A vergonha pública parece estar desaparecendo da política. Não porque tenham desaparecido os escândalos, as mentiras ou as condutas moralmente condenáveis. Pelo contrário, nunca tivemos tantas denúncias, contradições e comportamentos impróprios em tempo real. O que mudou foi outra coisa: a capacidade desses acontecimentos de produzir constrangimento.
A vergonha é um sentimento profundamente social. Sentimos vergonha porque sabemos que os outros estão olhando e porque reconhecemos a existência de determinadas expectativas sobre o nosso comportamento. Por isso, ela não nasce apenas dentro de cada indivíduo. Depende também dos valores que uma sociedade compartilha e dos limites que estabelece entre aquilo que considera aceitável e aquilo que reprova.
Durante muito tempo, a vida pública também funcionou assim. Um político surpreendido em uma mentira evidente precisava, pelo menos, tentar explicá-la. Uma autoridade envolvida em um escândalo procurava demonstrar que não havia cometido aquilo de que a acusavam. Em situações mais graves, renunciava. Não necessariamente porque os políticos do passado fossem mais virtuosos, mas porque determinadas condutas produziam um custo social.
Esse mecanismo nunca foi perfeito. Tampouco devemos romantizar outras épocas. Corrupção, mentira, autoritarismo e abuso de poder sempre fizeram parte da história política. Entretanto, havia algo importante na necessidade de esconder, negar ou justificar determinadas práticas: quem as cometia reconhecia, ainda que de maneira hipócrita, a existência de uma norma coletiva.
O constrangimento perdeu sua força
Algo mudou quando parte dos agentes públicos descobriu que não precisava mais demonstrar inocência. Bastava atacar quem fazia a acusação.
A mentira documentada passou a receber outra mentira como resposta. A denúncia passou a ser apresentada como perseguição. O jornalista que revela um fato transforma-se no problema. O pesquisador que apresenta dados vira militante. A instituição que investiga passa a integrar uma suposta conspiração. Assim, em vez de responder pelo próprio comportamento, o acusado desloca a discussão para a legitimidade de quem o questiona.
Essa mudança produz consequências profundas. Quando alguém já não teme o constrangimento público, uma das barreiras sociais contra o abuso perde força. Afinal, leis e instituições não constituem os únicos mecanismos capazes de regular comportamentos.
A convivência social também depende da reputação, da confiança, do reconhecimento e da expectativa de aprovação dos outros. Por isso, a vergonha possui uma dimensão política que frequentemente esquecemos.
Uma democracia precisa de cidadãos e dirigentes que reconheçam algum limite para aquilo que podem fazer. Nem todo limite precisa estar escrito no Código Penal. Há comportamentos que uma sociedade rejeita simplesmente porque violam padrões mínimos de decência, responsabilidade e respeito. Entretanto, esses limites começam a desaparecer quando grupos políticos passam a julgar qualquer comportamento exclusivamente pela identidade de quem o pratica.
O erro dos nossos e o erro dos outros
Nesse ambiente, o mesmo ato recebe avaliações completamente diferentes. Quando o adversário mente, temos uma prova de sua falta de caráter. Se alguém do nosso grupo faz o mesmo, encontramos uma justificativa. Diante da agressão do adversário, condenamos a violência; se ela parte de alguém do nosso lado, chamamos de reação. Uma ilegalidade cometida pelo outro exige punição exemplar. Já uma acusação semelhante contra um aliado rapidamente se transforma em perseguição.
A política transforma-se, então, em uma espécie de moralidade tribal. Já não perguntamos se determinado comportamento é correto. Perguntamos quem o praticou.Esse deslocamento ajuda a explicar por que tantos escândalos parecem produzir tão poucas consequências. Para uma parcela do público, a revelação do erro já não provoca indignação. Em alguns casos, provoca exatamente o contrário: reforça a identificação com quem o cometeu.
Surge, então, um fenômeno ainda mais preocupante. Certos comportamentos antes considerados vergonhosos começam a funcionar como demonstração de coragem. A grosseria vira autenticidade. A humilhação do adversário vira firmeza. O desprezo pelo conhecimento vira independência. A incapacidade de reconhecer um erro vira convicção. Não basta, portanto, dizer que perdemos a vergonha. Estamos atribuindo novos significados a comportamentos que antes provocavam vergonha.
A política sem vergonha
As redes sociais aceleraram esse processo porque transformaram a exposição pública em espetáculo permanente. Nelas, admitir um erro pode parecer derrota. Pedir desculpas pode soar como fraqueza. Corrigir uma informação pode significar entregar munição ao adversário. Consequentemente, perseverar no erro muitas vezes oferece mais recompensa do que reconhecê-lo.
Isso cria um paradoxo. Nunca tivemos tantos instrumentos para registrar uma mentira, recuperar uma declaração antiga, comparar versões ou demonstrar uma contradição. Ainda assim, a abundância de provas não garante o constrangimento de quem foi desmentido.
O problema, portanto, pode não estar na falta de informação. Está na erosão de referências comuns que permitem à sociedade dizer: isso não é aceitável. Sem essas referências, cada grupo constrói sua própria régua moral. E, quando cada lado possui sua verdade, seus fatos e até seus critérios particulares de certo e errado, desaparece o terreno comum no qual a responsabilidade pública pode ser cobrada. A democracia sofre porque depende justamente desse terreno compartilhado.
Podemos discordar sobre economia, segurança, religião, costumes ou políticas sociais. Essa divergência faz parte da democracia. Entretanto, precisamos conservar alguns compromissos anteriores à própria disputa: não transformar mentira em argumento, violência em virtude, crueldade em coragem ou ilegalidade em mérito político.
Por isso, o desaparecimento da vergonha pública diga tanto sobre nosso tempo. O problema não é que os escândalos tenham deixado de existir. Eles continuam diante de nós, diariamente, nas telas dos celulares, nos jornais e nas redes sociais.
O inquietante é perceber que começamos a nos acostumar com eles. E uma sociedade precisa se preocupar quando aquilo que deveria causar vergonha passa a causar apenas indiferença. Deve se preocupar ainda mais quando começa a causar orgulho.
O autor é sociólogo*.
Arte: Gilmal.