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Sobre cachorros & alguns humanos de meia-tigela

Aconteceu aqui mesmo, bem no final da ruazinha onde a gente mora. Uma mulher de seus quarenta anos ou mais…

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Sobre cachorros & alguns humanos de meia-tigela


Aconteceu aqui mesmo, bem no final da ruazinha onde a gente mora. Uma mulher de seus quarenta anos ou mais segurava firme em uma das pontas de uma corda. Na outra ponta, preso a uma coleira, um cachorro bonito, desses grandalhões bem felpudos que eu não saberia dizer qual a raça, pois sou um completo analfabeto nessas coisas de pets.

Num dado momento, os dois, cachorro e mulher, iniciaram uma verdadeira queda de braço. Ele parecia querer prolongar seu tempo de liberdade e ir em direção a um pequeno corredor de grama que divide a calçada, no centro do qual há um poste da iluminação pública. Não era difícil deduzir as intenções do animal. Ela parecia estar interessada em ir na direção oposta, abreviando a liberdade matinal do cachorro.

Cachorro e mulher não queriam ceder. E, pelo meu olhar observador, não havia iminência de nenhum acordo. O impasse estava estabelecido. Foi quando ela fez sinal para um homem conhecido seu que por ali passava. Logo em seguida, lá estavam os dois, mulher e homem em uma das pontas da corda medindo forças com o cachorro.

Por sua vez, ele, o cachorro, certamente sabedor de que a corda arrebenta sempre do lado do mais fraco, resolveu deitar-se por inteiro na pista, em clara forma de protesto. Seus adversários não se comoveram. Juntaram força à força que já faziam e começaram a arrastar lentamente o animal. Em desvantagem, o coitado começou a girar a cabeça para um lado e outro e a emitir uns grunhidos aflitos, como quem pede socorro.

Não tenho animais em casa, mas tenho horror a quem se dispõe a ter e os maltrata. E esse sentimento me faz, como forma de vingança pessoal, sempre enxergar os papéis trocados quando me deparo com cenas cruéis dessa natureza.

Ontem, por exemplo, um cachorro, desses com focinho achatado e cara de mau, entrou no supermercado onde eu estava. Só então observei que ele tinha deixado o dono na coleira amarrado em um poste e exposto ao sol do meio-dia.

Noutro dia, estava eu respirando um ar no calçadão da orla aqui perto de casa e, para minha surpresa, deparei-me com um cachorro, desses pequenos, orelhudos e felpudos, montado em uma bicicleta feminina e numa razoável velocidade. Ao seu lado, presa a uma corda amarrada no guidão da bicicleta, sua dona era forçada a imprimir a mesma velocidade, sob pena de ser arrastada.

Esse exercício de inversão de papeis me leva a imaginar o que esses humanos de meia-tigela sentiriam na pele se estivessem, de fato, no lugar dos animais que eles sentem o mórbido prazer em maltratar.

O autor é professor, escritor e filólogo.*

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.



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