No próximo dia 4 de outubro, no primeiro turno da eleição presidencial, votarei em Luiz Inácio Lula da Silva.
Não sou filiado ao PT. Não sou petista. Não sou lulista. Minha formação política e minha linha ideológica são outras. Tampouco considero o governo Lula um governo sem erros. Tem erros, contradições e decisões das quais discordo. Isso faz parte da democracia. Meu voto não exige adesão incondicional a um partido, a um governo ou a um homem.
Voto em Lula, antes de tudo, por uma razão muito simples: inclusão social.
Voto pelo Luz para Todos. Criado em 2003, o programa já levou energia elétrica a cerca de 17,9 milhões de brasileiros. E, para nós que vivemos na Amazônia, isso tem significado ainda mais concreto. Somente desde 2023, 12,8 mil famílias foram atendidas no Amazonas, e novos investimentos foram anunciados para ampliar o atendimento em áreas rurais e remotas.
Na Amazônia, energia elétrica não é apenas uma estatística. É escola funcionando, conservação de alimentos e medicamentos, comunicação, atendimento de saúde, atividade econômica e dignidade. Quem olha apenas os números talvez não perceba a transformação que uma lâmpada acesa pode produzir na vida de uma família que passou décadas no escuro.
Voto pelo Minha Casa, Minha Vida. Porque considero que moradia não pode ser tratada apenas como mercadoria disponível a quem pode pagar. Desde sua retomada, o programa voltou a contratar milhões de unidades habitacionais no país. Aqui mesmo, em Manaus, 576 moradias foram entregues em maio deste ano pelo programa. E, no Amazonas, somente em 2025 foram contratadas outras 603 moradias rurais em 13 municípios.
Ter uma casa não é apenas possuir quatro paredes e um teto. É segurança, endereço, patrimônio e possibilidade de construir uma vida com alguma estabilidade.
Bolsa Família e circulação de renda
Voto pelo Bolsa Família. Em setembro de 2026, o programa chegou a 19,29 milhões de famílias brasileiras. Não vejo transferência de renda aos mais pobres como esmola. Vejo como política pública destinada a garantir um mínimo de segurança material a quem se encontra na parte mais frágil da estrutura econômica brasileira.
Mas o Bolsa Família não termina na família que recebe o benefício. O dinheiro volta imediatamente à economia. Ele chega à mercearia do bairro, à feira, à farmácia, à padaria, ao mercadinho, ao pequeno comércio e aos prestadores de serviços. Nos pequenos municípios e nas periferias das grandes cidades, essa renda ajuda a sustentar o consumo e a movimentar atividades econômicas das quais dependem milhares de pequenos negócios.
Existe, portanto, também uma dimensão econômica nessa política social. Quando uma família de baixa renda recebe recursos, sua propensão ao consumo é elevada porque existem necessidades básicas ainda por atender. Esse dinheiro circula, transforma-se em vendas para o pequeno comerciante, encomendas para fornecedores, renda para trabalhadores e arrecadação para o próprio poder público.
E aqui existe um aspecto que muitas vezes é esquecido: não se trata simplesmente de dinheiro que sai do Estado e desaparece. Estamos diante de um fluxo econômico. Parte do recurso transferido retorna ao próprio Estado na forma de tributos gerados pelo consumo, pela produção e pela circulação de bens e serviços. O benefício recebido por uma família transforma-se em compra; a compra transforma-se em faturamento; o faturamento movimenta fornecedores, trabalhadores e empresas; e essa atividade também produz arrecadação tributária.
O efeito multiplicador do benefício
O efeito multiplicador ajuda a explicar esse processo. Estudo publicado pelo Ipea, de Marcelo Neri, Fabio Vaz e Pedro de Souza, estimou que cada R$ 1 adicional destinado ao Bolsa Família poderia produzir, nas condições consideradas pelo modelo, um efeito de R$ 1,78 sobre o PIB e de R$ 2,40 sobre o consumo das famílias. Ou seja, uma política concebida para combater a pobreza também pode funcionar, no curto prazo, como estímulo à atividade econômica.
Por isso, reduzir o Bolsa Família à ideia de “dar dinheiro” aos pobres é não compreender seu funcionamento econômico. Ele combate a pobreza na ponta em que o benefício é recebido, movimenta a economia do bairro e do município, ajuda a sustentar pequenos negócios, contribui para a renda e o emprego e ainda gera um fluxo que parcialmente retorna ao poder público por meio da arrecadação.
Voto também pela mudança no Imposto de Renda. Desde janeiro deste ano, quem recebe rendimentos tributáveis de até R$ 5 mil mensais passou a ter redução que zera o imposto devido, enquanto existe redução decrescente para rendimentos entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350. É uma escolha distributiva: aliviar proporcionalmente quem está na base e no meio da pirâmide de renda.
Educação como instrumento de inclusão
E voto pela educação como instrumento de inclusão.
O ProUni abriu as portas do ensino superior privado para estudantes que dificilmente chegariam à universidade apenas com os recursos de suas famílias. A expansão dos institutos federais ampliou a educação profissional e tecnológica. O Pé-de-Meia passou a oferecer incentivo financeiro para ajudar estudantes de baixa renda a permanecerem no ensino médio. São políticas diferentes, de épocas diferentes, mas unidas por uma mesma concepção: a origem social de uma pessoa não deveria determinar até onde ela poderá estudar.
Para mim, isso é desenvolvimento. Universidade, ensino técnico, ciência e tecnologia não podem ser privilégios de quem nasceu em família com renda suficiente para financiá-los.
Há uma ideia que resume essa parte do meu voto: o pobre precisa estar no orçamento e, principalmente, na execução financeira desse orçamento.
A Zona Franca de Manaus
Mas há uma razão particularmente importante para quem vive no Amazonas: a Zona Franca de Manaus.
Na reforma tributária, o governo Lula atuou pela preservação dos diferenciais competitivos da Zona Franca de Manaus no novo sistema tributário. Isso não é uma questão menor nem uma concessão regional. Estamos falando da principal base econômica do Amazonas, de um Polo Industrial que sustenta mais de 130 mil empregos diretos e uma cadeia que, considerados os empregos indiretos e induzidos, alcança centenas de milhares de trabalhadores.
A Zona Franca ajuda a sustentar a arrecadação estadual, o comércio, os serviços, a Universidade do Estado do Amazonas e uma parcela importante da própria estrutura econômica amazonense. Enfraquecê-la sem apresentar alternativa seria produzir consequências sociais que ultrapassariam os limites do Distrito Industrial e chegariam a centenas de milhares de famílias.
Houve resistência política, inclusive votos contrários a dispositivos destinados a preservar as vantagens do modelo durante a tramitação da reforma. Não preciso transformar este artigo em discussão sobre nomes. O que importa para explicar meu voto é registrar de que lado ficou o governo Lula nessa questão: do lado da preservação dos diferenciais competitivos da Zona Franca.
Isso não significa que eu considere o modelo perfeito.
Uma nova etapa para o modelo
Tenho ressalvas e as tenho manifestado há muito tempo. A Zona Franca precisa entrar em uma nova etapa. Precisamos adensar nossas cadeias produtivas, aperfeiçoar os Processos Produtivos Básicos, produzir mais conhecimento e tecnologia no Amazonas e agregar aqui uma parcela maior do valor dos produtos que fabricamos.
E precisamos fazer algo ainda mais difícil: levar desenvolvimento para além de Manaus.
O interior do Amazonas não pode assistir de longe aos benefícios de um modelo concentrado fundamentalmente na capital. A biodiversidade amazônica oferece possibilidades extraordinárias nas áreas de bioeconomia, fármacos, alimentos, cosméticos, biotecnologia e pesquisa científica. O desafio é transformar potencial natural em conhecimento, inovação, emprego e renda para quem vive na região — preservando a floresta porque ela passa a valer mais em pé do que destruída.
Defender a Zona Franca, portanto, não significa defender sua imobilidade. Significa preservar o que funciona e construir sua próxima geração.
O lugar do Brasil no mundo
Mas meu voto também se explica pela posição que acredito que o Brasil deva ocupar no mundo.
Quero um país soberano, que dialogue com Estados Unidos, China, União Europeia, Rússia, Índia, África, América Latina e quem mais estiver disposto a negociar conosco, mas sem aceitar relações de tutela. Não quero o Brasil no quintal de nenhuma potência.
Defendo uma política externa multilateral. Isso significa ampliar mercados, negociar com diferentes blocos, fortalecer relações Sul-Sul e preservar simultaneamente relações econômicas com nossos parceiros tradicionais. Significa negociar segundo os interesses brasileiros, e não segundo a conveniência geopolítica de Washington, Pequim, Moscou ou qualquer outra capital.
O mesmo raciocínio vale para o sistema monetário internacional. Não defendo simplesmente substituir o dólar por outra moeda dominante. Defendo diversificação. Se uma operação comercial puder ser liquidada de maneira mais eficiente em reais, yuan, euros ou outras moedas, por que obrigatoriamente fazê-la passar pelo dólar? Dependência excessiva de uma única moeda também representa concentração de risco e de poder.
Por isso vejo positivamente o fortalecimento do BRICS e a procura de mecanismos de comércio em moedas locais. Não se trata de ser contra os Estados Unidos. Trata-se de ser a favor dos interesses do Brasil.
Conflitos internacionais e soberania
Também pesa no meu voto a postura brasileira diante dos conflitos internacionais. Quero um Brasil que defenda o direito internacional, a solução negociada dos conflitos, a proteção das populações civis e o direito dos povos à existência e à soberania. Não quero que nossa política externa seja determinada automaticamente pela posição de Donald Trump, Benjamin Netanyahu ou de qualquer outro governante estrangeiro.
Minha posição em relação à Palestina é conhecida: considero intolerável o sofrimento imposto à população civil de Gaza. Da mesma maneira, rejeito a ideia de que guerras e intervenções militares devam ser naturalizadas como instrumento ordinário para reorganizar países ou impor interesses geopolíticos.
Uma escolha política consciente
É esse conjunto que orienta minha decisão. Não voto em Lula porque o considere infalível. Não voto porque tenha abandonado minhas convicções políticas para aderir ao PT. Continuarei criticando aquilo que considerar errado, seja qual for o governo.
Voto porque, entre as questões que considero fundamentais, atribuo peso especial à inclusão social, à educação, à redução das desigualdades, à defesa e ao aperfeiçoamento da Zona Franca de Manaus, à presença do pobre no orçamento público, à soberania nacional e a uma política externa multilateral.
Meu voto não é um cheque em branco. É uma escolha política consciente, feita por alguém que preserva sua independência para concordar quando entender que deve concordar e criticar quando entender que deve criticar.
No dia 4 de outubro, primeiro turno, meu voto será em Lula.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.