“Um abismo chama outro abismo ao rugir das tuas cachoeiras; todas as tuas ondas e vagalhões se abateram sobre mim.” A passagem do Salmo 42:7 expressa a aflição de quem se sente submerso pelo sofrimento. Tomo essa imagem como ponto de partida para pensar outro tipo de afundamento: aquele que acontece quando a consciência cede, sucessivamente, às conveniências do poder.
É desse abismo que uma parcela do segmento evangélico brasileiro se aproxima ao subordinar seus princípios religiosos à fidelidade a líderes políticos. Não me refiro ao conjunto dos evangélicos. Há mulheres e homens que vivem sua fé com dignidade, solidariedade e compromisso com a verdade. Refiro-me à transformação da religião em instrumento de poder e à atuação de lideranças que oferecem autoridade espiritual como aval para projetos políticos.
Nessa relação, cada concessão prepara a seguinte. Primeiro, aceita-se a mentira porque ela prejudica o adversário. Depois, tolera-se a crueldade porque ela parte de um aliado. Mais adiante, relativiza-se justamente aquilo que, no púlpito, parecia inegociável. Quando a consciência protesta, a conveniência já dispõe de uma justificativa.
Flávio Bolsonaro: um abismo chamando outro
As denúncias envolvendo Flávio Bolsonaro colocam essa contradição diante de um teste concreto. Segundo reportagem do PlatôBR repercutida pelo UOL, mensagens, fotografias e documentos reunidos por Alexandre Santini, ex-sócio do senador, sugerem a participação de Flávio em festas com garotas de programa.
Na publicação consultada, de 29 de setembro, o UOL informava que havia procurado os envolvidos e não recebera resposta até aquele momento. Trata-se de uma denúncia, que exige esclarecimento, e não de uma conclusão definitiva sobre os fatos. Essa distinção é necessária. Cobrar coerência também exige responsabilidade com a verdade. Entretanto, reconhecer que uma denúncia precisa de apuração não significa conceder imunidade moral ao denunciado.
O problema político aparece quando alguém reivindica autoridade para fiscalizar a vida alheia, apresenta-se como representante dos valores cristãos e transforma a defesa da família em credencial eleitoral. Quem faz dessa bandeira um instrumento de julgamento público precisa aceitar perguntas sobre a própria coerência. Se os episódios relatados se confirmarem, como conciliá-los com a moral conjugal que esse campo político proclama? Que explicação oferecerão as lideranças religiosas que emprestam sua autoridade a essa representação da família?
A fidelidade conjugal ocupa lugar central na moral cristã que essas próprias lideranças defendem. Não pode valer como obrigação para os outros e recomendação facultativa para os aliados.
O perdão e a hipocrisia política
Também não cabe transferir o peso desse debate para as mulheres mencionadas nas reportagens. Elas não são responsáveis pela contradição entre a propaganda de um candidato e sua eventual conduta. O objeto da crítica é a hipocrisia de quem pretende governar sob uma superioridade moral que exige dos demais, mas talvez não pratique.
Certamente aparecerá o argumento de que todos pecam. É verdade que o cristianismo reconhece a falibilidade humana e oferece a possibilidade do perdão. Mas perdão pressupõe o reconhecimento da falta. Não equivale à decisão de negar antecipadamente qualquer erro do protegido.
Além disso, a misericórdia perde seu sentido quando obedece à filiação partidária. Se o adversário recebe condenação e o aliado recebe compreensão automática, o critério deixou de ser religioso. Tornou-se uma conveniência política revestida de linguagem sagrada.
A questão, portanto, ultrapassa a intimidade de um candidato. Diz respeito ao uso público da fé e à credibilidade de quem fala em seu nome. Até onde pode ir uma aliança política antes que seus defensores abandonem os princípios que alegavam justificá-la? Quantas exceções cabem numa convicção antes que ela se transforme em desculpa?
Considerações finais
A meu ver, a degradação mais profunda acontece quando já não se procura saber se uma denúncia é verdadeira. Procura-se apenas descobrir como neutralizar seu efeito sobre o aliado. Nesse estágio, a verdade vira ameaça, a consciência vira incômodo e a religião passa a trabalhar como assessoria de campanha.
Esse é o abismo: colocar a fidelidade ao chefe acima da responsabilidade pelos próprios valores. Uma fé que admite perguntas conserva a possibilidade de examinar seus caminhos. Uma liderança que exige silêncio para proteger seu candidato transforma obediência política em obrigação espiritual.
O salmista descreve ondas e vagalhões que se abatem sobre ele. Na política, porém, há afundamentos construídos por escolhas sucessivas, justificativas convenientes e silêncios calculados. Um abismo chama outro abismo. E nenhuma quantidade de versículos transforma a hipocrisia em virtude.
O autor é sociólogo*.
Arte: Gilmal.