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Todo bolsonarista é um mau-caráter!

Sei que o título incomoda. Foi essa, aliás, a intenção. Afirmar que todo bolsonarista é um mau-caráter provoca uma objeção…

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Todo bolsonarista é um mau-caráter!


Sei que o título incomoda. Foi essa, aliás, a intenção. Afirmar que todo bolsonarista é um mau-caráter provoca uma objeção imediata: como atribuir uma característica moral a milhões de pessoas diferentes entre si? Não seria intelectualmente mais confortável escrever que “alguns” bolsonaristas são assim? Seria, mas não é isso que quero dizer.

Minha afirmação é outra: para continuar sendo bolsonarista depois de tudo o que o bolsonarismo mostrou ser, é necessário aceitar, em maior ou menor grau, comportamentos que considero incompatíveis com uma conduta moral minimamente coerente.

Não estou falando de quem votou em Jair Bolsonaro uma vez. Pessoas votam, arrependem-se, mudam de opinião. Estou falando do bolsonarista como identidade política, daquele que continua pertencendo ao movimento, reproduzindo seus argumentos, justificando seus líderes e aplicando ao mundo a sua peculiar régua moral.

Régua moral

E essa régua tem duas medidas. Uma das características mais evidentes do bolsonarismo é a capacidade de transformar o julgamento moral de um acontecimento conforme o nome de quem está envolvido. Quando a suspeita recai sobre um adversário, o bolsonarista rapidamente a transforma em certeza. Se envolve um aliado, exige-se cautela, contexto, investigação e todas as garantias negadas ao adversário cinco minutos antes.

Nesse contexto, o caso do Banco Master oferece um bom exemplo. É absolutamente legítimo questionar o contrato milionário que o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, firmou com o banco de Daniel Vorcaro. O contrato previa cerca de R$ 131 milhões ao longo de três anos. Mas Flávio Bolsonaro procurou o mesmo Daniel Vorcaro em busca de financiamento privado para um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio confirmou a negociação, embora sustente não haver qualquer irregularidade nela.

Não pretendo equiparar juridicamente situações diferentes. O que interessa é observar a elasticidade moral com que os bolsonaristas julgam cada uma delas. Aquilo que desperta indignação imediata quando o personagem é um desafeto político pode produzir compreensão, silêncio ou justificativas quando o sobrenome é Bolsonaro. Isso tem nome: hipocrisia.

Mentir sem constrangimento

Além disso, há algo ainda mais grave. O bolsonarismo estabeleceu uma relação particular com a verdade. Não se trata simplesmente de acreditar numa informação falsa. Todos estamos sujeitos ao erro. Trata-se de continuar compartilhando a mentira depois que ela foi demonstrada como mentira.

Durante anos, o bolsonarismo espalhou mentiras sobre as urnas eletrônicas e inventou fraudes, manipulações e conspirações. Ainda assim, a Justiça Eleitoral desmentiu repetidamente essas histórias. O Tribunal Superior Eleitoral multou Jair Bolsonaro por veiculação de desinformação na campanha de 2022. Flávio Bolsonaro também recebeu multa pela divulgação de conteúdo inverídico contra adversários.

A fake news bolsonarista não precisa ser verdadeira, precisa apenas ser útil. Se destruir a reputação do adversário, provocar medo ou produzir ódio, cumpriu sua função. Quando desmentida, raramente vem a retratação. No mesmo instante surge outra. O mau-caratismo, portanto, começa quando a fidelidade ao grupo exige submeter os fatos às conveniências políticas.

Essa é uma das heranças mais degradantes do bolsonarismo: transformar a crueldade em demonstração de pertencimento político. Adversários não precisam apenas ser derrotados eleitoralmente. Precisam ser humilhados, desmoralizados e convertidos em inimigos morais.

Nesse âmbito, fotografias fora de contexto viram provas, vídeos cortados se transformam em confissões e frases mutiladas produzem escândalos. Repetida milhares de vezes, a mentira adquire aparência de fato. Pessoas comuns participam voluntariamente desse mecanismo: compartilham, acusam, insultam e difamam. Não se pode atribuir tudo isso à ingenuidade. Em algum momento, ela termina e dá lugar à responsabilidade moral.

Deus acima de todos, mas depende de quem

A religião revela essa contradição em sua forma mais acabada. Não estou falando dos evangélicos como coletividade. Seria injusto e absurdo. Há milhões de evangélicos que rejeitam o bolsonarismo, assim como há bolsonaristas católicos, espíritas, ateus e pertencentes a outras tradições religiosas.

Estou falando do uso político da religião pelo bolsonarismo. Poucos movimentos políticos brasileiros contemporâneos pronunciaram tanto a palavra Deus. Nos discursos de Jair e Flávio Bolsonaro, a associação entre política, Deus e família é recorrente.

A contradição aparece quando valores cristãos são invocados ao mesmo tempo que se toleram a mentira, a difamação e a destruição da reputação dos adversários. “Não levantarás falso testemunho” não traz a ressalva “exceto contra comunistas”. O amor ao próximo também não exige que o próximo vote no mesmo candidato. O problema não é a fé. É transformar Deus em cabo eleitoral e suspender os mandamentos quando eles atrapalham a militância.

Há ainda uma dimensão particularmente repulsiva. Personagens que constroem suas identidades públicas em torno da família, da moralidade e da religião aparecem envolvidos em denúncias e casos de agressão contra mulheres, violência sexual e outros abusos.

Cada caso deve ser apurado individualmente. Acusação não é condenação. O que chama atenção é novamente a reação: a moral implacável diante dos adversários frequentemente se torna cautelosa e compreensiva quando a acusação alcança alguém do próprio campo. É sempre a mesma engrenagem. O princípio moral termina exatamente onde começa a identidade política.

Uma questão de caráter

Então todo bolsonarista é um mau-caráter? Sim! Não estou dizendo que todo bolsonarista rouba, agride mulheres, pratica crimes ou espalha conscientemente as fakes news que recebe. Seria uma estupidez dizer isso. Estou dizendo que alguma concessão moral precisa ser feita para continuar bolsonarista.

Essa concessão pode estar na tolerância com a mentira, na relativização da corrupção, na desinformação, na perseguição aos adversários ou na hipocrisia religiosa. O grau varia, mas o mecanismo é o mesmo: considerar aceitável nos seus aquilo que seria imperdoável nos outros.

Em algum momento, para permanecer dentro dessa identidade política, é preciso negociar com a própria consciência e escolher a quem será aplicada a moral. Uma moral que depende do nome, do partido, da religião ou do afeto político de quem praticou o ato não é moral. É cumplicidade.

Considerações finais

Por isso mantenho cada palavra do título deste texto. Todo bolsonarista é um mau-caráter. Pode sê-lo em graus diferentes e por razões diferentes. Mas, em algum ponto, precisou aceitar como normal aquilo que condenaria se viesse do outro lado.

Não é uma questão de direita ou esquerda. É uma questão de caráter.

O autor é sociólogo.*

Arte: Gilmal.



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