Caprichoso e Garantido lançaram na tarde do dia 5 de outubro uma ação coordenada de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais.
No primeiro turno, realizado no dia anterior, em 4 de outubro, Lula obteve 78,66% dos votos válidos em Parintins, uma das maiores votações do Amazonas, superando Flávio Bolsonaro que marcou 17,03%.
No segundo turno da eleição passada, em 2022, Lula recebeu 82,56% dos votos em Parintins, contra 17,44% de seu adversário, Jair Bolsonaro, que então ocupava a cadeira de presidente.
Evidentemente, nem todos os brincantes, artistas e torcedores dos dois bois compartilham a mesma preferência eleitoral. Ainda assim, o posicionamento institucional das agremiações revela tendências importantes no campo político e cultural de Parintins.
“O boi escolhe”
A festa dos bois-bumbás de Parintins não gosta de neutralidade, ou se é azul ou se é vermelho. O posicionamento demonstra que “os bois escolhem” para quem torcer. O que demonstra que a neutralidade segue sem espaço quando estão em jogo temas que afetam diretamente a cultura, os povos indígenas e a economia da Amazônia.
Em sua história recente, Parintins tem tido expressivas votações a favor de Lula. As carreatas de apoio ao candidato rendem performance: Garantido explora seu vermelho socialista, e Caprichoso a sua estrela Partido dos Trabalhadores.
Mas a paz no bumbódromo não é apenas estética. É, sobretudo, política. O setor cultural é, historicamente, o que mais perde investimentos em governos conservadores. Entre 2019 e 2022, a transformação do Ministério da Cultura em secretaria simbolizou a perda de centralidade das políticas culturais na estrutura do governo federal. E há um fato simbólico: Lula é, até hoje, o único presidente a ir até o Bumbódromo de Parintins assistir ao espetáculo de Garantido e Caprichoso em 2003.
Olhos nos olhos
O crescimento do protagonismo indígena na Amazônia produziu uma mudança importante na relação entre os bois e os povos originários. Torna-se muito mais difícil para os bois bumbás sustentarem politicamente a temática das cosmologias que os tornam excepcionais. Penas, arcos e flechas, elementos antes utilizados predominantemente como representação estética passaram a ser observados também sob perspectivas políticas e identitárias.
Nesse contexto, tornou-se necessário olhar nos olhos das lideranças indígenas e incorporar em maior profundidade debates sobre território, direitos e reconhecimento cultural.
Dívida histórica
Em 2023, na cerimônia de posse do atual mandato, cacique Raoni Metuktire subiu a rampa do Palácio do Planalto junto a outros representantes de minorias sociais, simbolizando o reconhecimento de uma dívida histórica com os povos indígenas brasileiros. O inédito Ministério dos Povos Indígenas foi criado e os primeiros dois ministros indígenas da história do país foram empossados: Sônia Guajajara e Eloy Terena.
Ao mesmo tempo, o escândalo da fome, da violência, do abandono do povo Yanomami veio à tona. Seguiram-se anos de enfrentamento da emergência humanitária Yanomami, que tornou-se um dos símbolos da nova política indigenista do governo federal. A resposta envolveu ações permanentes de assistência sanitária, segurança alimentar e combate ao garimpo ilegal, colocando a questão indígena no centro da agenda pública.
Boi-bumbá é trabalho
Além disso, o boi-bumbá não é apenas um espetáculo cultural. Trata-se de uma cadeia econômica complexa que movimenta músicos, compositores, figurinistas, soldadores, costureiras, escultores, pintores, técnicos de som, profissionais do turismo, empresas de infraestrutura, entre outros. Quando os investimentos diminuem, milhares de trabalhadores são diretamente afetados.
“O voto é secreto, mas…”
O voto continua sendo secreto. Entretanto, as manifestações públicas dos bois permitem compreender os interesses, expectativas e preocupações que atravessam o universo cultural amazônico.
Mais do que uma simples escolha eleitoral, o posicionamento de Caprichoso e Garantido refletiu uma visão de futuro associada ao financiamento da cultura, à valorização dos povos indígenas e à preservação de uma atividade que sustenta milhares de trabalhadores.
Em Parintins, política e cultura não caminham em estradas separadas. No Festival de Parintins, azul e vermelho disputam o centro da arena. Fora dela, porém, frequentemente marcham na mesma direção quando o assunto é a sobrevivência da cultura amazônica.
O voto pode ser secreto. Mas, em Parintins, as razões que o inspiram estão em plena apoteose, em uma alegoria engenhosa, com fogos, tambores, fumaça e chuva de papel picado.
A autora é antropóloga.*
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