Paulo Guedes mentiu aos brasileiros quando ajudou a espalhar a ideia de que a volta de Lula levaria o Brasil rapidamente ao desastre econômico. Agora Flávio Bolsonaro recupera a mesma narrativa: o país estaria quebrado, a população não aguentaria mais e somente um brutal ajuste das contas públicas poderia nos salvar.
Não estamos diante de uma profecia. Profecia é aquilo que se faz diante do desconhecido. Lula não era desconhecido. Já havia governado o Brasil durante oito anos. Portanto, quando se anunciava que sua volta transformaria o Brasil numa Argentina ou numa Venezuela, havia uma experiência histórica concreta com a qual aquela afirmação poderia ser confrontada.
Paulo Guedes foi longe. Disse que o Brasil poderia levar seis meses para virar Argentina e um ano e meio para virar Venezuela. Lula voltou ao Palácio do Planalto em janeiro de 2023 e estamos chegando ao final de 2026.
Cadê a Argentina? Cadê a Venezuela? Cadê a quebradeira? A realidade simplesmente não confirmou o terrorismo econômico.
Quase quatro anos depois, a taxa de desemprego brasileira está em 5,3%, no trimestre encerrado em julho de 2026, um dos menores níveis da série histórica da PNAD Contínua. O rendimento médio mensal real habitual dos trabalhadores ocupados chegou a R$ 3.762.
Os números contrariaram a catástrofe anunciada
A inflação acumulada em 12 meses até agosto está em 4,22%. E, no próprio mês de agosto, o IPCA registrou deflação de 0,32%. Estamos muito longe, portanto, do cenário hiperinflacionário sugerido pelas comparações alarmistas com Argentina e Venezuela.
A economia tampouco entrou em colapso. No segundo trimestre de 2026, o PIB cresceu 0,5% em relação ao trimestre anterior e 2,0% na comparação com o mesmo trimestre de 2025. No acumulado dos quatro trimestres encerrados em junho, a expansão foi de 1,9%.
E o Brasil continua dispondo de um enorme colchão de reservas internacionais. Em fevereiro de 2026, elas somavam US$ 371,1 bilhões, segundo o Banco Central.
Portanto, quase quatro anos depois da posse de Lula, não temos hiperinflação, não temos explosão do desemprego, não temos recessão permanente e não temos uma crise de balanço de pagamentos. Temos problemas econômicos, evidentemente, mas não temos a Argentina e a Venezuela que Paulo Guedes vendeu aos brasileiros como destino praticamente inevitável.
Agora Flávio Bolsonaro repete a mentira. Novamente se anuncia a catástrofe. Novamente se diz que o Estado gasta demais. Novamente se transforma dívida pública em sinônimo de falência. E, logo depois do diagnóstico aterrorizante, reaparece a velha receita: cortar gastos, reduzir o Estado, privatizar e desregulamentar. É preciso reconhecer o método: primeiro produz-se o medo; depois vende-se a motosserra.
Dívida pública não é cartão de crédito familiar
A relação dívida/PIB é apresentada quase como um cronômetro marcando quanto tempo resta antes da explosão. Só existe um problema: a economia mundial não funciona assim. O Japão convive com uma dívida pública superior a 200% do PIB. Os Estados Unidos também sustentam uma relação dívida/PIB muito superior à brasileira. Nem por isso deixaram de funcionar como duas das maiores economias do planeta.
Dívida importa, evidentemente. Mas dívida pública de um Estado que emite sua própria moeda não é cartão de crédito de uma família. Importam a moeda em que essa dívida está denominada, seus vencimentos, seus detentores, a capacidade tributária do Estado, sua posição externa, suas reservas internacionais, a capacidade produtiva da economia e, fundamentalmente, o custo de financiamento dessa dívida.
E no Brasil existe um elefante dentro da sala: os juros. Os números do Banco Central mostram a dimensão do problema. Nos 12 meses encerrados em maio de 2026, o setor público consolidado pagou contabilmente R$ 1,111 trilhão em juros nominais, equivalentes a 8,48% do PIB. No mesmo período, o déficit primário foi de R$ 149 bilhões, ou 1,14% do PIB. O resultado nominal, que incorpora os juros, chegou a R$ 1,260 trilhão, ou 9,62% do PIB.
Compare as grandezas: 1,14% do PIB de déficit primário e 8,48% do PIB de juros nominais. É impossível discutir seriamente a questão fiscal brasileira fingindo que essa diferença não existe.
O peso dos juros na dívida brasileira
A própria dinâmica recente da dívida mostra o peso dos juros. A dívida bruta do governo geral chegou a 81,1% do PIB em maio de 2026, ou R$ 10,6 trilhões. Segundo o Banco Central, somente no acumulado do ano a incorporação dos juros acrescentou o equivalente a 4,2 pontos percentuais do PIB à evolução da dívida bruta, enquanto o crescimento do PIB nominal atuou na direção contrária, reduzindo essa relação em 2,2 pontos.
Por isso é curioso ouvir tanta indignação com o déficit acompanhada de tão pouca indignação com uma conta anual de juros superior a R$ 1 trilhão. Juros dessa magnitude não afetam apenas as contas públicas. Encarecem o crédito para famílias e empresas, dificultam o investimento produtivo e tornam aplicações financeiras extraordinariamente atraentes diante de investimentos de longo prazo. Uma redução consistente do custo real dos juros é também parte da discussão sobre dívida pública, crescimento e desenvolvimento.
Talvez, portanto, estejamos olhando obsessivamente para o número errado. Em vez de falar apenas na relação dívida/PIB, deveríamos estar muito mais preocupados com outra relação: investimento/PIB.
No primeiro trimestre de 2026, a taxa de investimento brasileira, medida pela Formação Bruta de Capital Fixo, foi de apenas 16,5% do PIB. Mais grave: a própria FBCF caiu 1,4% em relação ao primeiro trimestre de 2025. É isso que deveria tirar o sono de quem realmente está preocupado com o futuro do país.
O Brasil precisa investir mais
O Brasil precisa ampliar investimentos em rodovias, ferrovias, portos, energia, saneamento, habitação, infraestrutura digital, ciência, tecnologia e indústria. Precisa mobilizar investimento privado, recuperar capacidade de investimento público e construir parcerias público-privadas que atendam aos interesses estratégicos da economia brasileira.
Existe uma experiência mundial extraordinária que deveria, no mínimo, constranger a conversa simplista segundo a qual desenvolvimento é consequência natural de Estado pequeno: a China.
Se a China tivesse seguido obedientemente o receituário que o Consenso de Washington ofereceu aos países em desenvolvimento – redução radical da presença estatal, privatização generalizada, liberalização como finalidade em si mesma e abandono da política industrial – dificilmente teríamos assistido à extraordinária transformação de sua estrutura produtiva nas últimas décadas.
A China abriu sua economia, atraiu capital estrangeiro, utilizou mecanismos de mercado e permitiu a expansão de um gigantesco setor privado. Mas fez tudo isso sem abdicar do Estado. O Estado chinês planejou, financiou, coordenou, construiu infraestrutura, manteve empresas públicas em setores estratégicos, utilizou bancos estatais e direcionou recursos para ampliar sua capacidade produtiva. Estado e mercado foram utilizados como instrumentos de uma estratégia de desenvolvimento.
A China e o papel do Estado
O resultado está diante de nós: a China transformou-se numa potência industrial e na grande fábrica do mundo. E há uma ironia particularmente incômoda para quem transforma déficit público em pecado econômico: a China também tem déficit público e dívida.
O FMI estimou crescimento real chinês de 5% em 2025, exatamente a meta estabelecida pelo governo. E registrou expressamente que esse crescimento foi sustentado, entre outros fatores, por estímulos de política econômica. Para 2026, o Fundo projeta crescimento de 4,5%.
Isso não significa que todo déficit seja bom, que toda dívida seja sustentável ou que a China não enfrente problemas. O próprio FMI aponta dificuldades importantes, como fragilidade da demanda doméstica, problemas no setor imobiliário e níveis elevados de endividamento. Significa algo diferente e muito mais importante: déficit é instrumento, não finalidade.
A pergunta correta não é simplesmente se existe déficit. É preciso perguntar por que existe, como é financiado, qual sua sustentabilidade e, principalmente, o que uma sociedade está construindo com os recursos que mobiliza.
Um país que utiliza recursos para ampliar capacidade produtiva, construir infraestrutura, financiar tecnologia e aumentar produtividade não pode ser analisado apenas pela fotografia isolada de seu déficit em determinado ano.
Aqui talvez esteja uma das diferenças fundamentais entre a experiência chinesa e o velho Consenso de Washington. Enquanto parte da América Latina passou décadas discutindo obsessivamente como reduzir o Estado, a China discutiu como utilizar o Estado para transformar sua estrutura produtiva.
Estado, mercado e desenvolvimento
Enquanto nos ensinavam a perguntar quanto custa o Estado, os chineses perguntavam o que o Estado poderia construir. Enquanto aqui se vendia privatização como sinônimo automático de eficiência, a China combinava empresas públicas, empresas privadas, investimento estrangeiro, bancos estatais, planejamento e competição.
E enquanto parte da direita brasileira continua oferecendo a motosserra como símbolo de modernidade, a China constrói infraestrutura e capacidade industrial. Aliás, não precisamos sequer imaginar onde pode chegar a transformação do déficit zero em dogma. Temos diante dos olhos a Argentina de Javier Milei.
Milei colocou a motosserra no centro de sua política econômica e obteve resultados importantes na redução da inflação e no resultado fiscal. Isso é fato. Mas política econômica não termina na última linha de uma planilha do Tesouro. É preciso perguntar a que custo.
E os dados mais recentes da própria Argentina começam a responder. O PIB argentino ainda apresentou crescimento de 2,0% na comparação com o segundo trimestre de 2025, mas, quando se observa a trajetória mais recente, a economia encolheu 0,6% em relação ao primeiro trimestre de 2026.
Mais revelador ainda é o comportamento do investimento: a Formação Bruta de Capital Fixo despencou 11,1% na comparação com o segundo trimestre de 2025 e caiu outros 0,8% na comparação com o trimestre imediatamente anterior, segundo o INDEC. Na composição dessa queda, o investimento em máquinas e equipamentos recuou 15,2%, e o investimento em equipamentos de transporte desabou 22,1%. Não estamos falando de opinião política. São os números oficiais da Argentina.
O custo do ajuste argentino
Esse dado é especialmente importante porque investimento significa capacidade futura de produção. Uma economia pode apresentar determinado resultado fiscal hoje e, simultaneamente, comprometer parte de sua capacidade de crescimento amanhã. Uma queda de 11,1% da Formação Bruta de Capital Fixo deveria preocupar muito mais quem pensa desenvolvimento do que a comemoração isolada de uma planilha de déficit zero.
O mercado de trabalho conta outra parte dessa história. A taxa de desemprego, que estava em aproximadamente 5,7% no final de 2023, chegou a 7,8% no primeiro trimestre de 2026. A diferença parece pequena quando apresentada apenas em pontos percentuais, mas não é: significa um aumento relativo de aproximadamente 36,8% na taxa de desemprego.
O ajuste argentino atingiu subsídios, obras públicas e gastos sociais. E, em 2026, os sinais de deterioração econômica continuam aparecendo. Levantamento publicado neste mês registra inadimplência atingindo 13,6% da população argentina, aproximadamente 6 milhões de pessoas, além do fechamento de mais de 30 mil empresas desde o início do governo Milei.
Entre novembro de 2023 e abril de 2026, os salários do setor público perderam cerca de 39,3% de seu poder aquisitivo. E as tarifas de serviços essenciais – eletricidade, gás, água e transporte – acumularam aumentos próximos de 1.000% no período analisado.
Essa conta aparece também nas ruas. A Argentina convive com manifestações de aposentados, trabalhadores, estudantes, professores, cientistas e outros grupos atingidos pelas medidas de austeridade.
Déficit zero para quê e para quem?
É essa parte da história que desaparece quando “déficit zero” vira slogan. É preciso perguntar: déficit zero para quê e para quem?
Uma sociedade não existe para produzir superávit primário. Também não existe para produzir déficit por produzir. Superávit, déficit, dívida e resultado fiscal são instrumentos da política econômica, não a finalidade de uma nação.
O objetivo deve ser desenvolvimento: crescimento econômico, emprego, estabilidade de preços, aumento da produtividade, investimento, infraestrutura e melhoria das condições materiais de vida da população.
O Brasil precisa preservar seus programas sociais. Precisa investir muito mais. Precisa elevar sua Formação Bruta de Capital Fixo para muito além dos atuais 16,5% do PIB. Precisa utilizar investimento público e privado. Precisa estruturar boas PPPs. Precisa recuperar e modernizar sua infraestrutura. Precisa fortalecer sua capacidade produtiva. E precisa enfrentar uma conta de juros que já supera R$ 1,1 trilhão em 12 meses. Isso é muito diferente de colocar uma motosserra sobre o Estado e chamar destruição de modernização.
Há uma disputa política escondida atrás da frase “o Brasil vai quebrar”. Quando alguém afirma que o Estado gasta demais, é preciso perguntar: gasta demais com quem? Quando exige cortes, cortar de onde? Saúde? Educação? Previdência? Ciência? Infraestrutura? Investimento?
Quando a austeridade é apresentada como inevitável
E quando disser que não existe alternativa, desconfie. Foi assim que o velho receituário do Consenso de Washington se apresentou durante décadas na América Latina: privatização, desregulamentação, liberalização e compressão do Estado vendidas não como escolhas políticas, mas como necessidades técnicas inevitáveis.
O Brasil precisa de responsabilidade econômica, mas responsabilidade econômica não é sinônimo de Estado mínimo. Desenvolvimento exige Estado, planejamento, investimento público, investimento privado, infraestrutura, política social e estabilidade macroeconômica.
Não precisamos escolher entre irresponsabilidade econômica e motosserra. Precisamos escolher desenvolvimento. Paulo Guedes disse que o Brasil rapidamente se transformaria em Argentina e Venezuela. Mentiu.
E não há razão para suavizar a palavra. Lula já havia governado o Brasil durante oito anos. Havia uma experiência econômica concreta para ser examinada. Mesmo assim, Guedes preferiu vender aos brasileiros o medo da Argentina e da Venezuela. Os prazos que ele próprio colocou passaram. A catástrofe anunciada não veio.
Flávio Bolsonaro repete a mentira
Quase quatro anos depois, o desemprego brasileiro está em 5,3%, o rendimento médio real do trabalhador chegou a R$ 3.762, a inflação acumulada em 12 meses está em 4,22%, o PIB cresceu 2,0% na comparação anual do segundo trimestre e o país mantém centenas de bilhões de dólares em reservas internacionais. Agora Flávio Bolsonaro repete a mentira.
E não é irrelevante observar a relação recente do próprio candidato com a verdade. Quando seu telefone apareceu na agenda de Daniel Vorcaro, Flávio afirmou que nunca havia tido contato com o dono do Banco Master.
Depois, admitiu ter pedido e recebido dinheiro de Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre seu pai. Também prometeu transparência e prestação pública de contas sobre o financiamento da produção. Posteriormente passou a dizer que a prestação de contas não cabia a ele, e contratos, planilhas detalhadas de gastos e a relação completa de financiadores não foram apresentados publicamente.
Não é preciso inventar nada. Basta registrar a sequência dos fatos. É esse mesmo Flávio Bolsonaro que agora pede aos brasileiros que acreditem que o país está quebrado e que a salvação virá novamente pela tesoura, pelas privatizações e pela redução do Estado.
Assustar primeiro para vender a motosserra depois
Paulo Guedes vendeu a mentira da Argentina e da Venezuela. Os fatos o desmentiram. Flávio Bolsonaro pega a mesma mentira, troca a embalagem e tenta vendê-la novamente aos brasileiros. Não se trata de previsão. Não se trata de profecia. E não se trata de uma verdade econômica revelada aos iniciados. É política. É produzir medo para transformar uma escolha ideológica em falsa necessidade econômica: assustar primeiro para vender a motosserra depois. Só que agora temos mais elementos para responder.
Temos quase quatro anos de números brasileiros que desmentem a catástrofe anunciada por Guedes. Temos a China mostrando há décadas que desenvolvimento econômico não se constrói necessariamente com Estado mínimo. E temos a Argentina mostrando, neste exato momento, uma Formação Bruta de Capital Fixo caindo 11,1%, uma economia que recuou 0,6% no último trimestre divulgado e uma taxa de desemprego que aumentou aproximadamente 36,8% em relação ao nível do final de 2023.
Portanto, quando Flávio Bolsonaro disser novamente que o Brasil está quebrado e que precisamos de um “tesouraço”, convém lembrar quem está falando, e lembrar também que essa história já nos foi contada. Guedes mentiu. A realidade o desmentiu. Flávio Bolsonaro repete a mentira. E o Brasil não precisa comprar outra vez a mesma mercadoria estragada.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado.