Quando adentrei à porta do Café Luz do Farol, minha parada obrigatória aqui em Leça da Palmeira, ele já estava a postos em seu lugar de hábito. O jornal do dia esparramado sobre a mesa, seus olhos vagueando sem óculos entre uma coluna e outra e, à sua esquerda, no cantinho extremo da mesinha, a xícara de café que tinha acabado de sair da máquina e deixava escapar um estreito e coordenado filete de fumaça que subia e logo se dispersava em meio ao ar frio daquele inverno.
Sentei-me à mesa bem ao lado, com a necessária preocupação de não arrastar cadeira ou provocar qualquer ruído que lhe interrompesse a leitura, naquele momento focada em alguma matéria jornalística de seu mais profundo interesse, tal era sua concentração. Daí me antecipei e fiz apenas o gesto clássico com a mão pedindo um cafezinho ao sempre simpático sorriso da Delfina. Ela, por sua vez, que já estava a meio caminho para me dar o tradicional abraço de boas-vindas, leu minha intenção, como boa conhecedora de seus clientes, deu meia-volta e foi ao encontro da máquina de café por trás do balcão.
Mas o motivo de minha preocupação durou pouco. Antes mesmo que Delfina me trouxesse o café e me desse o abraço de boas-vindas, ele deu por encerrada a leitura, dobrou o jornal com zelo, acomodou-o ao seu lado, deu um saboroso gole no seu café e só então, a caminho de repousar a xícara sobre a mesa, seu Francisco se deu conta da minha presença e me saudou com seus noventa e cinco anos de idade completados há seis meses. Era o ano de 2018.
A liberdade de seu Francisco
Enquanto lhe devolvia o carinho da receptividade, seu Francisco, como bom português que é, já foi puxando assunto. Indagou-me se eu dirigia viatura. É assim que se chama o automóvel aqui em Portugal. Disse-lhe que tinha trazido minha carta de motorista do Brasil e que iria trocar pela carta portuguesa, mas que não tinha mais muito interesse em voltar a dirigir, até por conta da idade. Só então foi que entendi a razão de seu Francisco ter trazido o assunto para a conversa. Estava muito chateado da vida. A sua liberdade estava sendo cerceada pelo governo. O motivo? Há duas semanas tinha recebido a informação do órgão de trânsito aqui do Porto de que a sua carta não poderia ser renovada em virtude da sua idade.
Conversa vai, conversa vem, os olhos atentos de seu Francisco localizaram, através da parede de vidro, no lado de fora do café, o carrinho elétrico de mobilidade que me serve de pernas para distâncias maiores. Cheio de curiosidade, queria saber como ele funciona. Respondi-lhe que as duas baterias escondidas debaixo do assento são responsáveis pelo seu movimento. Perguntou-me qual a autonomia do carrinho. Eu lhe disse que, de acordo com o manual de fábrica, poderia percorrer até 35 quilômetros, desde que o terreno fosse plano. Sobe ladeiras? Sim. Fiz-lhe lembrar a ladeira que dava acesso ao prédio onde fica o café. Reagiu com um olhar de satisfação. Queria saber, ainda, se era preciso carta de habilitação para dirigir o carrinho. Disse-lhe que não.
Depois de tantas outras perguntas, todas respondidas com exatidão de detalhes, seu Francisco ficou pensativo, como se avaliasse o custo-benefício do carrinho, que aqui em Portugal se chama scooter de mobilidade. Em seguida, seus noventa e cinco anos olharam para, à época, meus sessenta e sete anos, e cravaram sem pestanejar: “É… eu acho que lá na frente eu vou precisar de uma scooter como essa”.
Um menino de noventa e cinco anos
Seu Francisco é figura conhecida de todos aqui nesse pedaço de Leça da Palmeira, principalmente na galeria onde ficam o café, o supermercado e várias lojas. Com seus mais de um metro e noventa de altura, cabelos em neve, mas sempre protegidos por um boné inglês, desses Thomas Shelby, corpo magro e sempre ereto, seu Francisco dispensa óculos e usa uma bengala por puro esporte, pois seus passos firmes e cadenciados nada deixam a dever aos mais jovens. Não raro, ele esquece a bengala e, quando perguntado sobre ela, responde, sempre armado com seu bom-humor, que deixou a elegância em casa.
Noutro dia, seu Francisco vinha em minha direção no principal corredor da galeria. Tinha saído do supermercado. Estava sem a bengala. Trazia uma sacola na mão esquerda. Tinha feito algumas compras. Eu estava no nível levemente superior da galeria, cujo acesso se dá por cinco degraus ou por uma rampa lateral. Ele já tinha feito aceno para mim. Quando o vi, estacionei meu carrinho elétrico para aguardá-lo. Jurava que ele fosse se utilizar da rampa para vir ao meu encontro. Ledo engano. Sacola em punho, sorriso estampado, olhar em minha direção, seu Francisco deu conta dos cinco degraus alternando os pés e com um olhar triunfante de garoto. Senti uma inveja danada daquele menino de noventa e cinco anos.
A caminho dos três dígitos
Trocamos aperto de mão e ele me fez lembrar que ainda não tinha me contado uma história da qual muito se orgulhava. Em duas ocasiões, tinha ido de trem até Lisboa para se encantar com os passes e as jogadas maravilhosas do Rei Pelé. E aqueles dois momentos tão marcantes tinham ficado salvos para sempre em sua memória. Aproveitei, então, para perguntar ao seu Francisco como estava a saúde. Ele deixou escapar uma leve ironia pelo canto esquerdo dos lábios e me respondeu, com uma certeza decorada pelo seu bom-humor, que estava a caminho de completar três dígitos. Exultei de alegria, levantei-me da scooter e lasquei um abraço no seu Francisco.
Pois neste julho próximo de 2025, acreditem, seu Francisco completará 102 anos de vida com uma animada festinha no Café Luz do Farol. Com direito a bolo, parabéns e muita vida.
O autor é professor, escritor e filólogo.*
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