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Nina partiu, mas nos deixou um apelo

Quando Nina me procurava com o olhar baixo, o corpo encolhido, as pernas e os braços tensos, eu tentava acalmá-la:…

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Nina partiu, mas nos deixou um apelo


Quando Nina me procurava com o olhar baixo, o corpo encolhido, as pernas e os braços tensos, eu tentava acalmá-la:

– Oh, Nina, eu também não sei que prazer eles têm em explodir coisas lá no alto.

Depois perguntava, como quem queria que ela entendesse a injustiça daquele barulho:

– Se gostam tanto de estrondo, por que não explodem essas bombas perto dos próprios ouvidos?

Era sempre um sofrimento. Um desespero que chegava nos dias de festa, sobretudo no Natal e no Ano-Novo. A alegria dos vizinhos se transformava em medo para Nina. Mas nem sempre foi assim.

O pavor dos fogos, e, depois, de qualquer estrondo, até dos trovões, começou quando ela ainda era muito novinha: esperta, agitada, cheia de vida. Nina não se acostumava a ficar em um só lugar, mesmo quando tinha conforto e cuidado. Gostava de circular, de descobrir o mundo para além do portão.

Às vezes, sem aviso, pulava a grade de casa. Primeiro, era um portãozinho. Depois, dobrei a altura da grade. Nina pulou também, com uma facilidade incrível. Tufão e Rassan, seus companheiros, apenas a observavam, como se perguntassem: “Que coisa é essa, Nina?”

A vontade de passear quase lhe custou a vida.

Eu tirava o carro da garagem e, como sempre fazia, deixei os três pets no espaço deles. Naquele dia, porém, Nina pulou o portãozinho e escapou pelo portão grande, em direção à avenida das Torres. Saí correndo atrás dela. Quanto mais eu tentava me aproximar, mais ela acelerava o passo.

Outras pessoas também tentaram contê-la, mas Nina estava decidida a atravessar a avenida. E atravessou. Uma carreta comprida se aproximava. Ela percebeu o perigo e correu, mas acabou atingida por uma moto que tentou desviar dela. Não houve jeito.

Nina caiu desacordada. Corri, tomei-a nos braços e a levei para uma clínica veterinária. Vieram três cirurgias e, depois, anos de fisioterapia. Aos poucos, ela se recuperou. Voltou à vida de antes. E voltou até a pular o portão de casa.

Parecia que estava tudo bem.

Até que, num Natal, dois garotos atiraram uma bomba catolé para dentro do quintal onde Nina vivia com Tufão e Rassan. A partir daquele dia, ela nunca mais foi a mesma. O estampido ficou dentro dela. Os fogos, os trovões, qualquer barulho forte passaram a trazer de volta o medo.

Eu via naquele olhar assustado um pedido que ela não podia fazer em palavras. Talvez dissesse: “Façam eles parar com essa leseira”.

O medo de Nina também me ensinou a olhar para os fogos de outro jeito. Para alguns, a pirotecnia anuncia alegria. Para ela, e para tantas pessoas, entre elas muitas autistas, era sofrimento, susto, agressão. O que para uns dura um instante pode se transformar em horas de angústia para outros.

Às 16 desta sexta-feira, dia 25, a Nina nos deixou, aos 14 anos idade. Levou consigo o jeito brincalhão, a vontade de explorar e a lembrança de sua chegada em casa: peludinha, caramelo, mestiçada com poodle, pronta para encher tudo de vida.

Fica a saudade. Fica também o apelo que seu olhar parecia repetir: que a alegria de uns não seja o tormento de tantos.

Agora, Nina, é hora de descansar.

Descanse em paz, na paz dos pets.



BNC Amazonas

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