A Zona Franca de Manaus não é uma abstração tributária. É a principal base econômica do Amazonas. Em 2025, o Polo Industrial faturou R$ 227,67 bilhões e sustentou mais de meio milhão de empregos diretos e indiretos.
É emprego, salário, renda, comércio, serviços e arrecadação. E é também universidade. Por isso, qualquer discussão eleitoral no Amazonas deveria começar por uma pergunta: o que cada candidato e seu grupo político fizeram quando tiveram de decidir sobre a Zona Franca?
Em 2022, o governo Jair Bolsonaro reduziu nacionalmente o IPI em até 35%. O problema era elementar. Os incentivos fiscais existem para compensar, entre outras coisas, as desvantagens logísticas e locacionais de produzir em Manaus. Um empresário compara custos: quanto custa fabricar um televisor em Manaus e quanto custa fabricá-lo em São Paulo? Se o imposto diminui no restante do país sem a preservação do diferencial de Manaus, reduz-se a vantagem fiscal de produzir aqui.
A questão foi tão séria que chegou ao Supremo Tribunal Federal, que interveio para preservar o diferencial da Zona Franca. E Flávio Bolsonaro? Era senador da República.
Flávio Bolsonaro votou não
Mas na reforma tributária de 2023 ocorreu algo ainda mais concreto. O texto relatado pelo senador amazonense Eduardo Braga continha mecanismos de proteção à Zona Franca no novo sistema tributário. Em 8 de novembro, na votação nominal do substitutivo da PEC 45, Flávio Bolsonaro votou contra. Foram 53 votos favoráveis e 24 contrários. O nome e o voto estão registrados no Senado Federal. FLÁVIO BOLSONARO VOTOU NÃO!
Na própria discussão da reforma, Flávio chegou a defender que fossem retirados do texto os benefícios adicionais destinados à Zona Franca caso sua proposta relativa ao Rio de Janeiro não fosse aceita.
Agora, candidato à Presidência, veio a Manaus e entrou numa fábrica do Polo Industrial vestindo uma camisa com a inscrição “100% Zona Franca”. O contraste entre o discurso atual e seu registro parlamentar merece ser conhecido pelo eleitor. E não pense que a Zona Franca interessa somente ao operário do Distrito Industrial.
A Universidade do Estado do Amazonas depende diretamente desse modelo. O próprio Plano de Desenvolvimento Institucional da UEA registra que sua fonte de financiamento direto é a Contribuição para o Desenvolvimento do Ensino Superior, proveniente dos incentivos concedidos às indústrias do Polo Industrial de Manaus. Portanto, Zona Franca significa também salário de professores e técnicos, ensino, pesquisa e milhares de estudantes em Manaus e no interior.
BR-319
Há outros elementos nessa comparação. Jair Bolsonaro prometeu avançar na BR-319 e terminou seu mandato sem entregar a ligação Manaus–Porto Velho pavimentada. No atual governo Lula, há obras em andamento. Neste setembro de 2026, o Ministério dos Transportes registra intervenções em 120,5 quilômetros do Trecho do Meio, contrato de R$ 362 milhões, dentro de um conjunto de investimentos previsto em R$ 1,36 bilhão.
Bolsonaro também privatizou a Refinaria de Manaus. Depois da privatização, a unidade atravessou períodos sem refinar e passou a recorrer mais à importação de derivados. Em julho deste ano, a gasolina chegou a R$ 7,29 em postos de Manaus.
E existe uma memória muito mais dolorosa. Na pandemia, Manaus passou de uma média de aproximadamente 30 enterros por dia para mais de cem. O cemitério Nossa Senhora Aparecida precisou adotar trincheiras para sepultar os mortos. Somente em abril e maio de 2020 foram 5.168 sepultamentos e cremações na cidade. Depois veio janeiro de 2021: faltou oxigênio nos hospitais. Tudo isso ocorreu durante um governo cujo presidente havia chamado a covid-19 de “gripezinha” e, questionado sobre as mortes, respondeu que não era “coveiro”.
Compare-se esse histórico com o ciclo político de Lula: gasoduto Urucu–Coari–Manaus, Luz para Todos, Minha Casa Minha Vida, integração de Manaus ao Sistema Interligado Nacional pelo Linhão de Tucuruí e prorrogação dos incentivos constitucionais da Zona Franca até 2073.
Novo é idade, Governo é outra coisa
Há ainda o argumento do “novo”. Lula seria velho; Flávio representaria renovação.
O Amazonas já experimentou uma novidade eleitoral chamada Wilson Lima. Ele governava o estado durante o colapso do oxigênio, tornou-se réu no STJ no processo envolvendo a compra de respiradores – acusações ainda sujeitas a julgamento – e, mais recentemente, sua gestão passou a enfrentar questionamentos relacionados a R$ 50 milhões da Amazonprev aplicados no Banco Master. Wilson apoiou Jair Bolsonaro e declarou apoio a Flávio Bolsonaro em 2026. Novo é idade. Governo é outra coisa.
Mas voltemos ao essencial.
A Zona Franca sustenta fábricas, empregos, salários, comércio, serviços, arrecadação, pesquisa e universidade. É a principal engrenagem econômica do Amazonas. Por isso, o eleitor amazonense tem diante de si registros que podem ser conferidos: os decretos do IPI do governo Jair Bolsonaro, o voto de Flávio Bolsonaro na reforma tributária e, agora, sua declaração de apoio à Zona Franca em plena campanha presidencial.
É diante desses fatos que a pergunta do título deve ser examinada. Porque discutir a Zona Franca não é discutir uma simples renúncia fiscal. É discutir emprego, renda, universidade e desenvolvimento. É discutir o futuro econômico do Amazonas.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
Foto:Geraldo Magela/Agência Senado.