma como pretende transformar a história de Lindolfo em espetáculo.

A autora é antropóloga*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.



BNC Amazonas

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