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Campus Lagoa do Sino: um sonho que transforma vidas

No romance Lavoura arcaica, publicado em 1975, Raduan Nassar associa o ciclo terra, pão e família a três forças: “amor,…

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Campus Lagoa do Sino: um sonho que transforma vidas


No romance Lavoura arcaica, publicado em 1975, Raduan Nassar associa o ciclo terra, pão e família a três forças: “amor, trabalho, tempo”. Décadas depois, essas palavras ajudam a compreender o sonho que levou o escritor e agricultor a doar sua fazenda para a criação de um campus universitário capaz de transformar vidas e contribuir para o desenvolvimento da região.

Há tempo entre o nascimento desse sonho e as colheitas que muitas gerações ainda farão nessa terra. Há trabalho na persistência e na construção coletiva que transformaram o sonho em campus e continuam a lhe dar vida. E há amor no compromisso com a região e nos caminhos que esse gesto segue abrindo para quem encontra, na educação, a liberdade de construir o próprio futuro.

A terra agora produz oportunidades

Foi preciso muito tempo para que o sudoeste paulista, região historicamente marcada por profundas desigualdades, recebesse seu primeiro campus universitário federal. Sua implantação resultou de uma articulação pouco comum entre persistência, decisão política e compromisso institucional, com participação decisiva de Raduan, do presidente Lula e da UFSCar.

Quando o Campus Lagoa do Sino foi inaugurado, em 2014, em Buri, esse processo começou a produzir efeitos concretos na região. Para muitos moradores, o ensino superior público deixou de ser um horizonte distante e passou a representar uma possibilidade real de formação e novas oportunidades.

Durante seus dez primeiros anos de atividade, ingressaram no campus 2.192 estudantes provenientes de 295 municípios. Desse total, 743, cerca de 34%, vieram do Território Lagoa do Sino, formado por 40 municípios da região.

Por trás desses números estão pessoas reais que chegaram à graduação, ampliaram suas possibilidades profissionais, levaram novos conhecimentos para a propriedade familiar, participaram de projetos de extensão, seguiram para a pós-graduação, tornaram-se pesquisadores, fizeram intercâmbios e viveram muitas outras experiências proporcionadas pela universidade. Para muitas delas, caminhos como esses antes pareciam inacessíveis.

É nessa ampliação de horizontes que a Lagoa do Sino dialoga com a concepção de Amartya Sen do desenvolvimento como expansão das liberdades reais. Ao democratizar o acesso ao conhecimento, o campus amplia as possibilidades de escolha desses estudantes: onde trabalhar, que formação seguir, que projetos construir e também como agir sobre a realidade em que vivem.

Essa transformação pode ser percebida nas trajetórias de estudantes e egressos. A passagem pela universidade abre novos caminhos, fortalece vínculos e alimenta sentimentos de gratidão, orgulho e pertencimento. Para muitos, o campus se tornou uma segunda casa, um espaço de convivência e cooperação.

A história e o propósito da doação de Raduan, constantemente relembrados em atividades, eventos e diferentes espaços do campus, ajudam a explicar o sentimento coletivo de pertencimento construído em torno da Lagoa do Sino. O campus passou a ser reconhecido como patrimônio do território, um lugar onde novos projetos de vida podem nascer sem exigir o rompimento dos vínculos com as próprias origens.

Uma universidade enraizada em seu território

Desde sua concepção, o território foi mais do que o lugar destinado a receber o Campus Lagoa do Sino: tornou-se referência para sua organização institucional e pedagógica. Essa perspectiva se materializou em três eixos norteadores: desenvolvimento territorial sustentável, agricultura familiar e soberania e segurança alimentar. Eles orientaram a definição dos cursos e das linhas de formação, incorporando questões produtivas, sociais e ambientais da região à organização acadêmica.

Esse modo de pensar a universidade remete ao que Darcy Ribeiro chamou de “universidade-semente”: uma instituição que, em vez de apenas refletir um desenvolvimento já alcançado, é criada para ajudar a produzi-lo. No sudoeste paulista, isso significa formar pessoas e produzir conhecimento capaz de ajudar a região a compreender e enfrentar seus próprios desafios.

Esse papel ganha força na criação dos programas de pós-graduação, que ampliam a formação de pesquisadores, e nos projetos desenvolvidos com órgãos governamentais, empresas, ONGs e movimentos sociais. Essas iniciativas estreitam a relação entre a universidade e a sociedade, articulando conhecimento científico, experiências locais e diferentes atores em torno de desafios comuns.

Assim, a contribuição da universidade começa nas salas de aula, mas não termina nelas. Ela se amplia quando o campus ultrapassa suas porteiras e constrói sua atuação em diálogo com quem vive no território, reconhecendo saberes, experiências e demandas locais. Essa forma de relação com a comunidade se aproxima da concepção de educação dialógica de Paulo Freire, para quem educar não significa apenas transmitir conhecimentos prontos, mas criar condições para que os sujeitos, por meio do diálogo, compreendam sua realidade e construam caminhos para transformá-la.

Na Lagoa do Sino, estudantes e egressos dão forma concreta a esse processo dialógico ao pesquisar agricultura familiar, desenvolvimento territorial, políticas públicas, segurança alimentar e inovação, relacionando esses temas à atuação profissional e à formulação de alternativas para solução de problemas locais. Assim, uma região historicamente estudada sobretudo por pesquisadores externos deixa de aparecer apenas como objeto de investigação. Seus próprios moradores passam a produzir conhecimento sobre a realidade que vivem.

Não há, porém, transformação solitária. A contribuição efetiva da universidade depende da articulação com o poder público, as organizações sociais, o setor produtivo e a população. Exige também continuidade institucional para que o conhecimento produzido retorne à sociedade e gere resultados duradouros.

Consolidar o sonho, cultivar o futuro

Há, por fim, algo que números e indicadores não conseguem traduzir por inteiro: o vínculo humano construído em torno do campus. Não se trata apenas da relação entre uma instituição e o lugar onde foi implantada, mas de uma comunidade reunida por um projeto comum e fortalecida pelo trabalho coletivo, pelo pertencimento e pelo compromisso com o futuro da região. Talvez seja aí que o amor mencionado por Raduan encontre sua expressão mais concreta.

Esse projeto, contudo, não se sustenta apenas pela força simbólica do sonho. Como lembram Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, abrir as portas da universidade não significa que todos cheguem até ela nas mesmas condições. Diferenças econômicas, sociais e culturais continuam pesando sobre as trajetórias dos estudantes e podem influenciar sua permanência e suas oportunidades ao longo da formação.

Por isso, abrir vagas é indispensável, mas não suficiente. Democratizar o ensino superior exige criar condições para que os jovens da região, sobretudo os pertencentes a grupos historicamente excluídos, possam ingressar, permanecer e concluir sua formação. Também são necessários estrutura, servidores e continuidade institucional para que a universidade cumpra plenamente seu papel.

Consolidar e expandir o campus é parte da resposta a esse desafio. Em 2024, durante a comemoração dos dez anos da Lagoa do Sino, o presidente Lula retornou ao campus ao lado de Raduan e reafirmou o compromisso com a consolidação e a expansão do projeto.

Esse compromisso começará a ganhar forma em 2027, quando o campus passará de cinco para oito cursos, com a criação de Psicologia, Pedagogia e Nutrição e a previsão de outros três em uma etapa posterior. A expansão não significa apenas mais vagas. Novos cursos trazem também professores, estudantes, pesquisas e projetos capazes de ampliar a presença da universidade na região.

Diante do que já mudou e do que ainda pode mudar, considero, como morador da região, que a Lagoa do Sino representa a mais importante iniciativa de política pública da história recente do sudoeste paulista e sua maior oportunidade de desenvolvimento. Essa avaliação não decorre apenas do alcance educacional e científico do campus. Ela vem também das trajetórias que se tornaram possíveis nesses anos, dos vínculos construídos com a comunidade local e, principalmente, do que a Lagoa do Sino ainda pode se tornar.

Mais de cinquenta anos depois de Lavoura arcaica, “amor, trabalho, tempo” continuam presentes nessa história. A imagem que acompanha este texto oferece talvez sua síntese mais humana: a fazenda transformou-se em campus; o campus reuniu uma comunidade; e essa comunidade tornou-se, de certo modo, uma família para Raduan.

O sonho de Raduan já não pertence apenas a ele. Pertence também aos estudantes, servidores e comunidades que encontraram na Lagoa do Sino novas possibilidades. Consolidá-lo é garantir que essa história continue produzindo outras colheitas e alcance muitas outras gerações.

O autor é doutorando em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente pela Universidade de Araraquara (UNIARA) e pesquisa as relações entre universidade, território e agricultura familiar.*

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.



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