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A velha política fantasiada de nova

O Amazonas já conhece essa história. Em 2018, Wilson Lima apareceu como a novidade. Apresentador de televisão, sem experiência anterior…

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A velha política fantasiada de nova


O Amazonas já conhece essa história. Em 2018, Wilson Lima apareceu como a novidade. Apresentador de televisão, sem experiência anterior em mandato eletivo, enfrentou políticos tradicionais e foi eleito governador em sua primeira eleição. A palavra da época era renovação. Era preciso derrotar a “velha política”.

Wilson apoiou Jair Bolsonaro naquele segundo turno – embora Bolsonaro tenha permanecido neutro na disputa estadual entre ele e Amazonino Mendes – e, ao longo dos anos seguintes, manteve sua proximidade com o bolsonarismo. A imagem de outsider serviu perfeitamente àquele momento político: alguém que vinha “de fora” para enfrentar o sistema.

Oito anos depois, vale perguntar: onde foi parar a nova política?

Wilson Lima e a promessa de renovação no Amazonas

Talvez o episódio mais emblemático tenha ocorrido durante a pandemia. O Ministério Público Federal denunciou Wilson Lima no caso da compra de 28 respiradores pelo Governo do Amazonas. Os equipamentos foram adquiridos por intermédio de uma empresa que atuava no comércio de vinhos, e a acusação apontou sobrepreço de R$ 496 mil. O Superior Tribunal de Justiça recebeu parte da denúncia e Wilson passou à condição de réu.

Na educação, já perto do fim de seu mandato, outro episódio chamou atenção. Em março de 2026, o Tribunal de Contas do Estado suspendeu cautelarmente um contrato da Seduc no valor de R$ 1,3 bilhão, apontando indícios de irregularidades e ausência de comprovação de que o preço contratado fosse compatível com o mercado.

Na saúde, denúncias, representações perante o Tribunal de Contas e a crise permanente de pagamentos de prestadores e profissionais passaram a fazer parte do cotidiano do Estado. Aquela saúde que Wilson Lima prometera melhorar em 2018 terminou seu governo muito distante da transformação anunciada.

E houve ainda um último ato politicamente revelador.

Pouco antes de deixar o cargo, Wilson Lima realizou evento para anunciar que cumpriria o mandato até o fim, dizendo ter um “acordo com o povo do Amazonas”. Em abril de 2026, renunciou. O vice-governador Tadeu de Souza também renunciou. Com a dupla vacância, o presidente da Assembleia Legislativa, Roberto Cidade, assumiu o governo, posteriormente sendo escolhido governador em eleição indireta.

O novo discurso da renovação

Nada disso se parece muito com ruptura com a velha política. Por que recordar essa história agora? Porque o Brasil está novamente ouvindo o discurso da renovação. Desta vez, o personagem é Flávio Bolsonaro. Mas onde exatamente está a novidade?

Ouvi de um eleitor, depois de votar em Flávio Bolsonaro, uma justificativa curiosa: “Já chega. Lula está há muito tempo na política. Está cansado.”

Pode-se perfeitamente defender a alternância de poder. Pode-se achar que Lula está há tempo demais na vida pública e preferir outro candidato. O problema começa quando o argumento para substituir o “velho” é apresentar Flávio Bolsonaro como “novo”.

Novo onde? Flávio Bolsonaro entrou na política aos 21 anos. Foi deputado estadual por quatro mandatos consecutivos, permanecendo 16 anos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Em 2018, elegeu-se senador. Hoje, aos 45 anos, acumula mais de duas décadas de mandatos eletivos. Praticamente toda a sua vida adulta foi vivida dentro da política profissional.

Portanto, se o critério é tempo de política, é preciso aplicá-lo a todos. Não faz sentido considerar um candidato “velho” porque passou décadas na política e transformar outro, com mais de vinte anos de mandatos, em símbolo da renovação.

A velha política também está nas alianças

E há uma segunda contradição. Flávio não aparece sozinho. É candidato do PL, partido presidido por Valdemar Costa Neto, personagem da política brasileira há décadas. Em 2026, Valdemar voltou inclusive ao centro de uma investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de influência irregular na destinação de R$ 119,2 milhões em emendas parlamentares, acusações que sua defesa contesta.

Essa é a “nova política”?

O mesmo campo político esteve ao lado de Cláudio Castro no Rio de Janeiro, também do PL. Em 2026, o Tribunal Superior Eleitoral manteve a inelegibilidade do então ex-governador por abuso de poder político e econômico, condutas vedadas e captação ilícita de recursos nas eleições de 2022. Castro também foi alvo de busca e apreensão autorizada pelo Supremo em investigação relacionada a aplicações da RioPrevidência em produtos financeiros do Banco Master. Ele nega irregularidades.

É curioso, portanto, o funcionamento dessa ideia de renovação. O adversário envelhece; os aliados nunca envelhecem. Décadas de mandato deixam de contar. Políticos tradicionais tornam-se aceitáveis desde que estejam do lado certo da fotografia.

Flávio Bolsonaro também tem um passado político

E a trajetória pessoal de Flávio também não começou ontem.

Houve o caso das chamadas “rachadinhas” em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio. Flávio foi denunciado pelo Ministério Público; posteriormente, decisões judiciais invalidaram provas relevantes e a denúncia acabou arquivada. Houve questionamentos envolvendo sua loja de chocolates e a compra de uma mansão de aproximadamente R$ 6 milhões em Brasília.

Mais recentemente surgiu Daniel Vorcaro e o Banco Master. Flávio passou a ser investigado em inquérito relacionado ao financiamento de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. Áudios e mensagens revelados em 2026 mostraram negociações de recursos com Vorcaro. Flávio afirma que pediu apenas patrocínio privado para o filme e nega qualquer irregularidade.

Nada disso autoriza antecipar condenações. Investigação não é sentença, denúncia não é condenação e todo acusado tem direito de defesa. Esse princípio vale para Wilson Lima, para Flávio Bolsonaro, para Cláudio Castro, para Valdemar Costa Neto e para qualquer cidadão. Mas direito de defesa não significa obrigação de esquecer.

O eleitor não precisa esquecer o passado

É justamente aí que está a questão. Em 2018, o Amazonas também ouviu que precisava abandonar os políticos de sempre. Wilson Lima era o novo. Era o homem que vinha de fora. Era a renovação. O eleitor acreditou e entregou-lhe o governo.

Oito anos depois, vale olhar para essa experiência antes de comprar novamente uma embalagem conhecida. Porque “nova política” não pode significar simplesmente chamar de velho quem está do outro lado e de novo quem está do nosso lado.

Se Lula deve ser julgado por sua longa trajetória política, que seja. Mas Flávio Bolsonaro também deve ser julgado pelos seus mais de vinte anos de vida política, por seus quatro mandatos de deputado estadual, por seu mandato de senador, por suas alianças e por sua própria história.

O eleitor não precisa de candidatos sem passado. Precisa conhecer o passado dos candidatos. Porque talvez o maior truque da chamada nova política seja exatamente este: fazer o eleitor acreditar que basta trocar o personagem para que a velha política deixe de ser velha.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.



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