Em tempos de promessas feitas ao pé do ouvido, candidato esconde o rosto de quem pede voto, enquanto o eleitor também parece preferir a sombra ao retrato.
A fotografia mostra um lugar distante, desses em que a campanha chega depois de vencer estrada ruim, poeira, lama ou rio. Não há palanque, multidão, bandeiras tremulando nem o barulho dos jingles que transformam candidatos em produtos de feira. Há apenas o deputado, alguns moradores e uma conversa aparentemente comum em período eleitoral.
Mas existe um detalhe desconcertante: os eleitores aparecem de costas.
Não foi descuido do fotógrafo. Também não se trata de uma escolha estética. O enquadramento foi calculado para que ninguém fosse reconhecido.
Perguntei ao deputado por quê.
Ele respondeu que prefere preservar a identidade de seus eleitores. Quando os adversários descobrem que esteve em determinada comunidade, explicou, procuram as mesmas pessoas e apresentam propostas melhores. Para não perder o apoio conquistado, publica a visita, mas esconde quem recebeu sua palavra.
A resposta revela mais do que talvez o candidato pretendesse contar.
A imagem do apoio
Durante muito tempo, a fotografia eleitoral serviu como certificado público de adesão. O eleitor apertava a mão do político, sorria diante da câmera, levantava o polegar e aceitava emprestar o rosto à campanha. A imagem dizia: “Estou com ele”.
Agora, ao menos nessa cena, a declaração foi substituída pelo silêncio das costas.
O político quer provar que esteve no lugar, mas não pode mostrar com quem conversou. Precisa exibir presença sem revelar apoio. Publica a conquista, mas guarda o conquistado. Assim, age como quem encontrou uma mina preciosa e apaga as pegadas para que ninguém descubra o caminho.
O eleitor, por sua vez, também parece confortável no anonimato. Não necessariamente porque tenha medo do deputado. Talvez porque igualmente não queira ser visto ao lado dele. Pode estar preservando a liberdade de ouvir o próximo candidato, receber outra promessa e comparar as ofertas que chegam durante a campanha.
Na política de antigamente, o voto era tratado como demonstração de fidelidade. Na política retratada por essa fotografia, pode ter se transformado em negociação reservada.
O próprio deputado reconhece que, neste ano, o eleitor atribui menos valor aos discursos públicos e muito mais às conversas particulares, se é que o leitor me entende.
E o leitor entende.
Duas campanhas
A campanha oficial acontece diante das câmeras. Fala de saúde, educação, segurança, emprego e desenvolvimento. A outra campanha, porém, pode ocorrer longe dos olhos do público, em conversas discretas nas quais cada interessado procura descobrir o que receberá em troca de sua escolha.
Não significa que todo encontro reservado esconda alguma irregularidade. Ainda assim, o problema é a naturalidade com que o apoio político passa a ser tratado como mercadoria vulnerável à concorrência. Se um adversário pode chegar depois e fazer uma proposta “melhor”, já não estamos falando apenas da capacidade de convencer. Estamos diante de um mercado em que o voto corre o risco de ficar com quem oferecer mais.
O eleitor de costas é o retrato perfeito desse comércio de sombras.
Ele não mostra o rosto porque talvez ainda não tenha fechado questão. Ou porque já fechou, mas deseja deixar uma porta aberta. Pode ter prometido apoio ao primeiro candidato, enquanto espera ouvir o segundo e reserva um sorriso para o terceiro.
O voto escondido
O deputado também não revela o eleitor porque sabe que a palavra recebida pode não durar até a urna. Seu cuidado denuncia insegurança. Quem confia na consciência do cidadão não precisa escondê-lo dos concorrentes. Quem teme uma proposta superior talvez saiba que o compromisso firmado não nasceu de uma convicção.
Os dois, candidato e eleitor, parecem participar de um jogo no qual ninguém deseja mostrar completamente as cartas.
Um precisa da fotografia para provar que trabalha. O outro aceita estar nela desde que não seja identificado. O político protege o voto que acredita ter conquistado. O eleitor protege a possibilidade de negociá-lo novamente.
A cena poderia ser engraçada, não fosse tão reveladora.
De costas para todos
Em uma democracia, ninguém é obrigado a declarar publicamente em quem pretende votar. O voto é secreto exatamente para assegurar a liberdade de escolha. Mas há diferença entre preservar uma decisão íntima e ocultar uma relação que não suporta a luz.
Quando o candidato aparece de frente e o eleitor fica de costas, a fotografia deixa de registrar um encontro. Passa a documentar uma suspeita.
Talvez seja essa a imagem mais sincera da campanha: o político procurando confiança onde há cálculo; o eleitor oferecendo esperança onde existe dúvida; e a câmera registrando uma aliança que ninguém quer assumir inteiramente.
No dia da eleição, porém, não haverá fotógrafo, postagem nem adversário observando. Diante da urna, o eleitor finalmente estará sozinho.
E continuará de costas para todos. Inclusive para o candidato.
O autor é jornalista e filósofo*
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.