A tecnopolítica entra em casa antes mesmo do café. Basta abrir o celular, logo de imediato surge um vídeo que provoca indignação, uma mensagem pede urgência, um influenciador oferece certezas. Assim, entre notícias e notificações, disputas pelo poder atravessam nossa rotina. A tela aproxima o debate público, mas também permite que interesses privados organizem parte daquilo que enxergamos.
A política sempre recorreu aos meios de comunicação. O rádio, o jornal e a televisão ajudaram a construir lideranças e mobilizar multidões. Entretanto, as redes digitais acrescentaram outra dinâmica: agora, o cidadão recebe, comenta, modifica e distribui mensagens. Além disso, deixa rastros que alimentam sistemas de recomendação e estratégias de comunicação.
O psicólogo e pesquisador Javier Toret ajuda a compreender essa transformação. Em seus estudos sobre o movimento espanhol 15M, ele relaciona a tecnopolítica ao uso estratégico das tecnologias para organizar ações coletivas. Nessa perspectiva, as conexões digitais podem ganhar as ruas, articular reivindicações e ampliar a participação. Portanto, o conceito ultrapassa a propaganda eleitoral na Internet.
Esse ponto merece atenção, pois quando moradores organizam uma cobrança por saneamento ou trabalhadores articulam uma mobilização pelo celular, também aproximam tecnologia e ação política. Por isso, reduzir esse universo à manipulação significa ignorar suas possibilidades democráticas.
Entre a mobilização e a dependência
Contudo, ampliar a capacidade de comunicação não resolve todos os desafios da participação. A socióloga turco-americana Zeynep Tufekci explora esse problema em Twitter and Tear Gas, de 2017. Sua análise mostra como movimentos conectados conseguem crescer rapidamente, mas enfrentam dificuldades para sustentar a organização e construir mudanças duradouras.
A partir dessa reflexão, podemos reconhecer um descompasso. Convocar uma manifestação exige capacidades diferentes daquelas necessárias para negociar reivindicações e manter uma organização. Afinal, uma multidão pode compartilhar a indignação sem compartilhar um projeto.
Além disso, boa parte dessas conexões depende de empresas que controlam as plataformas. Elas estabelecem regras, vendem publicidade e organizam a distribuição dos conteúdos. Dessa forma, participam das condições do debate, mesmo quando não aparecem nas mensagens que circulam.
A praça digital, portanto, tem proprietários. Podemos entrar nela para discutir assuntos públicos, mas não decidimos coletivamente todas as regras da conversa. Essa dependência coloca uma questão democrática: quem controla os caminhos pelos quais uma sociedade encontra informações e forma suas opiniões?
Quando a indignação rende
Nesse ambiente, a hostilidade também pode oferecer vantagens de circulação. Em um estudo de 2021, Steve Rathje e seus colegas analisaram publicações de parlamentares e veículos de comunicação dos Estados Unidos. Na amostra, mensagens sobre adversários políticos receberam aproximadamente o dobro de compartilhamentos das mensagens sobre o próprio grupo.
O resultado não explica sozinho a política brasileira. Entretanto, ajuda a formular uma hipótese incômoda: quando o confronto atrai atenção, comunicadores e lideranças encontram incentivos para prolongá-lo. Assim, o ataque pode ocupar o espaço da proposta, enquanto a provocação transforma o debate numa sequência de reações.
Seria um erro, porém, imaginar que os algoritmos comandam pessoas sem história, interesses ou capacidade crítica. As desigualdades, os vínculos religiosos, as experiências de trabalho e as relações comunitárias continuam presentes. A tecnopolítica atravessa esse mundo e modifica suas formas de expressão.
Considerações finais
Por isso, a resposta democrática exige mais que recomendar cuidado antes de compartilhar. Precisamos cobrar transparência das plataformas, fortalecer o jornalismo e ampliar a educação crítica para o uso das tecnologias. Ao mesmo tempo, partidos, sindicatos e movimentos precisam cultivar vínculos que sobrevivam ao próximo assunto viral.
A democracia precisa de tempo para ouvir, comparar e decidir. Já a disputa pela atenção recompensa, muitas vezes, quem consegue interromper esse tempo. Nesse contexto, um dos nossos maiores desafios é recuperar a capacidade de conduzir a conversa, inclusive quando o celular insiste em escolher o assunto.
O autor é sociólogo.*
Arte: Gilmal.