O cajueiro mais jovem do Sítio Tia Dinoca resolveu estrear em grande estilo. Na primeira grande safra, encheu os galhos de cajus vermelhos, desses que já parecem pedir a mão de quem passa. A floração anunciava a fartura. Depois vieram os frutinhos. O Vagner, desconfiado da abundância, instalou escoras sob a copa.
Não foi suficiente. Dois galhos se partiram. Outros vergaram tanto que tocaram a terra. Agora, a própria relva ajuda a sustentar a produção que a árvore ainda não aprendeu a carregar.
Olho para ela e vejo mais do que uma árvore curvada pelo peso. Vejo um jovem que se lançou inteiro à primeira experiência. Deu fruto como se já conhecesse a medida de sua força, mas ainda não sabia que cada caju também pesaria sobre os galhos. A vitalidade falou mais alto que o cálculo.
Esse cajueiro nem estava destinado a esse lugar. Era uma plantinha que foi ficando. Há cerca de dois anos, precisávamos retirar outra árvore para abrir espaço à grama, e ele se mostrou pronto para ocupar a clareira. Por um tempo, quase não crescia: a sombra de uma tangerineira, plantada a uns três metros, cobria boa parte de seu espaço. Então a tangerineira adoeceu, atingida por fungos, e morreu. O cajueiro recebeu a luz que lhe faltava e se tornou a árvore mais viçosa diante da casa.
Retirá-lo teria sido, para mim, contrariar uma espécie de graça. Seria uma graça da natureza e da própria árvore, que parecia dizer, à sua maneira, que queria viver ali. E viveu. Cresceu, floresceu e, agora, produziu muito além do que seus galhos podiam sustentar.
Cartesianismo e positivismo: razão e método
O filósofo Descartes talvez nos convidasse a desconfiar da primeira impressão e a medir, com cuidado, as causas e os efeitos: a árvore cresceu, floresceu, frutificou; o peso aumentou; os galhos cederam. O empirismo, por sua vez, lembraria que há conhecimentos que só chegam pela experiência. O cajueiro não nasceu sabendo quanto fruto podia carregar. Agora, descobriu. Se me permitem a arrogância de emprestar à árvore uma lição humana, no próprio corpo, pelo peso e pela quebra.
A natureza não precisa pensar como nós para aprender com o que acontece. Meu amigo filósofo Wilson Nogueira costuma olhar para as árvores, quando vem ao sítio, e diz que elas sabem muito mais, são muito mais inteligentes que os humanos. “Se cortar o braço de alguém, a pessoa não consegue fazer nascer outro. Mas, se cortar uma árvore e deixar só o tronco, ela tem inteligência para refazer o tronco, os galhos e nascer com muito mais vigor que antes”, repete.
Em cada estação, a vida responde às condições que encontra. E talvez, nas próximas floradas, este cajueiro encontre outra medida: menos frutos, ou mais frutos com galhos mais fortes, uma copa capaz de equilibrar melhor a generosidade e a sustentação.
Por enquanto, seus ramos seguem baixos, quase em reverência à terra. Os cajus estão vermelhos e prontos para a colheita. A árvore, apesar dos galhos partidos, permanece de pé. Não parece derrotada. Parece apenas jovem, e tomada por uma vontade imensa de viver.
O autor é jornalista e filósofo*.
Foto: Neuton Corrêa