Morram de inveja! Roam as unhas até o sabugo, como gostava de dizer minha Mãe. Mas essa história não vou deixar de contar. Não quero que ela seja levada comigo no apagar da velha chama. Não quero que o mundo fique carente de saber que o marcante acontecimento aconteceu mesmo. De verdade. Preciso mesmo contar, para que fique bem claro: não foi fruto de nenhum delírio. Desses delírios que acometem a gente em certos momentos alucinantes de sonhos e desejos inatingíveis.
Vou contar, sim! Mesmo que vocês se enxerguem massacrados pelas entranhas devoradoras da inveja e do ciúme. Paciência. Enfrentem essa sina de peito aberto. Quer queiram, quer não queiram, quer gostem, quer não gostem, infelizmente – e eu sei disso – o ciúme, o despeito e a inveja fazem parte inalienável do pacote de dissabores da existência humana.
Quando a providência conspira a favor
E tudo se deu de tal modo e num arranjo tão bem harmonioso, que desde aquele dia passei a acreditar que a providência, não importa se divina ou não, tem o extraordinário poder de conspirar em favor da nossa felicidade. Ainda que essa felicidade possa ser efêmera. No meu caso, efêmera no acontecimento em si, porque se deu num átimo de tempo, mas permanente nos desvãos da memória de longo prazo que armazenam as lembranças mais significativas da vida.
Tanto que, depois do dito acontecido, e ainda embriagado pelos efeitos da forte emoção, fiquei a reconstituir na memória cada passo meu e cada passo de Catherine. A perfeita exatidão de cálculo que nos conduziu àquele momento glorioso.
De um lado, eu acenando para um táxi que me levaria ao aeroporto de Guarulhos, em Sampa. De outro, Catherine saindo de um hotel cinco estrelas e o recepcionista lhe abrindo a porta do Mercedes preto, tipo executivo, que a levaria ao mesmo lugar. De um lado, já no terminal internacional do aeroporto, o táxi estaciona, o motorista abre o bagageiro e eu saio arrastando minha mala. De outro, um pouco atrás, sem eu perceber, claro, o motorista do Mercedes dá a volta, abre a porta e Catherine se afasta com passos medidos e elegantes deslizando sua pequena mala Louis Vuitton.
E eu até poderia ficar por aqui páginas e páginas desfiando uma infinidade de pedaços de minha imaginação para ilustrar os pequenos e grandes lances que antecederam o dito acontecido. Mas meu senso de empatia não me perdoaria, afinal o que não quero para mim não quero para os outros, principalmente para os leitores generosos que encontram uma enorme paciência para ler o que eu escrevo. E sei que, se você já chegou até aqui na leitura deste texto, deve estar com a ansiedade represada, num pé e noutro para saber o que de fato sucedeu. Então, vou contar agora de uma vez por todas.
O primeiro voo para Paris
Estava eu, como o leitor está agora, afogado em ansiedade, mas tentando me distrair com as Comédias da vida privada, do Veríssimo. Sentadinho na sala de espera de Guarulhos, aguardava a chamada do meu voo. O voo tantas vezes sonhado, imaginado e agora acalentado. Era maio. Pela primeira vez atravessaria o Atlântico naquela noite e acordaria deslumbrado em plena primavera de Paris!
Foi quando de repente, não mais que de repente, numa suprema coincidência, descuidei-me da presença do Veríssimo e, como quem não quer absolutamente nada, levantei a cabeça e estiquei os olhos na direção da entrada da sala de espera do aeroporto.
Foi quando aconteceu o primeiro lance. Meus olhos pousaram e, em seguida, ficaram taxiando sobre os movimentos elegantes do veludo azul claro que cobria o corpo daquela mulher. Dei-me conta, então, de que outros olhares entraram em acirrada disputa com o meu olhar na direção do mesmo alvo.
É Catherine! Aquela é Catherine!
Foi quando esfreguei as mãos nos olhos, na busca de apurar o foco, e me vi invadido pela mais pura emoção. É Catherine! Aquela é Catherine! – Falei alto, mas só eu escutei, porque naquele momento minha voz se misturou com a voz apressada que saía dos alto-falantes e convidava os passageiros para o embarque do voo.
Mas não foi só isso. A emoção maior ainda me aguardava. Depois dos primeiros passos no corredor da classe executiva, que não me pertencia, a caminho da classe econômica, que seria meu habitat na travessia do Atlântico, lá estavam, já acomodados em sua larga poltrona, o vestido de veludo azul claro, os cabelos loiros curtos e os olhos triunfantes de Catherine. E tudo tão perto de mim!
O sorriso de Catherine Deneuve
E tudo se deu num átimo de tempo. Meus olhos aflitos e embasbacados foram em busca dos olhos de Catherine e me vi imobilizado como uma estátua. Os impacientes passageiros atrás de mim, sem nada entender a razão daquela parada brusca no estreito corredor. Aí, sim, os olhos serenos de Catherine foram ao encontro dos meus e, de repente, foram emoldurados por um meio sorriso que só depois, em visita ao Louvre, eu descobri de perto ser o da Mona Lisa de Da Vinci. A estrela que eu vira tantas vezes nas distantes telas de cinema estava ali, ao vivo e nas mais belas cores, tão pertinho dos meus olhos.
Então, sem conseguir despertar daquele estado de transe, um passageiro me cutucou as costas e pediu para eu dar passagem, pois a fila atrás de mim, rumo à classe econômica, já ia longe. Gente insensível do cacete! – pensei comigo. Dali em diante, fui levado aos empurrões pela turba até ser jogado em minha apertada poltrona, mas sem abrir mão um segundo sequer do meio sorriso de Catherine, que acabou ficando impresso para todo e sempre no rol de minhas mais afetuosas lembranças.
O certo é que o meio sorriso de Catherine Deneuve me fez companhia em todas as horas daquela primeira e inesquecível travessia do Atlântico. E meus cochilos, ao longo de toda a viagem, foram atravessados pela presença enfeitiçadora da Belle de jour.
O autor é professor, escritor e filólogo.*
Foto: Divulgação/imagem gerada pro IA.