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Moisés Selerges e a volta do trabalhador à política

Há uma fotografia que diz muito sobre a candidatura de Moisés Selerges a deputado federal por São Paulo. Em setembro,…

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Moisés Selerges e a volta do trabalhador à política


Há uma fotografia que diz muito sobre a candidatura de Moisés Selerges a deputado federal por São Paulo. Em setembro, já em campanha, ele voltou à porta da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo, onde começou a trabalhar em 1985. Quarenta anos antes, entrara ali como um jovem pintor de chassis de caminhões. Agora retornava como candidato ao Congresso Nacional.

A imagem tem alguma poesia, mas sobretudo significado político. Afinal, o Brasil é um país de trabalhadores, mas essa composição social está longe de se reproduzir de maneira equilibrada nos espaços de poder.

No Congresso Nacional, interesses empresariais, financeiros, rurais e de diferentes corporações possuem representação organizada e capacidade permanente de pressão. Os trabalhadores também estão representados, evidentemente, mas não com a mesma força organizada de outros segmentos.

É nesse ponto que a candidatura de Selerges ganha interesse.. Sua trajetória começa no chão de fábrica. Entrou na Mercedes-Benz em 1985 e, quatro anos depois, foi eleito para a Comissão de Fábrica. Depois, vieram décadas de militância sindical até chegar à presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, uma das organizações mais importantes da história do movimento sindical brasileiro.

Não é pouca coisa. Isso não significa, porém, que a origem sindical, por si só, credencie alguém para exercer um mandato parlamentar. O que importa é aquilo que uma trajetória permite acumular: experiência de negociação, conhecimento das relações de trabalho, convivência com conflitos e capacidade de construir soluções coletivas.

Uma bancada para um mundo do trabalho que mudou

Selerges chega à disputa eleitoral carregando esse repertório. Nesse sentido, sua principal bandeira é a criação de uma Bancada dos Trabalhadores e Trabalhadoras no Congresso Nacional. A proposta pretende reunir representantes de diferentes categorias e partidos em torno de temas ligados ao mundo do trabalho.

E esse mundo, porém, já não é aquele das grandes fábricas que moldaram o sindicalismo brasileiro no século XX. Hoje, ao lado do metalúrgico, estão o motorista e o entregador de aplicativo, o trabalhador terceirizado, o pequeno empreendedor, o profissional transformado em pessoa jurídica e milhões de brasileiros submetidos a formas de contratação que frequentemente escapam aos mecanismos tradicionais de proteção social.

Moisés Selerges percebe essa transformação. Por isso, suas propostas incluem o fim da escala 6×1 e a redução da jornada sem redução salarial, a regulamentação do trabalho por aplicativos com proteção social e previdenciária, a isenção do Imposto de Renda sobre a Participação nos Lucros e Resultados e políticas de apoio aos pequenos empreendedores.

Há também uma preocupação importante com a reindustrialização brasileira. E aqui talvez apareça uma das questões centrais para quem vem do sindicalismo industrial: não existe emprego de qualidade em escala sem discutir desenvolvimento, tecnologia, produtividade e capacidade produtiva nacional. É uma agenda que procura aproximar o velho chão de fábrica das novas formas de trabalho.

Do ABC ao Congresso Nacional

Lula declarou apoio à criação da Bancada dos Trabalhadores e também tornou público seu apoio a Selerges. Há uma evidente força simbólica nessa relação. Ambos vieram do mesmo universo político e sindical do ABC paulista, embora pertençam a gerações diferentes.

Mas há algo ainda mais interessante nessa história. Décadas atrás, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC ajudou a levar um operário à Presidência da República. Agora, outro metalúrgico formado naquele mesmo ambiente tenta fazer um percurso mais curto geograficamente, mas igualmente carregado de significado político: sair do chão de fábrica para ocupar uma cadeira no Congresso Nacional.

Não resolverá, sozinho, o problema da representação dos trabalhadores na política brasileira. Nenhum parlamentar faria isso. Mas sua candidatura recoloca uma pergunta que talvez nunca devesse ter saído do centro do debate democrático: quem representa, nos lugares onde as leis são feitas, aqueles que vivem do próprio trabalho?

O autor é sociólogo*.

Foto: Divulgação/Instagram de Moisés Selerges.



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