Bastou o governo federal anunciar a recomposição de 15,04% do Bolsa Família para reaparecer o velho fantasma do “rombo fiscal”. O benefício mínimo passará de R$ 600 para R$ 691, corrigindo basicamente a inflação acumulada desde março de 2023. O impacto adicional estimado é de R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22,7 bilhões em 2027.
É legítimo discutir o impacto fiscal de qualquer política pública. O problema começa quando a preocupação com o déficit parece depender de quem recebe o dinheiro.
Bolsa Família é despesa pública, evidentemente. Mas imaginar que R$ 1 transferido representa simplesmente R$ 1 que desapareceu dos cofres públicos é desconhecer o funcionamento elementar de uma economia monetária.
Uma família pobre praticamente não poupa o benefício. Sua propensão a consumir é muito elevada. O dinheiro recebido vai para o supermercado, a mercearia, a padaria, a farmácia, a feira, o gás, a roupa das crianças. A renda de uma família torna-se receita de outra pessoa ou empresa.
A mercearia repõe o estoque. O atacadista vende mais. A indústria recebe novos pedidos. Produção gera renda; renda gera consumo; consumo estimula produção e emprego. É o conhecido efeito multiplicador keynesiano.
Não se trata apenas de teoria. Estudo do Ipea estimou que cada R$ 1 adicional destinado ao Bolsa Família poderia produzir R$ 1,78 de aumento no PIB e R$ 2,40 no consumo das famílias, sob as hipóteses do modelo utilizado. Portanto, não se deve confundir o custo orçamentário bruto de uma transferência com seu efeito líquido sobre a economia.
O Bolsa Família e o efeito multiplicador
E há algo mais: parte daquele dinheiro volta aos governos sob a forma de impostos incidentes sobre o consumo e sobre a atividade econômica. Há ainda uma dimensão histórica que não pode ser escondida. Em junho de 2026, 73,2% das pessoas atendidas pelo Bolsa Família se declaravam pretas ou pardas, 36,66 milhões de brasileiros. Isso não caiu do céu.
O Brasil foi construído durante séculos utilizando trabalho escravizado e aboliu a escravidão sem oferecer aos libertos terra, patrimônio, educação ou qualquer reparação econômica capaz de integrá-los em condições minimamente iguais. A desigualdade racial que encontramos hoje tem raízes nessa história. O Bolsa Família não criou essa desigualdade. Encontrou-a séculos depois. Curiosamente, a indignação fiscal é bem menos barulhenta quando o beneficiário está no andar de cima.
Em 2026, a própria Receita Federal continua classificando como isentos e não tributáveis rendimentos de aplicações como LCI, LCA, CRI e CRA, entre outros instrumentos previstos em lei. Somente a renúncia estimada de IR relacionada a LCI, LCA, CRI, CRA e letras hipotecárias alcança cerca de R$ 38,7 bilhões no PLOA de 2026.
Nada disso significa que incentivos ao investimento ou ao agronegócio sejam necessariamente ruins. O agronegócio é fundamental para o Brasil, gera divisas e sua cadeia respondeu por cerca de 26% das ocupações em 2025. A questão é outra: por que a régua fiscal muda conforme o destinatário?
Capitalismo implica consumo
Quando o Estado abre mão de bilhões para estimular determinados investimentos, fala-se em incentivo, desenvolvimento e crescimento. Quando transfere renda para quem compra arroz, feijão, leite e remédio, aparece imediatamente o “rombo”.
O capitalismo não funciona sem mercado consumidor. Sem renda não há consumo; sem consumo, empresas não vendem; sem vendas, não há razão para ampliar produção e emprego. Pode-se e deve-se discutir eficiência, focalização e responsabilidade fiscal. Mas uma discussão econômica séria precisa contabilizar não apenas quanto o Bolsa Família custa, mas também quanto ele movimenta.
Assim, dinheiro na mão do pobre não desaparece: circula. E, circulando, produz renda, emprego, produção e arrecadação para o Estado.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
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