Pular para o conteúdo

André Mendonça e Flávio Bolsonaro: um acordão à vista?

O pronunciamento de Flávio Bolsonaro nesta semana, não torna inevitável uma pergunta? Por que um candidato à Presidência da República,…

6 min de leitura
Compartilhar: WhatsApp X
André Mendonça e Flávio Bolsonaro: um acordão à vista?


O pronunciamento de Flávio Bolsonaro nesta semana, não torna inevitável uma pergunta? Por que um candidato à Presidência da República, envolvido diretamente nas revelações sobre Daniel Vorcaro e o financiamento do filme sobre seu próprio pai, corre imediatamente em defesa justamente do ministro do Supremo Tribunal que relata o caso?

Por que Flávio Bolsonaro chama de “cortina de fumaça” as revelações envolvendo André Mendonça, mas evita explicar satisfatoriamente sua própria relação com Vorcaro? Se não há nada a esclarecer, por que não responder diretamente sobre os valores, os pagamentos e as conversas com o ex-controlador do Banco Master? E por que seria uma “cortina de fumaça” perguntar sobre um encontro que efetivamente aconteceu?

André Mendonça confirmou que recebeu Daniel Vorcaro em março de 2025. A reunião não ocorreu no gabinete oficial do ministro no Supremo. O encontro aconteceu no endereço do Instituto Iter, instituição fundada pelo próprio Mendonça, e foi articulado por intermediários ligados a Vorcaro. Mensagens e áudios apreendidos pela Polícia Federal indicam que a reunião durou aproximadamente duas horas.

Então é legítimo perguntar: o que exatamente foi discutido durante duas horas? Por que a reunião não estava na agenda pública? Por que um banqueiro com interesses bilionários encontrou reservadamente um ministro do Supremo Tribunal Federal fora das instalações da Corte? E por que aparecem, nas mesmas mensagens, referências ao advogado Ciro Rocha Soares dizendo estar “trabalhando” para Vorcaro enquanto acompanhava André Mendonça?

E a história da alfaiataria de luxo em Brasília? Por que o nome do ministro aparece também nesse contexto? André Mendonça confirmou que esteve na alfaiataria, embora negue que tenha sido levado por Ciro ou que terceiros tenham custeado suas despesas. A Polícia Federal investiga o episódio. Então perguntar tornou-se crime?

Há outra pergunta ainda mais incômoda.

Se André Mendonça considera suficientemente relevantes mensagens retiradas do celular de Daniel Vorcaro para permitir que elas produzam consequências contra outras autoridades, por que as mensagens, áudios, transferências e negociações envolvendo Flávio Bolsonaro não deveriam receber exatamente o mesmo rigor?

Onde está a isonomia?

O caso do filme Dark Horse deixou de ser uma história de R$ 61 milhões. Surgiu agora a informação de um aporte adicional de US$ 1,6 milhão feito em setembro de 2025. Com isso, os repasses atribuídos a Vorcaro alcançam US$ 12,3 milhões. E a negociação originalmente atribuída a Flávio Bolsonaro era ainda maior: US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões.

Então as perguntas são elementares: Para onde foi cada dólar? Quem recebeu? Em quais contas? Quais empresas receberam? Quais pessoas físicas receberam? Quanto efetivamente foi aplicado na produção cinematográfica?

Por que o valor pretendido chegava a aproximadamente R$ 134 milhões quando a própria produtora posteriormente declarou custo de aproximadamente R$ 75 milhões para o filme? Por que não abrir toda essa contabilidade? Por que não quebrar, mediante autorização judicial e dentro das regras legais, os sigilos necessários para seguir integralmente o caminho do dinheiro? Por que não confrontar contratos, transferências internacionais, contas bancárias, fundos, empresas e beneficiários? E por que André Mendonça, relator do caso no Supremo, não determina uma investigação capaz de responder definitivamente a essas perguntas?

A questão torna-se politicamente ainda mais grave quando lembramos quem colocou André Mendonça no STF: Jair Bolsonaro. Foi Bolsonaro quem o indicou em julho de 2021 e quem o nomeou ministro em dezembro daquele ano.

E quem promete beneficiar Jair Bolsonaro se chegar à Presidência? Seu filho.

Flávio Bolsonaro declarou durante a campanha que pretende conceder anistia ou indulto relacionado à condenação de seu pai. Jair Bolsonaro não é apenas um adversário político que perdeu uma eleição. Há uma condenação definitiva do Supremo, de 27 anos e três meses, por crimes que incluem tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa armada.

Diante disso, a pergunta política é inevitável: a eleição de Flávio Bolsonaro interessa a André Mendonça? Há alguma expectativa de que uma Presidência de Flávio resulte na libertação do homem que indicou Mendonça ao Supremo?

Existe algum compromisso entre eles?

Não há, até agora, prova pública que permita responder afirmativamente a essas perguntas. Mas exatamente por isso elas precisam ser investigadas, e não silenciadas. Porque há algo profundamente estranho quando o investigado politicamente sai em defesa do relator que pode tomar decisões que o atingem.

Por que Flávio Bolsonaro se preocupa tanto em inocentar André Mendonça? Por que chama as revelações contra Mendonça de “cortina de fumaça”, enquanto exige consequências imediatas contra outros ministros citados nas mensagens do mesmo Daniel Vorcaro? A palavra para isso é seletividade? Ou estamos diante de algo ainda mais grave?

Se não existe acordão, que se demonstre. Que André Mendonça abra integralmente os elementos do caso que possam ser tornados públicos sem prejudicar as investigações. Que se investiguem Moraes, Mendonça, Flávio Bolsonaro, Vorcaro e qualquer outra autoridade que apareça nas provas.

Sem santo. Sem protegido. Sem ministro de estimação. Sem candidato de estimação. E, sobretudo, sem dois pesos e duas medidas. Porque o que o Brasil precisa saber não é quem Daniel Vorcaro preferia, quem frequentava seu círculo ou quem conversava com ele.

O Brasil precisa saber para onde foi o dinheiro, quem recebeu, quem protegeu quem e se existe alguma relação entre decisões judiciais, interesses políticos e o projeto de levar Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto para beneficiar Jair Bolsonaro.

Essa é a investigação que não pode ser substituída por nenhuma “cortina de fumaça”. E, diante de tudo isso, fica uma última pergunta: ministro Edson Fachin, não está na hora de tirar André Mendonça da relatoria do caso banco master?

Fica a pergunta.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.



BNC Amazonas

Últimas notícias