Antes de prescrever o tratamento, é preciso fazer o diagnóstico. O Brasil convive há décadas com uma anomalia que acabou sendo naturalizada: taxas reais de juros extraordinariamente elevadas. Com a Selic em 14% ao ano e inflação pouco acima de 4%, o país mantém juros reais próximos de 9%. Não há nenhuma lei econômica que determine que isso tenha de ser permanente.
O primeiro efeito aparece na economia real. Juros elevados encarecem o crédito das famílias, dificultam o financiamento das empresas, desestimulam investimentos produtivos e reduzem o crescimento. Ao mesmo tempo, proporcionam elevada remuneração aos detentores de ativos financeiros. A política monetária, portanto, não é distributivamente neutra.
O segundo efeito aparece nas contas públicas. Nos 12 meses encerrados em junho de 2026, o setor público consolidado acumulou cerca de R$ 1,16 trilhão em juros nominais, equivalentes a 8,8% do PIB. O déficit primário, no mesmo período, foi de aproximadamente R$ 157 bilhões, ou 1,19% do PIB. Esses números revelam uma questão fundamental: o problema fiscal brasileiro não pode ser analisado olhando apenas receitas e despesas primárias e ignorando o enorme peso da despesa financeira.
Forma-se, inclusive, um círculo perverso: juros elevados aumentam a despesa financeira; a despesa pressiona a dívida pública; o aumento da dívida eleva a percepção de risco; e o risco volta a ser utilizado como justificativa para juros elevados.
Do diagnóstico ao tratamento
Feito o diagnóstico, qual seria o tratamento? O objetivo não deveria ser reduzir a Selic de 14% para 7% por decreto. Uma redução dessa magnitude precisa ser gradual e acompanhada da construção das condições macroeconômicas que permitam sustentá-la sem reacender a inflação.
Com inflação ao redor de 4%, uma Selic entre 7% e 8% ainda significaria juros reais próximos de 3% a 4%. Portanto, continuaríamos tendo juros reais positivos e relevantes, mas muito distantes da excepcionalidade atual.
O primeiro remédio é ancorar as expectativas de inflação. A estabilidade de preços continua sendo indispensável. Mas juros não podem ser o único instrumento utilizado contra qualquer tipo de inflação.
O segundo é combinar responsabilidade fiscal com crescimento econômico. Sustentabilidade da dívida não significa necessariamente austeridade permanente. Crescimento, produtividade, emprego e arrecadação também melhoram a relação dívida/PIB.
O terceiro é ampliar investimento e capacidade produtiva. Infraestrutura, logística, indústria, tecnologia, educação e inovação aumentam a oferta da economia. Uma economia capaz de produzir mais pode crescer com menor pressão sobre os preços.
O quarto é tratar inflação de custos com instrumentos apropriados. A Selic não produz alimentos, petróleo, energia ou fertilizantes. Choques de oferta, câmbio e eventos climáticos exigem políticas agrícolas, energéticas, logísticas e de abastecimento. Tentar combater qualquer inflação exclusivamente reduzindo a demanda significa frequentemente impor um custo desnecessário ao conjunto da economia.
A vulnerabilidade ao dólar
O quinto é diminuir nossa vulnerabilidade cambial. O Brasil continua excessivamente exposto às oscilações do dólar. Uma forte desvalorização do real encarece combustíveis, fertilizantes, máquinas, componentes e insumos importados e acaba chegando aos preços internos. A inflação cambial, por sua vez, aumenta a pressão pela manutenção dos juros.
É nesse contexto que a multipolaridade monetária ganha importância. Não se trata de abandonar o dólar, mas de reduzir a dependência exclusiva dele. Ampliar operações comerciais em moedas locais e utilizar, quando economicamente vantajoso, euro, RMB e outros mecanismos de pagamento pode reduzir custos de conversão e exposição cambial.
Por que uma empresa brasileira que compra mercadorias da China precisa necessariamente passar pelo dólar antes de chegar ao renminbi? Quanto maior a diversificação monetária do comércio exterior, menor tende a ser a exposição do país aos choques provenientes de uma única moeda internacional.
Há finalmente outro componente do tratamento: reduzir estruturalmente o prêmio de risco e a inércia dos juros brasileiros. Uma economia que durante décadas ofereceu remuneração extraordinária e praticamente sem risco ao capital financeiro criou interesses, comportamentos e instituições adaptados aos juros elevados. Romper essa lógica exige tempo, credibilidade e continuidade.
Menos juros, menor pressão sobre a dívida
E existe um poderoso efeito fiscal nessa mudança. Uma redução sustentável da Selic diminui progressivamente o custo de carregamento e refinanciamento da dívida pública.
Não é correto multiplicar mecanicamente cada ponto percentual da Selic pelo estoque total da dívida, porque os títulos possuem diferentes indexadores e vencimentos. Mas cada ponto percentual de redução pode representar, progressivamente, dezenas de bilhões de reais de menor despesa financeira.
Uma trajetória de 14% para 7% ou 8%, portanto, poderia produzir economia fiscal muito significativa ao longo dos anos. Menor despesa com juros significa menor déficit nominal, menor necessidade de endividamento e menor pressão sobre a relação dívida/PIB.
Como inverter o círculo perverso
E aqui podemos inverter o círculo perverso. Juros menores → menor despesa financeira → menor pressão sobre a dívida → menor prêmio de risco → condições para juros estruturalmente menores.
O tratamento, portanto, não consiste simplesmente em mandar o Banco Central cortar a Selic. Consiste em criar as condições econômicas para que o Brasil deixe de precisar de juros reais próximos de dois dígitos.
O paciente já foi examinado. O diagnóstico está à vista. O que falta é abandonar a ideia de que o único remédio disponível para qualquer febre inflacionária é aumentar a dose dos juros.
O Brasil pode conviver com inflação controlada, responsabilidade fiscal, crescimento e juros reais civilizados. A Selic de 14% não precisa ser nosso destino.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
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