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A imprensa e a condescendência com a barbárie

Nas entrevistas e nos debates desta campanha eleitoral, o comportamento de parte da imprensa e a condescendência com a barbárie…

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A imprensa e a condescendência com a barbárie


Nas entrevistas e nos debates desta campanha eleitoral, o comportamento de parte da imprensa e a condescendência com a barbárie formam uma combinação perigosa.

O problema aparece quando jornalistas tratam mentiras comprováveis como simples opiniões. Um candidato distorce um dado, acusa alguém sem provas ou espalha uma fake news e ainda assim, o entrevistador escuta, agradece e passa à pergunta seguinte, como se nada tivesse acontecido. Esse silêncio não expressa neutralidade. Ao contrário, ele concede à mentira o mesmo estatuto da verdade e transforma o espaço jornalístico em palanque para a desinformação.

Certos setores da imprensa corporativa burguesa insistem numa encenação de imparcialidade. Mantêm o tom sereno, evitam o confronto e deixam o candidato concluir sua performance. A forma parece profissional, porém o conteúdo favorece quem mente.

Há, evidentemente, uma diferença entre questionar um candidato e fazer campanha contra ele. O jornalista não deve escolher em quem o público votará. Contudo, também não pode abandonar os fatos em nome de uma falsa neutralidade. O problema começa quando a imprensa trata a verdade e a mentira como versões igualmente legítimas. Nesse momento, ela deixa de informar e passa a confundir o público.

A entrevista não é um comício, e o jornalista não exerce a função de mero operador de microfone. Ele precisa perguntar, confrontar, contextualizar e exigir provas. Por isso, quando um candidato propaga uma mentira, o entrevistador deve interromper e esclarecer. O contraditório não representa falta de educação. Representa responsabilidade profissional.

Mentira não é opinião

Uma opinião interpreta os fatos. Uma mentira altera, esconde ou inventa os fatos. Portanto, o jornalismo não pode oferecer às duas o mesmo tratamento.

Parte da imprensa, no entanto, comporta-se como se qualquer intervenção revelasse preferência política. Com isso, transforma a omissão em método e chama essa omissão de equilíbrio. Esse comportamento favorece justamente os candidatos que usam a mentira como estratégia. Eles sabem que podem lançar uma acusação falsa diante de milhões de pessoas sem enfrentar qualquer contestação imediata.

Além disso, a mentira política não busca apenas enganar. Ela também procura testar os limites das instituições, desgastar a confiança pública e naturalizar ideias autoritárias. O golpismo avança dessa maneira.

Primeiro, um candidato coloca em dúvida o sistema eleitoral sem apresentar provas. Depois, ataca as instituições que contrariam seus interesses. Por fim, apresenta qualquer limite legal como perseguição.

Se o jornalista apenas observa, o público recebe a mensagem sem o devido contexto. Assim, uma ameaça à democracia pode parecer uma opinião controversa, mas aceitável. Não se trata de exigir militância partidária. Trata-se de defender a ordem democrática, o império da lei e o compromisso elementar com a verdade. O jornalista pode perguntar com firmeza sem abandonar a ética. Pode exigir provas sem assumir o lugar do adversário político. Do mesmo modo, pode corrigir uma mentira sem dizer ao eleitor em quem votar.

Jornalismo não é microfone aberto

Quando um candidato apresenta um dado falso, o entrevistador deve confrontá-lo com os números corretos. Diante de uma acusação sem provas, deve perguntar pela fonte. Além disso, caso o candidato ataque direitos garantidos pela Constituição, cabe ao jornalista explicar ao público os limites da proposta. Esse trabalho exige preparo. Porém, exige também coragem. Em muitos casos, a condescendência não nasce apenas da falta de informação. Ela revela interesses políticos, econômicos e de classe.

Parte da imprensa condena a extrema-direita em editoriais, mas normaliza seus métodos na cobertura cotidiana. Critica o golpismo depois dos acontecimentos, embora tenha oferecido espaço para sua propagação sem o necessário contraditório. A contradição salta aos olhos. A imprensa afirma defender a democracia, mas se recusa a enfrentar aqueles que atacam seus fundamentos durante uma entrevista.

Nem toda a imprensa age dessa forma. Muitos jornalistas confrontam mentiras, checam dados e preservam a dignidade da profissão. Ainda assim, o comportamento condescendente de grandes veículos influencia profundamente o debate público.

Considerações finais

A barbárie não avança apenas pela força. Muitas vezes, ela avança pela repetição, pela naturalização e pelo silêncio de quem deveria interrompê-la. Quando a imprensa chama mentira de opinião, autoritarismo de polêmica e golpismo de estratégia eleitoral, ela ajuda a degradar a democracia.

Afinal, a democracia não precisa de jornalistas dóceis diante do poder. Precisa de profissionais preparados, firmes e conscientes de sua responsabilidade histórica. Diante de uma mentira, o contraditório não constitui um excesso, constitui jornalismo.

O autor é sociólogo*.

Arte: Gilmal.



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