Pular para o conteúdo

China: Malthus versus Godwin e Condorcet

Em 1798, Thomas Robert Malthus publicou anonimamente a primeira edição de seu Ensaio sobre o princípio da população. O livro…

6 min de leitura
Compartilhar: WhatsApp X
China: Malthus versus Godwin e Condorcet


Em 1798, Thomas Robert Malthus publicou anonimamente a primeira edição de seu Ensaio sobre o princípio da população. O livro costuma ser lembrado pela conhecida afirmação de que a população tenderia a crescer em progressão geométrica, enquanto os meios de subsistência cresceriam em progressão aritmética. Mas reduzir Malthus a essa fórmula é perder justamente a discussão que deu origem à obra.

Malthus estava polemizando, entre outros, com William Godwin e o marquês de Condorcet, representantes do ambiente intelectual iluminista que enxergava com grande confiança as possibilidades de aperfeiçoamento da sociedade. Para eles, boa parte da pobreza e da miséria não decorria de uma inevitável lei da natureza. Resultava das instituições construídas pelos próprios homens, da desigualdade, da propriedade, da distribuição da riqueza, da ignorância e de estruturas sociais que poderiam ser modificadas.

Era uma visão otimista do futuro. Se as instituições fossem transformadas, se o conhecimento avançasse e se a riqueza fosse distribuída de maneira diferente, seria possível melhorar progressivamente as condições de vida da população.

Malthus desconfiava profundamente dessa conclusão. Seu argumento era perturbador: suponhamos que uma sociedade promovesse reformas, diminuísse a desigualdade e elevasse a renda dos pobres. A melhoria das condições materiais estimularia casamentos e aumentaria a população. Como a população teria capacidade de crescer mais rapidamente do que a produção de alimentos, algum tempo depois a pressão demográfica reduziria novamente os salários e devolveria parcela da população à pobreza.

A China diante da velha questão de Malthus

A miséria, portanto, não poderia ser eliminada simplesmente redistribuindo propriedade ou renda. Para Malthus, havia uma restrição mais profunda: a relação entre população e meios de subsistência. Mais de dois séculos depois, a China oferece um extraordinário caso histórico para revisitarmos essa controvérsia.

Quando o governo chinês adotou, no final da década de 1970, uma política extremamente rigorosa de controle da natalidade, posteriormente conhecida como política do filho único, havia uma preocupação explícita com a relação entre crescimento populacional e desenvolvimento econômico. Uma população crescendo rapidamente significava mais pessoas disputando alimentos, moradia, educação, saúde e os recursos necessários à elevação do padrão de vida.

Nesse aspecto, há algo claramente malthusiano no problema enfrentado pela China: controlar a pressão populacional sobre os recursos disponíveis. Mas seria um erro dizer simplesmente que a China aplicou Malthus. Porque, enquanto restringia o crescimento populacional, o país fazia algo igualmente importante do outro lado da equação: aumentava extraordinariamente sua capacidade de produzir.

A China industrializou-se, urbanizou-se, investiu pesadamente em infraestrutura, ampliou a educação, incorporou tecnologia, expandiu sua participação no comércio internacional e elevou enormemente a produtividade de sua economia. Centenas de milhões de pessoas deixaram condições de extrema pobreza durante esse processo.

Godwin e Condorcet retornam ao debate

É exatamente nesse ponto que Godwin e Condorcet retornam à discussão.

A história chinesa mostrou que as condições materiais de uma sociedade não são determinadas apenas pela quantidade de terra disponível ou pela relação física entre população e alimentos. Ciência, tecnologia, educação, organização econômica, instituições e produtividade podem modificar profundamente essa relação. O que parecia ser um limite natural pode ser deslocado pela ação humana.

Malthus percebeu corretamente que não se pode discutir melhoria das condições de vida ignorando a dinâmica populacional. Mas subestimou algo que os séculos seguintes tornariam decisivo: a extraordinária capacidade do progresso tecnológico de elevar a produtividade.

Uma mesma quantidade de terra pode produzir muito mais alimentos. Um trabalhador equipado com máquinas e tecnologia pode produzir muitas vezes mais do que outro trabalhador produziria dois séculos atrás. Transporte, fertilizantes, mecanização, genética, energia, informática e organização industrial transformaram completamente a capacidade produtiva das sociedades.

A China acabou atuando, portanto, nos dois lados da velha equação. De um lado, conteve drasticamente o crescimento da população. Nesse aspecto, aproximou-se da preocupação malthusiana. Do outro, transformou as instituições, expandiu a educação, incorporou ciência e tecnologia, industrializou-se e multiplicou sua produtividade. Nesse aspecto, aproximou-se muito mais do otimismo de Godwin e Condorcet sobre a capacidade humana de transformar as próprias condições materiais.

Da política do filho único à queda da natalidade

E a história reservou ainda uma ironia. Décadas depois de tentar impedir que nascessem crianças demais, a China passou a preocupar-se porque estão nascendo crianças de menos. A política do filho único foi abandonada. Primeiro foram permitidos dois filhos; depois, três. O governo passou a adotar medidas para estimular a natalidade.

O problema mudou. A redução prolongada da fecundidade, combinada ao aumento da expectativa de vida, contribuiu para o envelhecimento da população e para a diminuição relativa da população em idade de trabalhar. O país que durante décadas perguntou como alimentar, educar e empregar uma população que crescia rapidamente passou a perguntar como sustentar o crescimento econômico diante de uma população que envelhece e começa a diminuir.

Talvez seja justamente aí que a experiência chinesa se torne tão interessante para compreender aquela discussão iniciada no século XVIII.

Malthus tinha razão ao advertir que população e recursos não poderiam ser tratados separadamente. Godwin e Condorcet tinham razão ao perceber que pobreza e condições de vida também dependem das instituições, do conhecimento e da capacidade humana de transformar a sociedade.

China, Malthus, Godwin e Condorcet: uma disputa sem vencedor

A China não resolveu a disputa dando vitória definitiva a um deles. Fez algo historicamente mais interessante: mostrou que população, tecnologia, produtividade e instituições caminham juntas — e que interferir profundamente em uma delas pode produzir consequências que somente aparecerão muitas décadas depois.

No século XVIII, Malthus perguntava se seria possível vencer a pobreza modificando a sociedade sem enfrentar o crescimento da população.

A China respondeu fazendo as duas coisas. E agora enfrenta uma pergunta que Malthus provavelmente não imaginou: o que fazer quando o problema deixa de ser gente demais e passa a ser gente de menos?

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.



BNC Amazonas

Últimas notícias