Poucos minutos depois daquele breve momento de intensa ternura, Romeu levantou voo e, a duras penas, conseguiu alcançar o beiral do telhado da casa em frente ao nosso apartamento, onde Julieta o aguardava tensa e ansiosa. A empreitada não tinha sido nada confortável. Deu-me a impressão de que as energias que Romeu havia reunido tinham sido suficientes apenas para dar conta daquela temerária travessia, haja vista a sofreguidão e o enorme esforço com que empreendera o voo.
Mas o encontro feliz entre Romeu e Julieta foi só um pedacinho do desfecho da história, antecedida de violência, luta, resistência, paixão, ternura, afagos e, diga-se de passagem, da nossa necessária interveniência. Conto exatamente como foi, porque testemunhei cada lance com meus próprios olhos.
A violência que antecedeu a travessia da paixão
Ouvimos um barulho incomum que vinha da varanda do apartamento. Pela porta de vidro da sala, que dá acesso à área, a cena se mostrou por inteira diante de nosso espanto. Era um pombo sendo atacado com a mais pura violência por uma gaivota que, tomada pela ira, lhe aplicava sucessivas bicadas. Em desvantagem no tamanho e acuado no canto da parede, o pombo tentava em vão se proteger da agressora, resguardando a cabeça sob as asas já fragilizadas, enquanto algumas penas voavam em seu redor. A gaivota, ciente da sua supremacia, parecia mesmo disposta a conduzir sua ação para o extremo da tragédia, o que era denunciado pela virulência do ataque e pelos seus olhos esbugalhados, exalando ódio e focados na vítima indefesa.
Depois de estáticos por alguns segundos diante da brutalidade, minha mulher tomou a iniciativa de abrir a porta que dá para a varanda. O gesto foi suficiente para a gaivota cessar os ataques e bater em retirada para o beiral da varanda do apartamento vizinho, de onde ficou a nos espreitar com seu olhar acovardado transbordando de ódio. Mas o estrago já tinha sido feio.
A vítima, com o corpo em decúbito dorsal e quase inerte estendido no chão frio do canto da varanda, estava em situação de frangalhos. Respirava ofegante com o bico entreaberto e já não conseguia se levantar, pois a perna direita estava coberta de sangue. Seus olhos, tomados pelo pavor, estavam petrificados. Em seu redor, jaziam várias penas espalhadas. O quadro era de evidente tentativa de homicídio, matutei comigo mesmo.
O socorro ao pombo ferido
Decidimos, então, oferecer os primeiros socorros à vítima, não sem antes eu ameaçar de longe a gaivota delinquente com um cabo de vassoura, forçando-a a ganhar rumo ignorado nos céus daquela tardinha de quase fim de primavera. Fosse no tempo de eu menino, pensei com meus botões, não hesitaria em fazer valer a pontaria certeira da minha baladeira, carregada com bolinhas de barro, para dar um bom corretivo na gaivota meliante.
Então, como falei, foram dados os primeiros atendimentos à vítima. Uma vasilha com água foi posta a certa distância, uma vez que o sofrido pombo se mostrava em estado de choque e entrava em pânico diante de qualquer tentativa de aproximação. De igual modo, grãos de arroz foram espalhados ao lado da vasilha com água. A operação de socorro exigiu, pois, a maior prudência. E como, naquelas alturas, a noite já tinha se debruçado sobre a ruazinha onde moramos, achamos por bem desligar a luz da varanda, na esperança de oferecer mais conforto e segurança ao nosso protegido.
Mas, e se depois da tentativa de homicídio a agressora retornasse na calada da noite, para consumar seu instinto assassino? Antes, porém, de propor que nos dividíssemos em turnos, para garantir a segurança da vítima nas próximas horas, corri ao Google. Para nossa tranquilidade, descobri que as gaivotas costumam dormir na água, em lagos, rios ou reservatórios. É a forma que elas encontram para se proteger de predadores, principalmente de raposas. Ficamos, então, seguros de que o pombo estaria livre de perigo durante a noite.
A recuperação e o reencontro inesperado
Pela manhã, minha primeira iniciativa foi verificar o estado de saúde do pombo. Para minha alegria, nosso paciente já tinha saciado a sede e dava conta dos últimos grãos de arroz, embora se movimentasse pulando numa única perna, mantendo a outra imobilizada. Dei um olhar panorâmico na rua e nos telhados da vizinhança e não detectei nenhuma gaivota nas proximidades. Missão realizada com sucesso, pensei eu. Agora era questão de tempo o pombo se recuperar e retornar ao convívio dos seus. Bem a propósito, lembro-me de ter lido em algum lugar que uma das características admiráveis dos pombos é a lealdade à família.
Mas aqui é que entra o lado romântico, fascinante e terno dessa quase tragédia. Alguns minutos depois, para meu espanto e surpresa, o pombinho tinha conseguido subir na mureta que cerca a varanda e, pasmem, estava sendo alimentado na boca por uma pombinha que viera não sei de onde. Deveria ser sua companheira de velhos tempos, porque, depois de receber o alimento, trocaram afagos, roçando um o pescoço do outro, como os pombos costumam fazer.
Em seguida, Julieta voou para a cobertura da casa que fica do outro lado da rua e, de lá, com pulinhos e rodopios, parecia transmitir força e encorajar Romeu. Ele, por sua vez, sem perder Julieta de vista, começou a abrir as asas e a tentar firmar a pata machucada, como quem faz um teste para avaliar sua condição física.
A travessia da paixão: o voo de Romeu e Julieta
Logo depois, reunindo forças que parecia não ter, Romeu lançou-se da mureta e, por questão de segundos, sumiu de meu campo de visão. Com a respiração interrompida, fiquei estático e me vi testemunha de uma iminente tragédia. Aquela cena romântica, então, teria sido uma despedida? Romeu teria cometido suicídio, espatifando-se na calçada do prédio?
Aflito, corri para a janela da sala e fui invadido por mais uma surpresa. Uma grata surpresa. Com um esforço sobrenatural, que só a paixão explica, as asas de Romeu bateram como nunca e ele ergueu-se num voo cheio de vida e pousou exatamente ao lado de Julieta.
Depois de mais uma troca de afagos, com o encontro dos bicos e com um roçando o pescoço no outro, Julieta e Romeu levantaram voo ao mesmo tempo e sumiram por trás das casas e prédios.
O céu estava impressionantemente azul.
O autor é professor, escritor e filólogo.*
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.