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Carta aberta: responsabilidade ambiental na Amazônia

Há um mal-estar que já não consigo tratar como uma simples preocupação. É um mal-estar que sinto no corpo, na…

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Carta aberta: responsabilidade ambiental na Amazônia


Há um mal-estar que já não consigo tratar como uma simples preocupação. É um mal-estar que sinto no corpo, na consciência e no coração. Um incômodo profundo, uma tristeza que cresce à medida que assistimos à floresta queimar, a fumaça cobrir nossas cidades, o calor tornar-se cada vez mais insuportável e aquilo que durante tanto tempo chamamos de “meio ambiente” revelar-se, afinal, como aquilo que sempre foi: o próprio meio que torna possível a nossa vida.

Talvez seja possível chamar isso de uma espécie de depressão ambiental. Não no sentido de uma desistência, mas de uma tristeza produzida pela consciência de que alguma coisa muito grave está acontecendo diante de nós e de que, mesmo assim, continuamos vivendo como se nada estivesse acontecendo.

Nestes dias, mais uma vez, o Amazonas enfrenta uma temporada severa de queimadas e incêndios, com aumento expressivo dos focos de calor e fumaça alcançando inclusive Manaus. E, diante disso, uma pergunta não me abandona: onde está o meio ambiente no debate público?

Onde está a Amazônia no debate público?

Esta carta é dirigida, em primeiro lugar, a todos os políticos que estão em campanha.

Onde está a Amazônia em seus discursos? Onde estão as propostas concretas para enfrentar as queimadas, o desmatamento, a crise hídrica, o aumento das temperaturas, a poluição dos rios, a perda da biodiversidade, a destruição dos territórios?

Em meio a tantos discursos, promessas, acusações, vídeos, jingles, slogans e disputas nas redes sociais, é assustador perceber como aquilo que garante a possibilidade material de continuarmos existindo pode ocupar um lugar tão pequeno.

Não escrevo isso para dizer em quem alguém deve votar. Escrevo para dizer algo anterior a qualquer escolha eleitoral: a questão ambiental precisa ser tratada como uma responsabilidade pública incontornável. Também não podemos depositar toda a responsabilidade apenas sobre os políticos.

Há uma responsabilidade nossa. De todos nós. Porque políticos não surgem de outro planeta. Eles emergem de nossas sociedades, de nossas prioridades, de nossos silêncios e também daquilo que aceitamos como normal.

Precisamos ter coragem de perguntar por que, em plena Amazônia, a defesa do meio ambiente tantas vezes é tratada como assunto secundário, como obstáculo ao “desenvolvimento”, como ingenuidade ou mesmo como algo de que se deve ter vergonha.

Não existe futuro sem floresta

Em algum momento teremos de compreender que não existe economia sem território, não existe cidade sem água, não existe riqueza sem condições materiais de vida, não existe futuro sem floresta, não existe humanidade sem aquilo que chamamos, quase como se estivesse fora de nós, de natureza.

O meio ambiente não é uma pauta entre outras. É o chão sobre o qual todas as outras pautas existem.

Podemos discutir emprego, renda, infraestrutura, segurança, educação, saúde, tecnologia, desenvolvimento e crescimento econômico. Todas essas discussões são fundamentais. Mas existe uma condição anterior a todas elas: precisamos de um planeta habitável.

Não adianta imaginarmos uma sociedade com ar-condicionado em todos os ambientes se o ar do lado de fora se torna irrespirável. Não adianta acumularmos bens se a água se torna escassa ou contaminada. Não adianta construirmos cidades cada vez maiores se destruímos as condições que permitem que essas cidades existam. Precisamos de terra, água e ar.

Parece elementar dizer isso. Talvez o mais assustador seja justamente termos chegado a um momento histórico em que o elementar precisa novamente ser explicado.

A responsabilidade ambiental pertence a todos

As redes sociais e os meios de comunicação são diariamente ocupados por denúncias, escândalos políticos, suspeitas de corrupção, disputas eleitorais, acusações, desvio de recursos e conflitos entre grupos. Evidentemente, tudo isso deve ser investigado, discutido e cobrado quando houver fundamento. Mas existe uma pergunta ainda mais básica que quase desaparece no meio desse ruído: em que mundo pretendemos viver depois de todas essas disputas? Que riqueza é essa que estamos tentando acumular?

Onde o “novo homem”, orgulhoso das riquezas que conseguiu produzir, pretende morar? Em que terra? Respirando qual ar? Bebendo qual água?

É profundamente mesquinho imaginar que o mundo termina nos limites do nosso próprio umbigo. A fumaça não pergunta em quem votamos. O calor não pergunta qual é nossa ideologia.

Um rio contaminado não distingue direita e esquerda. Uma floresta em chamas não reconhece nossas guerras nas redes sociais.

Talvez por isso a responsabilidade ambiental precise começar justamente onde tantas outras discussões terminam: no reconhecimento de que há coisas que pertencem a todos porque tornam possível a existência de todos. Também precisamos abandonar a ideia confortável de que somente governos, empresas ou grandes instituições são responsáveis. Quem vive na Amazônia precisa perguntar a si mesmo qual Amazônia está ajudando a construir.

O que os povos indígenas tentam nos ensinar

Precisamos cobrar políticas públicas, fiscalização, prevenção aos incêndios, proteção dos rios, proteção das florestas, saneamento, planejamento urbano, ciência, educação ambiental e alternativas econômicas capazes de produzir riqueza sem destruir as próprias condições de existência.

Mas precisamos também olhar para nossas próprias práticas, nossos silêncios e nossas contradições. Não podemos exigir responsabilidade ambiental dos outros e tratar como irrelevante aquilo que fazemos todos os dias. Não podemos desejar uma Amazônia preservada apenas quando a preservação não exige nada de nós. Não podemos continuar terceirizando nossa responsabilidade.

Há décadas, povos indígenas vêm tentando nos dizer isso. Davi Kopenawa é talvez uma das vozes mais conhecidas dessa advertência. Ele e tantos outros intelectuais, xamãs, lideranças, mulheres e homens indígenas insistem em nos ensinar que floresta, rios, animais, seres humanos e mundo espiritual não existem como realidades absolutamente separadas.

Eles continuam tentando nos ensinar. E talvez a pergunta mais dolorosa seja: quanto ainda precisaremos perder para começar a escutar? Talvez aquilo que chamamos arrogantemente de conhecimento moderno precise aprender alguma coisa com aqueles que durante séculos foram tratados justamente como se não tivessem nada a ensinar.

A Amazônia vista de longe

Escrevo estas palavras longe do Amazonas e longe do Brasil neste momento. Mas distância não significa indiferença. Pelo contrário, às vezes, estar distante torna ainda mais evidente aquilo que está em risco.

Eu me importo porque aquele é o lugar ao qual pertenço, porque pessoas que amo estão ali, porque minha história está ligada àquela região, mas também porque aquilo que acontece na Amazônia ultrapassa enormemente qualquer pertencimento individual.

O futuro da floresta não é um problema apenas dos amazônidas. É um problema humano. Por isso esta carta não pretende distribuir culpas fáceis. Pretende distribuir responsabilidades. Responsabilidade para quem governa, para quem pretende governar, para quem produz, para quem consome, para quem ensina, para quem comunica, para quem pesquisa, para quem vota, para quem prefere não pensar sobre isso, enfim, responsabilidade para mim também.

Precisamos interromper essa estranha marcha em que sabemos cada vez mais sobre aquilo que está acontecendo e, ao mesmo tempo, parecemos cada vez menos capazes de agir. A dignidade de uma sociedade não pode ser medida apenas pelo dinheiro que ela produz. Ela também precisa ser medida pelo mundo que entrega aos que ainda não nasceram.

E talvez seja esta a pergunta mais simples que possamos dirigir hoje a qualquer projeto político, a qualquer governo, a qualquer instituição e também a nós mesmos: que Amazônia estamos deixando para quem vier depois de nós?

Que Amazônia deixaremos para quem vier depois?

Eu não quero me acostumar à fumaça. Não quero considerar normal olhar para o céu do Amazonas e vê-lo encoberto pelas queimadas. Não quero aceitar que o calor extremo seja simplesmente incorporado à rotina. Não quero que falar da floresta pareça romantismo enquanto destruí-la seja chamado de progresso. E não quero perder a capacidade de sentir esse mal-estar.

Porque o verdadeiro perigo começa justamente quando deixarmos de senti-lo. Enquanto ainda nos incomodamos, ainda existe alguma coisa em nós dizendo que outro caminho é possível.

Que esse desconforto não se transforme apenas em tristeza, que se transforme em consciência, em responsabilidade, em cobrança pública, em educação, em cuidado, em transformação das nossas próprias práticas. E, sobretudo, em disposição para escutar aqueles que há tanto tempo vêm dizendo aquilo que ainda relutamos em compreender: sem floresta, sem água, sem terra e sem ar, não haverá riqueza capaz de nos salvar.

A autora é jornalista*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.



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