Pela definição, o título do presente artigo poderíamos dizer que o laranja é o que oculta o patrimônio alheio e disfarça a origem do dinheiro, o corrupto é a parte passiva do acordo, e vende sua função ou influência, e o corruptor é a parte passiva do suborno, e busca obter benefício ilegal, mas no fundo todos são corruptos.
Tenho acompanhado a ascensão de algumas pessoas. Em certos casos, ela resulta da competência, da dedicação, do empreendedorismo e, por que não dizer, de uma pitada de sorte. Em outros, porém, descobrimos uma razão menos honrosa para o sucesso: essas pessoas atuam como “laranjas”.
Laranja é aquele que “representa” grandes personalidades com poder ou dinheiro, ou ambos, pois quase sempre caminham juntos. Representa um “poderoso” na forma de fazer, guardar, repassar, esquentar dinheiro, seja caixa dois, depósitos ou envios de verbas escusas, comissões, taxas, lavagem de dinheiro, caixinhas especiais para projetos mais especiais ainda, firmas fantasmas com contas bancárias polpudas, empresas em paraísos fiscais e toda necessidade ou invenção que o dono do poder imagine, crie ou descubra com o também poderoso jeitinho brasileiro.
O laranja (parece que é sempre masculino!) é aquela figura sombria, oculta, escorregadia e dissimulada, sem sobrenome ou pedigree, berço ou tradição, que deveria ser apagada, sem nunca aparecer ou se destacar.
O laranja faz o estilo família, ainda que leve uma vida dupla, afetiva ou econômica. Não tem nada a perder, por isso joga alto, sem receio. Mas o que caracteriza o laranja é o forte desejo, oculto e dissimulado, de transitar com muito dinheiro, sempre próximo do poder, porque laranja sempre concorda com o chefe. Até o dia em que descobre que também tem poder e o chefe reluta em pagar a quantia ambicionada. Discute aquele percentual combinado que, de repente, se torna pequeno frente aos riscos enfrentados. Mas nada grave para quem tem esquemas montados para situações de conflito e perigo iminente. Claro que laranja tem derivados e variáveis.
Com tanta tecnologia e facilidades da globalização, tudo é mais internacional e a profissão vai se sofisticando. Dependendo da cidade é confundido com emergente, pois, pouco a pouco, começa a “pôr as manguinhas de fora”, como dizem por aí, e não se contenta mais em não desfrutar daquilo que a conta bancária pode oferecer.
O laranja desempenha tantas funções que nenhuma empresa encontraria profissional semelhante no mercado. É administrador, gestor financeiro, contador, entende de leis como ninguém, conhece tudo e todos e abre qualquer porta. Enfim, possui uma capacidade insuperável de resolver todo e qualquer “probleminha” do patrão.
Mas para existir um laranja é preciso a outra parte. Afinal, o laranja é contratado mesmo que em condições especiais. Sabemos que não existe corrupto sem corruptor. Esse é o lado triste e melancólico do país que arrefece a coragem, o ânimo e a ousadia daqueles que querem realizar, produzir, gerar empregos e contribuir para o desenvolvimento da nação.
O autor é doutor em Administração Pública.*
Foto: Divulgação/Imagem gerada por IA.