Não se sabe com precisão quando o cacique Raoni Metuktire nasceu. As fontes disponíveis indicam que ele nasceu por volta de 1932, no atual estado de Mato Grosso.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) comemorou os seus 94 anos no dia 20 de agosto.
Raoni é com certeza o maior símbolo da resistência indígena do Brasil, respeitado em todo o mundo.
Tempo
Não é comum que a data do aniversário seja algo importante como o é para a sociedade dos brancos.
O calendário não é o mesmo, a contagem do tempo também não. Comumente se conta a vida pelos ciclos da natureza. Ou se é menino, adulto ou velho. Não se tem como relevante janeiro e fevereiro, mas época de pupunha, de chuva, de desova de peixe, de mel.
O estado
O dia, mês e ano das pessoas indígenas passou a ser algo importante na relação com o Estado brasileiro, para quem o registro de nascimento é a entrada em um universo burocrático que define herdeiros de um patrimônio, alianças de matrimônios.
Essa data é, provavelmente, a data burocrática do aniversário de Raoni, atribuída para que pudesse existir para o Brasil quando com ele passou a se relacionar.
O avô do Brasil
Para os indígenas, o tempo é para viver e não para contar. Raoni é, simbolicamente, o avô do Brasil e dos povos indígenas e, pode-se dizer, da relação entre eles.
Aos 94 anos, Raoni vive uma vida de luta, de conquistas históricas, em todos os que realmente importaram para os povos indígenas no último século, ele estava. O nome de Raoni impõe respeito e legado.
O botoque
Segundo se sabe, Raoni cresceu em uma época em que muitos grupos Kayapó ainda viviam com pouco ou nenhum contato permanente com a sociedade não indígena. Na adolescência, passou pelo ritual de colocação do botoque labial, um importante símbolo cultural dos Mebêngôkre, conhecidos como Kayapó.
O primeiro contato mais duradouro de Raoni com os não indígenas ocorreu em 1954, quando conheceu os irmãos Villas-Bôas, sertanistas que atuavam na proteção dos povos indígenas. Com eles, aprendeu português e passou a atuar como interlocutor entre seu povo e a sociedade brasileira.
Liderança indígena
Ao longo das décadas, Raoni tornou-se uma das principais lideranças do povo Kayapó. Ele participou de diversos processos de pacificação e articulação entre aldeias e foi ganhando reconhecimento pela defesa dos territórios indígenas.
Sua atuação foi fundamental nas mobilizações pela demarcação das terras indígenas da Amazônia, especialmente dos territórios Kayapó, que hoje formam uma das maiores áreas contínuas de floresta preservada do mundo.
Reconhecimento internacional
Em 1978, Raoni foi tema do documentário Raoni, que recebeu indicação ao Oscar e ajudou a divulgar internacionalmente a causa dos povos indígenas brasileiros.
Na década de 1980, ganhou projeção global após conhecer o músico britânico Sting. Juntos, realizaram campanhas internacionais para chamar a atenção para o desmatamento da Amazônia e para as ameaças aos territórios indígenas. Essa mobilização ajudou a arrecadar recursos e ampliar o apoio internacional à causa indígena no Brasil.
Constituinte
Raoni participou das mobilizações indígenas que acompanharam a Assembleia Nacional Constituinte de 1987 e 1988. O movimento contribuiu para que a Constituição Federal de 1988 reconhecesse direitos fundamentais dos povos indígenas sobre suas terras, culturas e formas de organização social, que constam nos artigos 231 e 232.
Proibido
Por muito tempo, o único documento dos despossuídos era a certidão de batismo na igreja católica, a primeira a ser responsável por nomear e catalogar as almas no vale amazônico.
Assim, a Igreja, como braço ou esteio da colônia portuguesa e, posteriormente, do Estado brasileiro, proibia que os indígenas fossem batizados com seus nomes. Teriam que ter nomes cristãos.
Nomeação
A colonização é algo tão subjetivamente potente, que somente em 2012, em todo o Brasil, por força da Resolução Conjunta CNJ/CNMP nº 3/2012, é que os indígenas puderam colocar suas etnias em suas certidões de nascimento. Assim, 512 anos depois os indígenas registrar suas etnias no documento que estabelece sua relação oficial com o Estado brasileiro.
Geração Raoni
Foi quando os povos indígenas começaram a reivindicar seu lugar político que, pressionada, a igreja católica passou a aceitar batismos de nomes dos originários da terra.
Assim, muitos que, como eu, nasceram em meados de 1980, tem a felicidade de possuir nomes indígenas. Como quem recebe o nome repetido do avô, vários meninos receberam o nome de Raoni.
A autora é antropóloga.*
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.