No artigo anterior, “Brasil: a armadilha dos juros”, procurei mostrar como a persistência de taxas de juros elevadas impõe custos ao crescimento, ao investimento produtivo e às próprias contas públicas. Há, porém, uma segunda dimensão desse problema que merece ser discutida: até que ponto juros altos são realmente o melhor remédio para combater a inflação brasileira?
A resposta depende, antes de tudo, de uma pergunta elementar: de que inflação estamos falando? Se a inflação decorre de um excesso generalizado de demanda diante de uma economia operando próxima de seus limites, a elevação dos juros pode reduzir o consumo e o crédito e, dessa forma, aliviar a pressão sobre os preços. É o mecanismo tradicional da política monetária.
Mas o problema muda completamente quando a inflação vem dos custos ou de restrições da oferta. Imagine uma guerra no Oriente Médio que provoque redução da oferta mundial de petróleo e faça disparar o preço do barril. O diesel sobe, o frete aumenta, os custos de produção se elevam e esses aumentos se espalham pela economia. O que a Selic brasileira pode fazer para produzir mais petróleo? Nada.
Podemos elevar os juros para 20%, 30% ou, por absurdo, 200%. Isso não acrescentará um único barril à oferta mundial. O Banco Central poderá tentar evitar que o choque inicial se espalhe para outros preços e expectativas, mas não eliminará a causa original da inflação.
O paradoxo dos juros altos
E aqui aparece um paradoxo ainda maior. Os juros altos não apenas deixam de produzir arroz, feijão, carne, energia, máquinas ou bens industriais. Mantidos excessivamente elevados, podem inibir justamente a expansão dessa produção.
Todo empresário compara alternativas. Para ampliar uma fábrica, precisa comprar máquinas, contratar trabalhadores, incorporar tecnologia, assumir riscos e esperar pelo retorno do capital investido. Se, por outro lado, encontra elevada remuneração em aplicações financeiras de baixo risco, aumenta o retorno mínimo que exigirá para investir na produção.
Projetos produtivos deixam de ser realizados. Máquinas deixam de ser compradas. A capacidade instalada cresce menos. A produtividade avança mais lentamente. E a oferta que deveria crescer para ajudar a estabilizar os preços permanece limitada.
Forma-se, assim, uma contradição: combatemos a inflação comprimindo a demanda com juros altos e, ao mesmo tempo, dificultamos o investimento necessário para ampliar a oferta. Existe outro caminho.
O Brasil precisa discutir uma estratégia de expansão da oferta. Mais produção de alimentos, mais capacidade industrial, mais energia, melhor infraestrutura, menores custos logísticos, crédito produtivo, inovação tecnológica e ganhos de produtividade.
Nesse contexto, a redução gradual e responsável da taxa de juros deixa de ser apenas uma política de estímulo à demanda. Passa também a constituir uma política de estímulo à oferta, porque reduz o custo do capital e melhora as condições para o investimento produtivo.
Isso não significa imaginar que simplesmente baixar a Selic fará automaticamente o dinheiro sair das aplicações financeiras e correr para as fábricas. Investimento exige mercado, crédito, infraestrutura, segurança econômica e expectativa de retorno. Mas juros reais excessivamente elevados tornam essa decisão muito mais difícil.
O Brasil precisa inverter a lógica
O Brasil precisa inverter a lógica. Em vez de buscar permanentemente o equilíbrio fazendo a demanda caber dentro de uma oferta limitada, precisamos criar condições para que a oferta cresça acompanhando a expansão da demanda. É esse o verdadeiro nó da questão.
Juros altos podem esfriar a economia. Mas não plantam arroz, não produzem feijão, não constroem fábricas, não compram máquinas e não geram energia. Pior: quando permanecem elevados por tempo demais, podem impedir que outros façam exatamente isso.
Combater a inflação não deveria significar apenas produzir menos demanda. Deveria significar, também – e sobretudo – produzir mais Brasil.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
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